Sandra Garcia

A Crise na Europa: Lições de uma Ateia Confessa



No meio das declarações eufóricas de vitória do PS, nacional e regional, ninguém conseguirá esquecer tão cedo, as esmagadoras taxas de abstenção, que nos Açores ultrapassou mesmo os 80% .

Em meio às críticas fáceis ao eleitorado, acho que fica claro que tantos não podem estar tão errados; provavelmente a maioria estava desinteressada porque os responsáveis políticos fizeram deste, um ato eleitoral desinteressante: não só nacionalizaram o discurso e a campanha, como quem está no poder convenientemente nacionalizou e, nosso caso, regionalizou, os efeitos positivos da União Europeia, europeizando apenas os aspetos negativos da omnipotente burocracia que tudo rege, das quotas de produção ao tamanho das maças.

Mas mais interessante a meu ver, já que por estas bandas tudo como dantes, foi ver as novas tendências de um xadrez político europeu com o reforço dos partidos ambientalistas e dos partidos de extrema direita.

Da mesma maneira que acho que o eleitorado se desinteressou destas eleições porque não lhe deram grandes alternativas, também não creio que a maioria destes votantes na extrema direita sejam fascistas ou xenófobos; acredito antes que foram empurrados para essas franjas pelos ditos partidos tradicionais que deixaram de falar claro ao eleitorado.

A crise europeia não é de hoje, é certo, mas tem sido bem alimentada nos últimos tempos pelo histerismo do multiculturalismo e do politicamente correcto.

Perdemos a nossa alma, e o pior é que a entregámos de bandeja. Uma mensagem muito clara e desassombrada deixada na passada segunda-feira, no Prós e Contras, pela historiadora Fátima Bonifácio.

Sem papas na língua fez o historial recente de como apagámos qualquer referência, no quadro da União Europeia, às nossas raízes culturais e à nossa matriz judaico-cristã, extirpando a nossa espiritualidade para não ofender a de outros: “(…) não há comunidade humana que se sustente sem substrato espiritual, sem contrafortes transcendentes e, portanto, religiosos”, declarou a historiadora, por sinal ateia confessa, mas perfeitamente ciente da importância dos valores culturais, sociais e espirituais de qualquer cultura como de “importância absolutamente decisiva, condicional de tudo”.

A troco de quê, perdemos a nossa alma, a nossa matriz identitária? Com medo de parecer mal na fotografia. Pelas nossas mãos estamos a perecer. Aprendemos a ter medo de ver a verdade, quanto mais de falar a verdade. A Historiadora não tem dúvidas de que transformámos a nossa tradição auto-crítica, que tanto nos fez progredir no passado, em masoquismo: “A Europa, culturalmente, está de joelhos, deixou-se completamente vencer por outras culturas que culpabilizam a Europa por todos os males do mundo”.

Com tudo isto não é motivo de regozijo que o eleitorado procure respostas nos partidos extremistas, mas espero que encaremos este facto como um cartão amarelo que, quando atempado, pode fazer a diferença. Para começar talvez não seja mau começarmos a acarinhar os nossos valores e a nossa índole. Como podem os outros respeitar-nos quando não nos fazemos respeitar?

Seria melhor que os responsáveis políticos deixassem de atribuir rótulos aos outros para silenciarem outros tantos e passarem a dizer a verdade: “A Europa não tem capacidade cultural, social e económica para acolher milhões de refugiados”.

A solução então é virar a cara? Também não. Neste, como em todos os casos aplicáveis, sou a favor é de dar a cana e não o peixe. Para começar pediria aos responsáveis europeus que voltassem a reunir com a Liga Árabe sobre este drama que é, primeiramente da sua responsabilidade, e que, desta feita, não viessem com uma mão cheia de nada como em fevereiro último. Basicamente deixem-se de floreados – de os ouvir e de os repetir – e providenciem resultados.

Sandra Garcia