Osvaldo Cabral

Mais empresas públicas contaminadas



Depois de termos analisado aqui, na semana passada, as contas da SATA referentes ao último ano, tivemos acesso às contas de mais duas empresas públicas, uma delas altamente contaminada pelo opção, errada, de integrar outra empresa no seu grupo.
É um pouco à semelhança da SATA, em que a Azores Airlines deu cabo das contas da Air Açores e, como esta agora está depauperada, virou-se para a SATA Aeródromos, a única que ainda registava resultados positivos, estando já contaminada.
A SATA não tem salvação possível, tal como está, e até já é motivo de chacota internacional, prejudicando a sua imagem junto de potenciais investidores.
Ainda agora deu-se este episódio curioso. O cientista da NASA, Alan Stern, líder da missão News Horizons, que preparou a ida de uma nave a Plutão, contou esta história em Lisboa: “Entre 2001 e 2006, a equipa trabalhou, sem parar, 50 semanas por ano, sete dias por semana para terminar a construção de uma nave que é pequena mas extremamente sofisticada. Foi uma corrida contra o tempo para que fosse possível apanhar Plutão no intervalo de tempo definido” (...) “Chegámos 22 segundos depois do momento traçado, numa viagem de mais de mil milhões de quilómetros durante 1000 dias. Para terem ideia, numa viagem de duas horas dos Açores até Lisboa o avião atrasou-se dez vezes mais do que isso”. Riso geral.
Vamos então à análise das contas de mais duas empresas do nosso falido sector público de empresas regionais.

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LOTAÇOR CONTAMINADA POR SANTA CATARINA - Não foi fácil chegar às contas da Lotaçor, camufladas no Resumo Executivo do sítio da empresa. Quem se lembraria? Mas estão lá.
Se as contas da empresa, que facturou 9,5 milhões de euros em 2018 (cerca de 7 milhões em 2017), com uma imparidade efectiva de 1,3 milhões de euros (incobráveis por insolvência de um cliente), se mantêm em 857 mil euros negativos, os capitais próprios da empresa estão nos 1,16 milhões de euros, graças aos 21,1 milhões de activos fixos (equipamentos) e aos 12,6 milhões de euros de outros investimentos que advêm de financiamentos concedidos à Santa Catarina, da ordem dos 13 milhões de euros.
Rico balanço este!
Já parece o dos bancos antes de rebentar a crise – muitos activos, valor pouco!
O contrato programa com o governo evoluiu de 3,65 milhões em 2016, para 4,38 milhões em 2017 e 5,26 milhões em 2018.
Pudera! Alguém tem de assegurar não só os serviços prestados, como também o serviço da dívida.
Aliás, o relatório, e bem, inclui, na nota 24, as responsabilidades contingentes com a Santa Catarina, dos tais cerca de 13 milhões de euros.
Conclusão: a Lotaçor, independentemente da sua missão fundamental, tem a missão, que lhe é imposta, de segurar o projecto Santa Catarina, que, na verdade, nada tem a ver com a problemática das lotas.
Resulta daí, nas contas consolidadas, um capital negativo de 18,5 milhões de euros, resultante de um passivo consolidado de 53 milhões de euros, entre bancos (cerca de 40,6 milhões), fornecedores (3,8 milhões), Estado (cerca de 3 milhões) e outros (cerca de 5 milhões).
Fica a faltar uma análise detalhada das contas da Santa Catarina.
Certo certo é que está marosca armada neste sector, sem que os responsáveis pelas políticas públicas assumam as suas responsabilidades e sem que os administradores compreendam que não o são para além da vontade dos políticos.
Louva-se o facto de a Lotaçor disponibilizar, no seu sítio da internet, as suas contas, sem esperar pelo momento regulamentar da entrega ao parlamento (Para quando? Já vamos em Julho...).
O mesmo se pode dizer da Atlânticoline, que já disponibilizou as suas contas.
Parecem filhos de uma outra família, embora tenham sido impregnados do mesmo ADN.

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ATLÂNTICOLINE, UM BARCO SEM RUMO - Envolvida em mais um episódio do SPER, num episódio em que foi o protagonista principal, a Atlânticoline é uma empresa cada vez mais mergulhada nas dependências de orientação de políticos e nas torpecerias que se lhes seguem.
As vicissitudes da chegada do barco de Verão são mais um episódio que reflecte bem a incapacidade deste governo para gerir adequadamente os transportes para as ilhas e inter-ilhas, numa expressão de desempenho que, em países desenvolvidos, já teria levado à queda de secretários e mesmo do governo.
Estouram-se dezenas de milhões de euros por decisões erradas, recorrentemente, e nada acontece.
As contas de 2018, finalmente publicadas, num horrível PDF fotocopiado de lado, com uma qualidade digital péssima, para que pouca gente se dê ao trabalho de o decifrar, evidenciam uma estrutura de proveitos em que se vai consolidando a subsidiação em vantagem sobre as vendas.
Dos 15 milhões de euros de proveitos, mais 2 milhões do que em 2017, 4,8 milhões, menos que em 2017 (5,5 milhões) são vendas efectivas a alguém.
O remanescente é, essencialmente, subsidiação do governo, da ordem dos 10 milhões de euros (8 milhões em 2017).
Isto quer dizer que só um terço da operação é comercialmente suportada.
O resto são subsídios.
Para os resultados positivos de 2018 conta a indemnização do afundado Mestre Simão, que contribui com mais de 1 milhão de euros para o resultado de 240 mil euros.
Com tanto calor que vai por aí, um PIT vinha mesmo a calhar!...

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SACO DE GATOS - O PSD-Açores transformou-se num saco de gatos.
Sem credibilidade e sem dirigentes que mobilizem qualquer alminha sem vontade de votar, vai a caminho de mais um recorde de derrotas. Fez bem José Bolieiro fugir deste caldo para o regaço de Rui Rio... que também não está nada recomendável.
Como já aqui referi, do ponto de vista político, os Açores nunca bateram tão fundo: estamos sem governo e sem oposição.
É urgente mudar o sistema eleitoral e chamar cidadãos de mérito para tomarem conta da urbe.

Julho 2019
Osvaldo Cabral