Osvaldo Cabral

Uma grande calamidade!






Olha-se para as contas das empresas públicas açorianas deste segundo trimestre e já nem dá para arrepiar.

É uma calamidade continuada e agravada, como um doente em estado de coma, a quem se dá mais uma dose de anestesia para não acordar.

De trimestre em trimestre, a dose é cavalar.

As contas agora conhecidas revelam a tradicional evolução para a falência de tantas empresas, como a SATA, a Lotaçor, a Sinaga e todo o sistema de saúde.

As poucas que apresentam valores mais equilibrados são as que são suportadas, sobretudo, por subsídios, o que vai dar ao mesmo, porque somos todos nós a pagar.

O grupo SATA é um caso perdido, que se teima em empurrar com a barriga para a frente, de renegociação em renegociação com a banca, até à queda final, porque a fonte vai secar e alguém vai ter de pagar.

O desequilíbrio é demolidor e realça a insignificância dos aumentos de capital já anunciados pelo governo, cuja concretização se fará ao longo de um período demasiado alargado para a urgência da situação corrente.

O quadro que aqui publico evidencia o cenário calamitoso.

Resumindo a análise às contas, temos um resultado líquido negativo de -28,2 milhões de euros, que corresponde, até a Junho, a 49% das vendas.

Desastre maior não pode haver.

O défice da Air Açores também representa 22,6% das vendas ou 12% dos proveitos totais.

É o que se chama um poço de ar acelerado de degradação das contas.

A dívida a fornecedores de 18,8 milhões na Air Açores representa 60% dos proveitos e 115% das vendas, o que certamente deixará os parceiros comerciais à beira de um ataque de paciência.

Curioso é verificar a elevada concentração de dívida bancária na Air Açores e a baixa dívida da Internacional, situação compensada com os 106,9 milhões de outra dívida que deverá ser, na sua maior parte, empréstimo da accionista Air Açores.

Embora a situação da dívida a fornecedores seja ligeiramente melhor, o passivo da Internacional passa de 71 milhões em Dezembro de 2016, para 94 milhões em Setembro de 2017, 106 milhões em Dezembro de 2017 e 150 milhões em Junho de 2018.

Ou seja, em menos de dois anos o passivo mais do que duplicou.

Não admira que, com este percurso de queda livre, os capitais próprios sejam negativos nos montantes apontados.

A Junho de 2018, para equilibrar os capitais próprios (o normal é que sejam positivos), seria necessário que o accionista entrasse com cerca de 133 milhões de euros de reforço de capital, coisa impossível porque os cofres do accionista também estão limpos...

Calamidade semelhante, mas em outras dimensões de referência, é a que se vai passando na Sinaga e na Santa Catarina.

Na Santa Catarina, para suportar os 15 milhões de euros de passivo, com um capital próprio de -5,6 milhões de euros, a facturação de 3,9 milhões de euros gerou 428 mil euros de prejuízo (11% das vendas).

A expectativa é de que, ao menos, a marca valha o suficiente para cobrir a dívida e sobrar alguma coisa para o vendedor.

Já no caso da Sinaga, para suportar o passivo de 28 milhões de euros, espera-se uma boa venda de património com muitos interessados, já que da actividade corrente só se retira que as vendas de 990 mil euros e o subsídio de um milhão de euros só deram um resultado negativo de 161 mil euros, depois de juros de 383 mil (20% das vendas mais subsídios).

Outra calamidade é a que vai no sector da Saúde, concretamente a futura integrada (mas que ainda mexe) Saudaçor, e os três hospitais (ver o outro quadro).

No primeiro semestre de 2018, os hospitais registaram mais 10 milhões de euros de resultados negativos, que acrescem aos capitais próprios negativos, que já vão em cerca de 287,5 milhões de euros.

Se somarmos os 133 milhões de capitais negativos do Grupo SATA temos, só aqui, uma descapitalização de 420,5 milhões de euros.

Voltando aos hospitais, curioso é verificar que entre clientes e outras contas a receber os hospitais têm a haver cerca de 137 milhões de euros.

São dívidas de quem? Não dizem, mas o mais certo é ser um cliente quase único: o governo , o tal que não paga a tempo e horas a ninguém.

Este valor seria suficiente para liquidar a dívida a fornecedores e sobrava ainda alguma coisa para a tesouraria corrente.

Moral da história: se o tal cliente pagasse tudo a tempo e horas não era necessário esmifrar os fornecedores com esperas piores do que as das salas de urgência e poupava-se (muito!) nos juros das dívidas bancárias.

É que, independentemente da dívida da Saudaçor, que já vai (ia, a 31 de Junho) em quase 700 milhões de euros, os hospitais ainda devem à banca mais 122 milhões.

Aqui está um belo cenário do "novo ciclo"... calamitoso!





Outubro 2018

Osvaldo Cabral