Osvaldo Cabral

Continuamos a ver navios...

Os Açores entraram em euforia com o crescimento do turismo aéreo, mas esqueceu-se completamente do turismo de cruzeiros.
A actividade de cruzeiros cresceu na última década em todo o mundo mais de 60%, mas entre nós representa ainda uma minúscula parcela deste enorme potencial, apesar de estarmos a aumentar no número de escalas.
A questão não é só saber atrair os cruzeiros, onde até se tem efectuado algum bom trabalho nas feiras do sector a nível internacional.
O problema está dentro de portos, onde, como sempre, há tanta gente empoleirada nos imensos departamentos oficiais espalhados nesta área - portos, turismo, autarquias, empresas - à espera que tudo caia do céu, sem se mexerem para criar uma ambiência diferente na recepção dos cruzeiros, à semelhança do que acontece noutros portos deste país, como Lisboa, Leixões e Funchal.
Estes três portos, que viram explodir a actividade de cruzeiros em tão pouco tempo, fizeram um trabalho minucioso, envolvendo toda a gente do sector, não sendo por acaso que cada um deles tenha um departamento específico para tratar desta área.
Nos Açores é aquilo que se sabe: temos uma ‘Portos dos Açores’ que nem sabe fazer a manutenção dos cabeços de amarração, como é que que se poderá dedicar com atenção aos operadores de cruzeiros?
Há um total desinteresse neste sector, revelador da vergonhosa preguiça que grassa em tantos departamentos oficiais, incapazes de envolver o conjunto de operadores para remarem para o mesmo lado.
Veja-se o que está a acontecer este mês.
Só para S. Miguel estão previstos 32 navios, num conjunto de 48 escalas em toda a região, num total de 70 mil turistas, alguns deles trazendo, inclusivé, jornalistas e pessoal especializado do sector, que nos visitam pela primeira vez, em viagem promocional dos respectivos navios.
Que se saiba, não está prevista nenhuma recepção especial - ou, pelo menos, condigna com a nossa hospitalidade - por parte da ‘Portos dos Açores’ ou da Direcção Regional de Turismo, que em conjunto deveriam desenvolver actividades promocionais e de animação, à semelhança do que se vê nos principais portos turísticos deste país, incluindo aqui ao lado dos nossos amigos madeirenses.
Não custava nada juntar o município, a Câmara do Comércio, a Delegação de Turismo e outros operadores interessados, para colocar grupos de folclore à recepção dos turistas, distribuição de brindes, tendas espalhadas pela Avenida com produtos regionais, animação na baixa da cidade, sobretudo nos dias em que vamos receber mais do que um navio num só dia, como já aconteceu outrora por iniciativa da Azores Cruise Club.
É imprescindível ter uma animação específica para as escalas inaugurais, à semelhança do que acontece em todo o lado, criando uma boa impressão logo à primeira oportunidade, como, por exemplo, no dia 25 deste mês, em que virá um navio em cruzeiro inaugural com dezenas de jornalistas europeus e norte-americanos, quase todos ligados aos jornais, televisões e revistas da especialidade, e que certamente vão ter uma das recepções mais frias nos portos por onde passarão.
No dia 24 vamos ter quatro escalas em simultâneo, imaginando-se o movimento que irá provocar na baixa de Ponta Delgada.
Agora imaginem que as Portas da Cidade poderão estar ocupadas com palcos e tendas para as comemorações do 25 de Abril, retirando aos visitantes a possibilidade de usufruírem do local mais emblemático da cidade...
É importante, igualmente, que os comerciantes apresentem uma decoração apelativa nos seus estabelecimentos e este papel de sensibilização cabe ao turismo local, que pouco se mexe.
Em todos estes aspectos, muito temos que aprender com a Madeira, que possui uma Administração dos Portos (APRAM), equivalente à ‘Portos dos Açores’, com uma visão e dinamismo a léguas dos Açores.
Imaginem que a sua Presidente, Lígia Correia, até sabe que a administração da ‘Portos dos Açores’ vai ser substituída (finalmente!), coisa não falada por cá.
Interrogada numa entrevista, concedida ao Diário de Notícias do Funchal, sobre a possibilidade dos Açores integrarem a CAI (Cruise in the Atlantic Islands), que a Madeira já integra desde 1990 e Cabo Verde já lá está - faltando, como sempre, os Açores -, ela responde assim: “Encontra-se ainda em fase de estudo e análise por parte da Portos dos Açores. Vamos aguardar pela nomeação do seu novo Conselho de Administração para renovarmos o interesse na integração daqueles portos na CAI. Para a CAI constitui uma forma de fortalecer a marca, numa altura em que há uma clara aposta no ‘corredor Atlântico’, onde as ilhas dos Açores têm grande relevância”.
Até a Madeira reconhece isto.
Menos nós, os maiores interessados, ainda à espera da substituição de um organismo que já demonstrou não funcionar e que até agora só sabe estar sentada a ver navios...

Abril 2018
Osvaldo Cabral