Osvaldo Cabral

Alô Bruxelas, temos um problema!



Não há volta a dar: a região tem um problema muito sério nas mãos e só por teimosia política é que não o resolve com coragem e seriedade.
A SATA pode dar cabo da economia regional e se não recorrermos, o mais depressa possível, à ajuda externa, vamos afundar-nos numa viagem que arrastará muita gente para a desgraça.
A passividade do Governo Regional é assustadora, tentando empurrar o problema para depois das eleições regionais, para causar o menor estrago eleitoral possível.
Este sarilho já vai com uma década e o melhor que o governo reconhece, até agora, é que "não é sustentável". Então porque não age?
Para quem vem gerindo a empresa há mais de vinte anos e não consegue apresentar um plano de recuperação, deixando-a enterrar-se de ano para ano, é porque é muito incapaz.
Quem não consegue governar uma empresa com a dimensão da SATA, como é capaz de governar uma região?
A SATA está a 'engolir' todos os nossos recursos, há quase uma década, e já não há retorno possível se não houver um plano de reestruturação financeira com o apoio externo.
A emissão obrigacionista, através do Deutsche Bank, há poucos meses, na ordem dos 65 milhões, já está 'engolida' pelos resultados de 2018.
E ainda temos o passivo acumulado, à volta dos 300 milhões, mais os cerca de 60 milhões de dívida a fornecedores, para além da dívida bancária, que ultrapassa os 160 milhões.
Uma empresa com um retrato destes não tem viabilidade.
Se pensarmos que "só nos últimos quatro anos, já foram transferidos, quer com as concessões das Obrigações de Serviço Público e dos aeródromos, quer com os investimentos nos aeródromos e, ainda, com os aumentos de capital já realizados, cerca de 158 milhões de euros", é de perguntar se vivemos nos Açores, a região com a taxa mais elevada do risco de pobreza, ou no Dubai?
Não é só o problema financeiro.
É, também, a estratégia operacional da empresa, que se viu ultrapassada pela entrada em vigor da liberalização, amarrada a uma estrutura imponente e emperrada, sem planeamento competente, promíscua politicamente e que continua a manter todos estes defeitos como se estivesse sozinha no mercado.
É muito bonito dizer que "foi a SATA que, com a sua operação para a Europa, garantiu que entrassem, entre 2009 e 2014, mais de 50 milhões de euros nas empresas turísticas dos Açores, ajudando, por esta via, a manter emprego na Região, quando este sector estava em grande recessão a nível mundial”, quando passados apenas quatro anos o prejuízo de um ano operacional é maior do que o tal benefício!
Foi esta irresponsabilidade que ajudou a dar cabo da SATA e que, agora, serão os trabalhadores da companhia e os contribuintes a pagar.
Nesta caminhada de desastre em desastre, o mais curioso é que não há responsáveis.
Até a aquisição do A330 - o famoso "cachalote" -, o tal baptizado com grande festa no dia 23 de Março de 2016, no aeroporto de Ponta Delgada, e que vinha ajudar a "desbravar outros mundos", jaz no aeroporto do Porto, porque parado dá menos prejuízo do que a voar!
Quem foi responsável por um negócio destes? Quem assinou por baixo?
Ninguém. Um mistério.
E o mais fantástico no meio de tudo isto, é que o mercado de passageiros está a crescer em todo o mundo e a SATA beneficia com isto, porque as suas vendas têm crescido e aumentaram em mais de 14 milhões de euros de 2016 para 2017.
Então o que funciona mal?
A sua gestão, claro. A péssima orientação política. A desresponsabilização total de quem por lá passou e ainda foi 'chutado' para cima.
A situação desastrosa da SATA é o resultado de uma malha de interesses políticos nada recomendáveis e que vai servir de lição para muita gente, sobretudo aqueles que mais responsabilidades tiveram no seu afundanço e cuja consciência há-de pesar-lhes pela vida fora.
Pensar que ainda há dez anos esta empresa possuía 30 milhões de euros de capitais positivos e que delapidaram tudo, ao ponto dos capitais já serem negativos em mais de 130 milhões, é obra.
A mesma desorientação se vai verificando nas OSP (Obrigações de Serviço Público), completamente desactualizadas e que o governo vai tentando remendar com anúncios esporádicos de novas ligações directas quando visita as ilhas ou o reforço de última hora de voos que há muito deviam estar planeados.
O Verão que se aproxima não augura nada de bom. Mais uma vez.
Alguém vai-se torrar no calor da 'insustentabilidade'.
E um dos que é certo é o contribuinte, que já torrou mais de 100 milhões nos últimos três anos, a que se hão-de juntar os prejuízos mais que certos deste ano.
Que alguém nos acuda.

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VÊM Aí AS "FAKE NEWS" - É já um desfile tradicional nesta época do ano. As empresas públicas regionais enxameiam as redacções da comunicação social com textos sobre os seus resultados anuais (mas escondemj os relatórios) e adivinhem o balanço: tudo com lucros!
Todas altamente subsidiadas, com o dinheiro dos nossos impostos, e têm a lata de anunciar lucros.
As contas de mercearia vêm em papel dactilografado, todo com formato semelhante, com os caracteres todos iguais, como se saíssem de um só gabinete...
Estão a imaginar a marosca?
É isso mesmo!

Maio 2019
Osvaldo Cabra