Osvaldo Cabral

Uma Primavera nada florida?



Chegamos à Primavera, ainda não terminou o primeiro trimestre de 2019 e já há sinais de que algo está a ficar diferente na economia.
O abrandamento a que estamos a assistir não é recessão, mas é um aviso.
Numa economia tão débil como a dos Açores, é conveniente que nos precavemos para o que aí vem, que não parece nada primaveril.
As instituições internacionais já tinham alertado que 2019 seria o pior ano da Zona Euro desde o início da retoma, com projecções de desaceleração nos principais parceiros do nosso país.
Com o corte das previsões de crescimento económico e com todos os países a reverem em baixa as suas projecções, teremos nos próximos dois anos que evitar riscos e inovar muito nos negócios.
Ora, sabendo-se que a principal economia dos Açores está em crise, preparando-se, inclusivé, para reestruturar, mais uma vez, o sector, reduzindo explorações agrícolas e efectivo leiteiro, as dificuldades na indústria, o proteccionismo dos mercados e a nossa crónica ineficiência na rede de transportes marítimos ou de carga aérea, o mais provável é que vamos sentir na pele os efeitos negativos ou repercussão (que o FMI chama eufemisticamente de "carry-over") provocados por uma ilusão optimista que se viveu nestes últimos anos, agravados pela ausência de reformas públicas e por uma legislatura eleitoralista para contentar imensas clientelas.
Os sinais na nossa região não são muito diferentes.
Vamos ter um ciclo eleitoral e, como é tradicional, vamos assistir a muitas promessas, compromissos, primeiras pedras, inaugurações, foguetes e foguetões, muita coisa não passando do papel, mas pelo meio algum desvario partidário no calor do entusiasmo para segurar eleitores.
Estamos a diminuir o desemprego a um ritmo muito menor do que o país, estamos com um recorde de taxa de desemprego jovem e, pior do que isso, é a baixa produtividade no nosso mercado, fruto de baixas qualificações e de uma cultura de subsidiação que dá cabo da economia regional.
Houve, novamente, uma euforia de endividamento bancário, o que não é bom sinal para uma população em que um quarto dela vive no limiar da pobreza e em que um em cada cinco açorianos vive com menos de 400 euros.
Se somarmos isso à elevada taxa de Rendimento Social de Inserção (7,5%) e ao crescente envelhecimento da população na maioria das ilhas, temos então um caldeirão social nada recomendável.
O próprio sector do turismo, que ainda vai crescendo, também está abrandar (já estamos em queda nas dormidas dos estrangeiros nos estabelecimento hoteleiros) e os proveitos não serão ainda suficientes para gerar mais e melhor distribuição de riqueza, porque muitos empresários estão a pagar dívidas dos anos de crise.
O investimento público é praticamente inexistente e os últimos anos limitaram-se a alimentar a poderosa máquina da administração pública regional, engolindo recursos que poderiam ser investidos na criação de riqueza.
Temos um sector empresarial público que se mantém como um dos piores venenos da nossa economia e algumas dessas empresas já usam como padrão o imenso calote a fornecedores, prejudicando ainda mais o ambiente económico regional.
Os hospitais da região, por exemplo, já se tornaram num caso crónico. Pagaram algumas dívidas em atraso, mas já estão novamente no rumo do desacerto.
A estimativa de pagamento, neste momento, é de 8 meses, quando devia ser no máximo 3. É quase o triplo do tempo.
Pelas informações que acabamos de obter, a dívida, só a fornecedores locais de medicamentos, deve rondar os 10 milhões de euros.
Mas há os outros fornecedores de outros serviços, como electricidade e água, e depois há os fornecedores externos que são pacientes porque cobram o que querem perante um cliente que, normalmente, não cumpre e dispõe-se a pagar o que for necessário. Para prejuízo de todos nós.
A divulgação dos relatórios com o fecho de contas públicas deve estar por semanas, mas o que se vai sabendo não é nada bom, sobretudo na SATA e na Lotaçor, com trocas de papéis entre as sedes das empresas e a Vice-Presidência, certamente para os procedimentos habituais da engenharia financeira, com vista a enfeitar o impacto negativo das respectivas actividades.
Desgastamos imensa energia nesta rede de interesses e incompetências públicas e nunca estivemos tão mal, nestas últimas décadas, na definição de objectivos estratégicos para a nossa economia.
Tudo vai surgindo assim desgarrado, conforme a conjuntura e a bondade externa, sem consistência e sustentação suficiente, como a agora anunciada Agência Espacial Portuguesa.
Não nos preparamos para isso, nem se vislumbra nenhuma estratégia regional, a não ser assinar papéis, pelo que a mão de obra qualificada nesta área, a ser necessária, virá de fora.
Ou seja, entramos no investimento, damos a casa e o quintal, mas os outros é que virão cá ocupá-la, a começar pela Fundação de Ciência e Tecnologia, ficando as mais valias no Minho e Aveiro.
Estamos cada vez mais dependentes do exterior em quase tudo. Até dos produtos alimentares, em ilhas onde a fartura de outrora carregava navios para exportação.
Veja-se o recente estudo do SREA, comprovando que até as grandes superfícies comerciais compram mais produtos alimentares fora da região (118 milhões de euros) do que cá dentro (47 milhões).
Com o Indicador da Actividade Económica dos Açores, publicado regularmente pelo Serviço de Estatística, a dar sinais de queda abrupta, o mais provável é que não haverá ciclo eleitoral recheado de promessas que nos salve.
É rezar pela China e por menos asneiras de Trump.

Março 2019
Osvaldo Cabral