Osvaldo Cabral

Mais uma vergonha nacional



Eis como um professor explica o facto da sua escola se encontrar num dos últimos lugares do ranking das escolas: "Os nossos alunos de agora provêm, sobretudo, do meio envolvente, caracterizado por uma população envelhecida, com dificuldades económicas, integrando muitas famílias monoparentais e apresentando diversos tipos de debilidades. A maioria dos nossos alunos beneficia de apoio económico no âmbito da Acção Social Escolar (...) muitas das famílias dos nossos alunos têm como único recurso económico o Rendimento Social de Inserção".
Lê-se um cenário destes e ficamos convictos de que temos a radiografia perfeita do estado das nossas escolas em várias ilhas dos Açores, as que ficaram piores classificadas no ranking nacional conhecido esta semana.
Não é assim: é pior ainda!
É que esta descrição refere-se à Escola Secundária Alexandre Herculano, no centro do Porto.
Estamos a falar de uma escola da segunda maior cidade do país.
Agora imagine as nossas escolas em cada uma das ilhas, numa região que tem os piores indicadores económicos e sociais do país, que tem a maior percentagem de famílias com o Rendimento Social de Inserção, com uma taxa de alunos com apoio da Acção Social Escolar acima dos 60%, qualquer coisa como mais de 25 mil alunos (S. Miguel atinge os 70%), com o índice mais elevado de famílias em risco de pobreza; como é que estes alunos vão para escola motivados e preparados para competir com as restantes escolas do país?
Estamos a criar uma sociedade de jovens sem motivação nenhuma para o talento, porque a própria sociedade está altamente subvencionada, vive à custa de uma cultura de assistencialismo, que lhe é incentivada pelo poder político regional, e os que se querem livrar disto vão para fora da região e não regressam.
Numa sociedade altamente dependente, a recompensa pelo mérito é coisa rara, a não ser que o cidadão tenha uma boa cunha, possua o cartão do partido, se sujeite a bajular o líder ou tire tempo para colar cartazes.
Antigamente ia-se de chapéu na mão aos governadores civis; hoje é preciso ter estômago para aceder ao emaranhado funcionalismo público regional, o maior empregador destas ilhas.
É por isso que os jovens talentos emigram.
Basta olhar para o saldo emigratório de 2017, em que 1.421 açorianos (e)migraram para outras paragens, um número assustador e nunca visto nos nossos anos de Autonomia.
Muitos deles são, certamente, jovens desiludidos com as respostas para a oferta e qualificação de trabalho.
A nossa região está a perder juventude, pondo em risco o futuro do nosso desenvolvimento.
Entre 2009 e 2017 passamos de 18,6% para 16% de população jovem na nossa região, com um preocupante crescimento de 12,7% para 14% de habitantes com mais de 64 anos.
Estamos a envelhecer nas ilhas, sem nenhuma política virada para o rejuvenescimento, com estratégias completamente erradas nos investimentos nos sectores de actividade - em que a Educação e Formação deviam estar na linha da frente - e , em contrapartida, estamos a enterrar milhões em empresas falidas e num sistema político que nos come os olhos da cara, como a exagerada composição do parlamento e os inúmeros departamentos públicos que nada produzem, em vez de investirmos na Educação dos nossos jovens.
Em 2016/2017 os alunos matriculados eram 46.516, mas em 2014/15 eram 48.639.
Estamos a perder gente nas escolas, mas estamos a ganhar gente a receber o Rendimento Social de Inserção!
Isto faz algum sentido numa região que quer convergir com a Europa?
Em 2014 gastávamos 16,6 milhões de euros no Rendimento Social de Inserção, mas em 2017 gastamos 22,2 milhões de euros.
Há quinze anos gastávamos 8 milhões na Acção Social Escolar; hoje, com menos alunos matriculados, já ultrapassam os 11 milhões de euros. Isto diz bem da pobreza que vai por aí.
Incrível o que se perdeu na Educação em vez da subvenção.
Nunca me esqueço desta máxima do Dr. Álvaro Monjardino, um dos senadores da nossa Autonomia, quando dizia que na nossa região a maior indústria extractiva que criamos foi o subsídio!
Caminhamos, alegremente, para uma sociedade de precariedade.
Estamos a formar gente para tratar de vacas, servir nas caixas dos hipermercados e, mais recentemente, alegrar os turistas, com todo o respeito por estes trabalhadores, que recebem uma miséria.
Basta olhar para os números: a população agrícola dos Açores é de 11,8% da população residente, enquanto no país é de 6,1%
Da riqueza exterior nem vale a pena falar.
Exportamos em 2011 cerca de 117 milhões de euros. E apenas 90 milhões de euros em 2017, metade do que pagamos pelas importações. Uma miséria para a nossa economia.
Como é que as escolas da nossa região podem competir com as nacionais face a todo este descalabro económico e social?
Uma região com mais de 50 mil pensionistas (mais 0,9% em 2017), que aumenta de ano para ano, em vez de apostar nas suas crianças e jovens, que são o futuro das nossas ilhas, prefere gastar as fichas todas nas empresas públicas falidas, na atribuição de subsídios a torto e a direito sem nada em troca e no sustento de uma máquina política que é das mais caras de toda a Europa (a única administração pública do país que aumentou de trabalhadores no ano passado fomos nós, em 3,1%).
Nunca tivemos uma governação com tão maus resultados como esta.
Vasco Cordeiro deixou-se capturar por muitos jovens turcos do partido, que nunca trabalharam na vida, sendo provável que esteja a levar a governação para um poço sem fundo, porque é muita gente sem produtividade a comer da pia pública, nomeadamente as famílias da burguesia micaelense e terceirense, algumas delas até defendiam a independência noutros tempos.
Como as coisas mudaram...
E no estado em que está a sociedade, conformada, acrítica e sem vontade de participar, o mais provável é que nada disto mude.
Se a Educação também não muda, o que vamos ter é uma geração amorfa e acéfala.
Que não sabe que "o fósforo só se inflama em alta temperatura".
Só tivemos isso no célebre 6 de Junho.
Não volta mais!

Fevereiro 2019
Osvaldo Cabral