Osvaldo Cabral

Uma fuga à António Costa



Lembram-se da teimosa cegueira de António Costa perante os incêndios do Verão?
Vasco Cordeiro decidiu imitá-lo no polémico caso da Arrisca.
O esclarecimento inócuo do governo regional sobre esta imoralidade, denunciada na auditoria da Inspecção de Saúde, é verdadeiramente surreal.
É o mesmo que assobiar para o lado e deixar a banda passar.
O governo não esclarece nada e apenas confirma o que vem relatado na auditoria.
O que os cidadãos contribuintes precisam de saber é se o governo está de acordo com a imoralidade ali descrita.
Ninguém fala em irregularidades - que até poderão existir - , o que se pede e se exige das instituições públicas é que sejam parcas, transparentes e rigorosas com os dinheiros públicos.
Arranjar esquemas para acumular salários pode não ser irregular, mas é de uma imoralidade imensa, porque se trata de uma instituição de solidariedade social.
A Presidente da Raríssimas não terá cometido nenhuma irregularidade ao comprar gambas para comer com a Rainha de Espanha, mas cometeu uma imoralidade numa casa em que os gastos com dinheiros públicos devem ter outras prioridades.
Ora, acumular contratos, ainda por cima com a bênção de duas Secretarias Regionais, pode também não ser irregular, mas é imoral, porque, como muito bem diz a Inspecção de Saúde, "não se compreende como pode uma IPSS remunerar o exercício de funções técnicas, com dinheiros públicos, no valor de 4.067 euros", o que vai "muito para além dos valores praticados na administração pública ou mesmo no sector privado".
A posição do governo torna-se ainda mais grave, ao admitir que tudo isso é normal, porquanto está a convidar todas as IPSS desta região para fazerem o mesmo.
É como dizer: "Meus senhores, façam exactamente igual, que estamos aqui para dar cobertura e até mais dinheiro".
Vasco Cordeiro devia lembrar-se do caso com a sua colega Ana Paula Marques, então Secretária Regional do Trabalho e Segurança Social, que não cometeu nenhuma ilegalidade na atribuição de uma bolsa de estudo ao filho para um curso de piloto de aviação civil, mas que este teve a hombridade de devolver a verba.
Com que credibilidade é que a Directora Regional irá falar em público, em nome do governo , sobre problemas de saúde e solidariedade social?
E com que autoridade quando for para pedir parcimónia nos gastos das IPSS?
O que não pensarão os inúmeros dirigentes de IPSS por estas ilhas fora, que trabalham de forma voluntária e humilde?
E os profissionais dessas instituições, que ganham mal, às vezes com salários em atraso, sem horas extras pagas e muitas vezes sem horários?
Proteger a todo o custo governantes que tiveram uma acção imoral e eticamente reprovável, seja em que situação for, é um erro político que se paga sempre, mais cedo ou mais tarde.
António Costa pagou caro, com humilhação popular e com um forte puxão de orelhas do Presidente da República.
Cá não temos ninguém que puxe as orelhas ao governo e, pelo que se lê da auditoria, nem há fiscalização eficiente dos dinheiros públicos desta região.
Como é possível que os inspectores não tivessem aprofundado a auditoria por falta de recursos, nomeadamente dinheiro para pagar as deslocações da Terceira para S. Miguel?
Como é possível que não lhes tivessem sido disponibilizados recursos para analisarem os contratos com o médico Paulo Margato, que acumulava as funções na Arrisca com o cargo na Unidade de Saúde de S. Miguel, e que no espaço de três anos duplicou a remuneração de 1.500 para 3 mil euros?
As auditorias que se fazem nesta região, incluindo aquelas que o governo já anunciou para outras instituições, são feitas assim? Com esta ligeireza? Os inspectores vão ter recursos para se deslocarem a outras ilhas?
Outro pormenor: as auditorias fazem-se, não se anunciam.
Quem nos garante que as instituições que vão ser auditadas já não terão arranjado estratagemas para esconder eventuais irregularidades?
E os resultados das auditorias vão ser conhecidos do público ou, à semelhança da efectuada à Arrisca, os contribuintes não merecem saber como são gastos os seus impostos?
Porque é que se escondem estas coisas dos cidadãos?
Se o dito esclarecimento do governo é surreal, o da Arrisca é do outro mundo.
Confirma, também, tudo o que vem relatado na auditoria e atira-se ao jornal que a revelou.
É o argumento típico de quem está em desespero: não sabe como se explicar, então mata-se o mensageiro!
E é gente assim que está a dirigir instituições com tamanha responsabilidade.
Toda esta história é muito triste e reveladora da podridão que se instalou nestes últimos anos, onde uma elite política, de conhecidos e amigos, se vai aproveitando das carências da sociedade e até dos excluídos e dos pobres, para fazer de tudo isso um negócio.
A imoralidade perdeu a vergonha em muitas elites locais.
São muitos os casos de gestão desastrosa e danosa que vão aparecendo nestes últimos tempos, sintoma de falta de pulso político, com muita gente confortavelmente sentada no luxo dos seus gabinetes à espera que a realidade lhes rebente pela cara dentro.
Marcelo Rebelo de Sousa, na sua mensagem presidencial de Ano Novo, dizia que o país precisa de se reinventar.
Imagine-se, então, nos Açores.
Não só precisam de ser reinventados, como também de uma boa dose de ética, humildade, transparência, rigor e sensatez, para além da urgência em varrer o imenso lixo que vai por aí.
Receio que uma incineradora não seja suficiente.

Janeiro 2018
Osvaldo Cabral