Sandra Garcia

E se o Ricardo Araújo Pereira se candidatasse?



A notícia correu mundo: o novo Presidente da Ucrânia é um comediante, e não creio que os ucranianos achem que este resultado foi uma piada, antes uma pedra no charco.

No dia em que foi anunciada a sua vitória vi um excerto de um debate entre os dois. O anterior Presidente, e recandidato, esgrimia o argumento da experiência, fazendo analogias com pilotos e médicos, questionando a audiência se confiariam em alguém sem experiência para voar ou para se submeter a uma operação. Zelenskiy, o tal que era comediante e agora é presidente, respondeu dizendo que devia a ele, Poroshenko, e à sua governação o facto de se ter candidatado.

Há várias razões para esta vitória, como as há em qualquer eleição. Para alguns o seu voto não foi tanto na pessoa de Zelenski como o foi contra Poroshenko, o chamado voto contra – contra o poder instalado, contra a corrupção, contra a ineficácia. Para outros foi uma aposta em algo novo porque, como o disse e bem, Einstein: “Loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual!”

A tudo isto, acrescente-se a popularidade de Zelenski como ator e comediante e o poder da imagem, no caso presente com o apoio inequívoco de uma grande cadeia de televisão.

Há quem desdenhe a solução, no entanto não é qualquer um que pode ser comediante: fazer humor, com graça e pertinência, não é para qualquer um. Na verdade, feito com pés e cabeça é uma arma eficaz contra a prepotência, contra os excessos, contra os desmandos. E por isso um bom comediante é temível. Bem o sabem, não só os ditadores mas principalmente os governantes pseudo-democratas, já que com os primeiros nem é admissível que tenham espaço para agir – que o diga o humorista Diogo Faro, recentemente impedido de entrar no Irão -, enquanto que na segunda hipótese têm que os suportar com raiva surda, porque sabem que fazem estragos.

Não é a primeira vez que surgem candidatos improváveis um pouco por todo o lado e creio bem que este é um cenário que se irá tornar cada vez mais regular com a progressiva quebra de confiança dos eleitores nos candidatos usuais, dos partidos tradicionais que não conseguem dar respostas adequadas aos anseios das populações.

O receio é que esta tendência tanto pode dar certo, nem que seja pela diferença, como pode correr muito mal. É precisamente quando os partidos tradicionais deixam de dar resposta que toda a panóplia de possibilidades emerge, incluindo respostas extremistas por oposição aos discursos cinzentos, sem imaginação, os tais politicamente corretos e realisticamente insatisfatórios, que empurram o eleitorado para escolhas fora da caixa.

Fora essas franjas extremistas, quer à esquerda, quer à direita, que assustam pelo que defendem e pelo que podem significar, até como atentatórios contra a própria democracia, de vez em quando haver alertas deste género aos políticos de carreira, que no fundo têm como mensagem “Já basta!”, têm o seu valor inquestionável, nem que seja como aviso à navegação nos demais países, do que pode acontecer quando o eleitorado se farta da corrupção, do compadrio ou da ineficácia.

Na verdade pergunto-me qual seria o resultado se em Portugal (em que apesar de tudo o eleitorado ou vota no que já conhece ou opta pela abstenção) alguém como o Ricardo Araújo Pereira se candidatasse a um cargo político?

Seria, no mínimo, interessante, afinal não lhe falta inteligência, perspicácia, popularidade e imagem. Muitos haveriam de tremer perante a hipótese e, ainda que não se enquadre dentro do meu ideal político, não me importaria nada de assistir ao pânico dos instalados. Ficção? Também assim o pensou Poroshenko… agora não o pensa mais.

Sandra Garcia