Osvaldo Cabral

Vem aí a factura!



Bem que avisamos que um dia a factura ia chegar.
Ela está a chegar aos poucos, com uns a pagar mais do que outros... por agora.
Os faialenses, picoenses e jorgenses já estão a sentir os efeitos do estampanço nos transportes aéreo e marítimo de passageiros, mas a factura vai aumentar e aí todos os açorianos vão ser chamados a pagar, sem bufar.
A desorientação que se instalou na administração pública regional, com o funeral de empresas públicas e outros a caminho do crematório, agravada pela falta de estratégias de reformas no nosso sistema de governação, vão ter um preço alto a pagar por todos nós.
Os terceirenses também já tinham sentido a desorientação no sector dos transportes e estão a pagar este ano com a diminuição de turistas e menor actividade económica (é talvez por isso que seja a única em que o número de ocupacionais aumentou... na terra do Tech Island!).
Mas não fica por aqui.
Agora chegou a vez dos pescadores e armadores, esta classe de gente que não vê derramada na sua actividade a manta de fundos de milhões que outros sectores, muito cirurgicamente, vão recebendo.
A Lotaçor, como já tinha alertado o Tribunal de Contas, está em falência técnica e alguém tinha que pagar o descalabro destes anos.
Quem devia ser?
Lá aumentaram as taxas aos pescadores e armadores, ironicamente numa altura em que as capturas são quase inexistentes, sobretudo a do atum.
A situação da Lotaçor, à semelhança das outras empresas públicas em estado permanente de aflição, é o reflexo de uma opção toda falhada nos últimos anos, transformando-a num "Grupo", para intervir na Espada Pescas e na Fábrica Santa Catarina.
O que devia ser um Serviço Regional de Lotas, para regular, disciplinar e fiscalizar as descargas de pescado, transformou-se num monstro financeiro, sem forma muito definida, à semelhança da SINAGA.
Mas, contrariamente à SINAGA, que deixou de ter função útil, a da Lotaçor é cada vez mais importante quanto mais vão rarear os peixinhos no fundo do mar.
Optou por uma estratégia de integração vertical – que está cada vez mais a cair para a horizontal.
Ao todo, segundo os dados de há dois anos, a empresa geria 11 estabelecimentos de lota e outros tantos portos de pesca.
Pelas suas actividades de interesse público recebeu do governo, em 2016, cerca de 3,65 milhões de euros, e assim continuou, aumentando mesmo o número de colaboradores, que já ia nos 190!
O seu passivo era seis vezes maior do que os proveitos.
Só os juros levavam mais de 21% dos proveitos.
Isto é uma instituição de financiamento ou uma lota?
Claro que tinha de acabar mal.
Pagam agora os pescadores.
Mas a factura vai cair também no bolso de todos os açorianos, que nem sabem o que lhes vai sair na rifa com as contas actualizadas deste ano.
Por alguma razão elas andam escondidas.
Já estamos no final do primeiro semestre de 2019 e ninguém sabe quais as contas das empresas públicas de... 2018!
Muito menos as do primeiro trimestre deste ano, que já deviam ter sido divulgadas publicamente, conforme promessa do Governo Regional.
É isto a "transparência pública" na nossa região: paga e cala-te!
Isto não vai acabar bem.

Junho 2019
Osvaldo Cabral