Osvaldo Cabral

Líderes que "não são fortuna"



A campanha eleitoral para as nacionais está-se a revelar num imenso desfile de hipocrisia e populismo irracional.
António Costa e Rui Rio são os campeões dessa hipocrisia eleitoral, o primeiro com os disparates que disse na Madeira acerca do subsídio de mobilidade e o segundo com a visita que fez, no passado fim de semana, à terra “que não vale mais do que 12 mil votos”, os tais que “não são fortuna”.
Se tivesse vergonha não se tinha prestado a este papel.
E quem lhe chamou de “intransigente, centralista e divisionista” também se deveria envergonhar de o levar ao colo pela ilha de S. Miguel.
Já António Costa, se tivesse vergonha, em vez de acusar o subsídio de mobilidade de “ruinoso” e “absurdo”, tinha anunciado a solução que se impõe para acabar com a bandalheira, que só o seu governo permite a respectiva continuidade.
Os programas eleitorais, então, são de uma pobreza e irracionalidade nunca vistas.
Até o PAN, imagine-se, sugere acabar com a produção de leite e carne e, não contente com a tontaria, ainda propõe que todo o gado de pastagem deve ter uma sombra!
Cuidem-se lavradores açorianos.
Há muito que a política perdeu sentido neste país. Não admira, portanto, se no dia 6 de Outubro os eleitores voltarem costas às mesas eleitorais.
Mota Amaral tem razão: estamos a precisar de um novo sobressalto cívico.
Se o PS é a pasmaceira que se conhece, então o PSD está bem descrito por Pacheco Pereira: “O PSD está um partido muito fragilizado, sem quadros, entregue a um aparelho que cuida apenas dos seus próprios interesses e não tem qualquer problema em ter maus resultados eleitorais, desde que os seus interesses, na maior parte dos casos lugares, sejam garantidos”.
Vasco Cordeiro, debruçado sobre a varanda de Santana, ri-se que nem um perdido.


UMA REGIÃO QUE FABRICA GENTE POBRE - A seguir às eleições de 6 de Outubro vamos assistir à longa campanha para as regionais do próximo ano.
E, pelo andar da carruagem, já todos percebemos que também vamos ter muita propaganda cor de rosa ao desbarato.
Ela já está sendo desenvolvida, de mansinho, pelos políticos de terceira linha, tipo Directores Regionais e afins fundamentalistas.
Só um exemplo, nos últimos dias, e que se refere ao maior problema desta região: o desemprego.
Continuamos com a maior taxa de desemprego do país, com a maior taxa entre os jovens, mas já nos querem enrolar com a lenga-lenga de que nunca tivemos tantos empregos como agora.
É verdade, mas como muito bem desmontou o Prof. Mário Fortuna, o que estamos a fabricar nestes últimos anos é empregos precários e de baixa qualificação, que gerem baixos salários e fraca produtividade.
Perdemos a batalha na criação de empregos qualificados e os mais talentosos e jovens escolhem, por isso, emigrar.
No ano passado fomos a única região do país que teve um saldo migratório negativo: menos 974 pessoas!
Para onde terá ido essa gente?
É só perguntar às famílias por estas ilhas fora.
Juntando isso à fraca taxa de natalidade, estamos a caminhar para uma região de gente velha e de empregos pobres.
De Janeiro a Abril do ano passado tinham nascido nos Açores 760 pessoas, enquanto que no mesmo período deste ano nasceram apenas 663.
Ou seja, o saldo natural nas nossas ilhas, que já tinha sido de menos 97 naquele período do ano passado, já vai em menos 194 este ano.
Tal como está a acontecer no nosso país, o crescimento do emprego é uma boa notícia, mas o problema é que ela cresce a uma taxa superior à taxa do crescimento da economia.
Até os desempregados dos Açores são dos que menos recebem em valor médio de subsídio: 444,87 euros (média nacional: 501,21 euros).
Vamos caminhar para um estádio em que, mais dia menos dia, deixaremos de gerar filhos nestas ilhas, porque sabemos que, chegados à idade activa, vão ter que partir para outras paragens.
O estudo do Prof. Mário Fortuna é bem demonstrativo: em 2008 os Açores representavam 2,1% da população activa do país. Em 2019 representam 2,4%.
Em 2008 representavam 2,4% dos activos com o 3º ciclo ou menos. Em 2019 representam 3,4%.
Em 2008 representavam 1,8% dos activos com o secundário. Em 2019 representam 2%.
Em 2008 representavam 1,1% dos activos licenciados. Em 2019 representa 1,3%.
O rácio dos pesos dos activos com, no máximo, o 3º ciclo, aumentou de 113% para 141% do peso nacional entre 2008 e 2019. Concentramos mais activos de baixas qualificações.
No caso do secundário baixou de 84% do valor nacional para 82% e no superior baixou de 54% para 53%.
Conclusão: Estamos a perder, em termos relativos com o país, a batalha da qualificação e a fabricar uma região de economia para pobres.


MAIS UM QUE PARTE - Nunca trabalhamos juntos no mesmo jornal, mas fizemos viagens e reportagens juntos e trocávamos, amiúde, longas conversas sobre a profissão.
Nos últimos anos da sua actividade, recebi a difícil incumbência de preencher a coluna do nosso saudoso amigo Jorge Nascimento Cabral, publicada às quartas, no Correio dos Açores, ao lado da de Gustavo Moura.
Foi-se o Mestre, mais um. Fica o memorável trabalho e o exemplo de como é possível ser-se um grande jornalista numa região pequena como a nossa.
Adeus Senhor Gustavo.
Imagino a roda viva que fará no paraíso com o Jorge Nascimento Cabral, Manuel Jacinto de Andrade, Manuel Jorge, Silva Júnior, Manuel Ferreira e tantos outros. RIP

Setembro 2019
Osvaldo Cabral