Sandra Garcia

Geografia, Historia e o Erro de Nemésio



É sempre um desafio escrever publicamente, principalmente em órgãos de comunicação de âmbito regional. As hipóteses de sermos mal interpretados está sempre presente, principalmente, como é o caso de hoje, quando o assunto é difícil. Para evitar a crítica fácil, a polémica, a única hipótese seria escrever só sobre coisas positivas, consensuais, fáceis de digerir. Para isso era preciso que tudo fosse digerível. Não é o caso.

Na semana passada foram anunciadas obras de beneficiação no porto de Ponta Delgada no valor de 41 milhões de euros, transformando-o no hub regional.

Após a concentração das ligações aéreas, internas e externas, em Ponta Delgada avança-se agora para a concentração dos transportes e carga marítima, isto depois de ter sido falada, discutida e estudada a hipótese de se criar um hub no porto oceânico da Praia da Vitória.

Tudo isto tem um timbre de cunho centralista como nunca se viu na Região. Todos os grandes investimentos estruturais e fundamentais se fazem em Ponta Delgada, independentemente dos custos, da lógica, da operacionalidade e da geografia que dita que a centralidade é um ponto fulcral como base operacional de tais estruturas. Quando Vitorino Nemésio disse que, para nós, açorianos, a geografia “vale outro tanto como a história” não estava, com toda a certeza, a pensar nesta reviravolta, contudo, também contrariando a geografia se faz história, pelos vistos.

Cada vez fica mais evidente este frenesim centralista do Governo de Ponta Delgada com custos reais para as outras ilhas onde impera o desinvestimento e aumenta a desertificação e com custos muito sérios para a Autonomia, fragilizada por estes jogos de poder político e poder económico, dando razão a muitas vozes que vão surgindo, como a do escritor Joel Neto que sustentou publicamente que “Os Açores não precisam de reforçar a Autonomia: precisam de que Lisboa volte a estar presente” na equação. Na verdade isto de quem distribui a riqueza e decide os investimentos ser parte interessada dificilmente poderia ser sempre isento, mas nunca pensei que pudesse ser tão ostensivo.

Não faltará quem tente usar a carta do bairrismo, sempre empunhada quando qualquer crítica surge, mas na verdade o bairrismo é fomentado e incentivado, isso sim, por esta governação que nos condena a uma Região a dez velocidades: a de Ponta Delgada, a do resto de São Miguel, e a das outras 8 ilhas.

Nem sequer o argumento demográfico já cola: em todos os espaços que congregam várias realidades geográficas, demográficas e económicas diferentes, desde Regiões Autónomas como a nossa até aos grandes palcos políticos internacionais, como a União Europeia, o intuito é sempre o da mitigação das diferenças e assimetrias, até com discriminação positiva para o alcançar, menos entre nós.

Perdemos todos, acreditem. A nossa Autonomia foi construída com base na crença de que, a governação nas nossas mãos seria mais justa, apropriada e equitativa do que a governação longínqua de Lisboa. Esse era o sonho. Não foi tanto a Autonomia que nasceu da Açorianidade, esta nasceu ou potenciou-se com o nascimento da Autonomia. Durante cinco séculos este mar, que tanto potencial tem para nos unir, manteve-nos afastados e era muito o que não tínhamos em comum, desde os sotaques próprios até às diferentes manifestações culturais. Quando os pais da Autonomia a sonharam, tiveram o cuidado de estabelecer equilíbrios, baseados numa tripolaridade de que só remotamente nos lembramos agora. Bairrista, não. Saudosista, sim.

A História dará conta de tudo isto, e tal como os Pais da Autonomia ficaram nos seus anais, assim também os algozes da Autonomia figurarão: os ativos e os permissivos e calados nos corredores do poder.

Sandra Garcia