Osvaldo Cabral

Quem tem medo do Triângulo?


Olha-se para os números do turismo no Triângulo (Faial, Pico e S. Jorge), nestes últimos anos, e fica-se logo com a ideia de que temos aqui um destino próprio, com um potencial para alavancar ainda mais o sector na região.
Então porque não há investimento público nestas ilhas, sobretudo a nível de acessibilidades?
Já uma vez afirmei e as evidências dão-me cada vez mais razão: este governo não gosta do Pico, a ilha com maior potencial turístico dos Açores, a seguir a S. Miguel, castigando o Triângulo e as suas gentes.
A ANA acaba de dar o golpe final à pista do Faial, recusando ampliar a pista para além das obrigatórias zonas de segurança.
Caem, assim, por terra, as promessas de muitos governantes e de Carlos César, o mesmo que em 2004 prometeu que se a República não investisse na ampliação da pista da Horta, a Região assumiria o encargo. Até hoje.
De nada valeu a recente viagem de esmola da Secretária Regional dos Transportes a Lisboa, pedindo a todos os santos que investissem rapidamente nesta obra, coisa que daria muito jeito em pleno ano eleitoral nas regionais do próximo ano.
À semelhança do grande ‘hub’, com apoios do Plano Junker, prometido para o porto da Praia da Vitória, e da escandalosa ‘cadeia de bagacina’ para S. Miguel, os faialenses também podem esperar sentados pelo Governo da República.
Com tanto compromisso não cumprido com os Açores, ao longo desta legislatura, António Costa veio-nos prometer para os próximos quatro anos... um Conselho de Concertação!
Coisa que trará, como se sabe, muita felicidade às nossas vidas...
Ao dizer que a ampliação da pista do Faial, tal como pretendia a Câmara da Horta, “é pouco realista”, “carecendo de viabilidade económica”, a ANA abre uma nova pista, escancarada, ao Governo Regional, para “aterrar” naquilo que é nosso: o aeroporto do Pico.
É aí que o governo se deve focar, promovendo, a partir de agora, todo um trajecto com vista à ampliação da pista da Ilha Montanha.
Não é promovendo estudos para empurrar o problema para a frente.
É criando já os instrumentos necessários para dar início à obra, antes que o turismo fuja para outras paragens por incapacidade nossa.
Esta devia ser a principal prioridade do próximo Plano e Orçamento Regionais.
É tão prioritário como os 15 milhões para o porto Pipas e os mais de 38 milhões para o porto de Ponta Delgada.
Porque é que o bolo do orçamento público há-de ser distribuído apenas por S. Miguel e Terceira?
Porque não há governantes oriundos das ilhas do Triângulo? Porque os seus representantes não têm influência nenhuma?
Porque razão o governo atribuiu apoios para transportadoras operarem em S. Miguel e Terceira e não aplica o mesmo critério para outras ilhas?
O Pico, por exemplo, ainda está a ressentir-se da desgraça que aconteceu na Cofaco, responsável por 8% do emprego na ilha.
Não houve Plano de Revitalização; nenhum membro do governo correu de imediato para a sede dos donos da empresa para minimizar o desastre, à semelhança da viagem relâmpago esta semana a Nova Iorque; não houve nenhum incentivo a uma transportadora low-cost para voar para o Triângulo, apesar de em Fevereiro de 2018 ter sido anunciado que havia negociações com a Ryanair para “voar para outra ilha”, deduzindo-se ser Faial ou Pico.
E o Triângulo sempre sentado à espera...
A má vontade é tanta, que nem resolvem o problema de Santa Maria, incompreensivelmente castigada, certamente por razões eleitorais, estando aqui ao lado, a 15 minutos do maior destino turístico.
As ilhas pequenas têm sido severamente sacrificadas, sem plano de Coesão que as salve.
E, mesmo assim, vão fazendo pela vida.
Por exemplo, se o governo pedir às três Câmaras Municipais picoenses os investimentos turísticos que estão previstos para os próximos tempos nos três concelhos, vai ficar de cara à banda.
Só para o concelho da Madalena, se todos os projectos avançarem, são mais de 500 camas!
Mais: tudo projectos que não descaracterizam a paisagem, como acontece noutras ilhas.
É um erro crasso aprovarmos mais investimentos e promovermos o nosso destino no exterior, quando, depois, não temos capacidade para responder à procura, quer nas acessibilidades, quer nas diversas actividades destinadas aos visitantes.
Basta analisar o desembarque de passageiros aéreos no mês de Agosto deste ano e constatar que a ilha que apresentou maior crescimento homólogo mensal foi a do Pico (8,6%), seguindo-se a de São Jorge (7,6%) e só depois São Miguel (5,8%). Mesmo contando com a habitual desastrosa operação da nossa SATA.
Isto mostra como, no mês onde viaja mais gente, a ilha do Pico é a que regista o maior crescimento a nível Açores, seguindo-se outra ilha do Triângulo, neste caso São Jorge.
Se olharmos, ainda, aos levantamentos internacionais no multibanco, no mês de Agosto, os dados são claros, mostrando como o Pico é a ilha do Triângulo onde houve mais movimento de dinheiro, de pessoas com certeza externas à Região.
Nota, ainda, para o facto de o Triângulo movimentar mais dinheiro internacional do que a Terceira.
Mesmo analisando as dormidas, em Agosto do ano passado, foi o Pico a ilha que registou o maior número no Triângulo.
Se juntarmos a tudo isso uma operação marítima mais inteligente entre as ilhas do Triângulo, temos aqui um destino consolidado e com potencial para crescer muito mais.
É, por tudo isso, inconcebível, a falta de investimento público regional nessas ilhas.
O que nos leva a supor que alguém, neste governo, tem medo do Triângulo.

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BONS VENTOS DA MADEIRA - O PSD perdeu o poder absoluto, velho de 43 anos.
É um bom exemplo para o país e para os Açores, onde nos libertamos de poder semelhante com 20 anos, mas estamos noutro há 23.
Como é sabido há séculos, o poder tende a corromper, mas o poder absoluto corrompe mesmo.
Sentimos isto na pele há longos anos, pelo que os resultados na Madeira abrem uma janela de esperança.
Precisamos muito de mais debate cívico, envolver mais os cidadãos, abrir mais o sistema, dar mais fôlego à democracia.
O poder absoluto trava tudo isso.
Foi o insuspeito António Costa que declarou, há poucas semanas, que “os portugueses têm má memória das maiorias absolutas, quer as do PSD, quer as do PS”. E tem toda a razão!
Não sei se estaria a referir-se, também, às dos Açores, mas pelo tom de festa com que ele, em Lisboa, anunciou, na noite eleitoral, a perda da maioria absoluta do PSD na Madeira, só é de esperar que faça o mesmo no próximo ano... em relação aos Açores.

Setembro 2019
Osvaldo Cabral