Sandra Garcia

O Azorexit do PSD-A


Ainda antes do Brexit chegar à luz do dia eis que se dá o Azorexit do PSD Açores.

À partida pareciam estar reunidas todas as condições para que tudo corresse pelo melhor: um líder nacional conhecido pelas suas posições a favor da descentralização e da regionalização que, aquando da sua ação de campanha aos Açores declarou a sua disponibilidade para manter a tradição de assegurar um lugar elegível para os Açores; um candidato forte, o histórico Dr. Mota Amaral, com um currículo ímpar e uma referência incontornável do Partido que extravasou há muito o âmbito regional e que, cumulativamente, tinha apoiado a candidatura de Rio contra a maioria nos Açores que apoiara Santana, e, finalmente, um jovem líder da estrutura regional, Alexandre Gaudêncio, sem excessos de bagagem ou de vícios, no seu período de estado de graça, com amplitude total para negociar as suas escolhas, processo esse facilitado até pela elegante e mais que atempada decisão e anúncio de Sofia Ribeiro, em Outubro de 2018, de que não se recandidataria para que se pudesse “garantir uma solução de sucesso” e se aproveitasse a janela de “precisamente sete meses para se preparar a próximas eleições, num processo de transição atempada e tranquila de que os seus sucessores não dispuseram”- disse então.

Todos os ingredientes certos mas que levaram a um resultado decepcionante. Tal como dita a Lei de Murphy tudo o que poderia correr mal, correu mesmo, no pior momento possível.

Alexandre Gaudêncio admitiu, quando avançou com o nome de Mota Amaral, que com isso pretendia pressionar a direção nacional do partido para dar aos Açores um lugar elegível. Poderia ter dado certo se não estivéssemos a falar da mesma personalidade que nunca se deixou coagir por ninguém em nenhuma circunstância, nem mesmo pelo peso pesado que é o Futebol Clube do Porto quando era Presidente da Câmara portuense. Esqueceu-se ainda de que só se avança com um nome desta craveira quando tudo está garantido e mais do que negociado a portas fechadas com margem para se avançar ou recuar sem fazer perder a face a ninguém.

Rui Rio esqueceu-se quando veio aos Açores, que não se deve garantir nada antes de ter todas as cartas na mão; que estas negociações são sempre difíceis e que são mais os interessados do que os lugares elegíveis. Mas esqueceu mais: esqueceu-se que o país deve aos Açores e à Madeira aquilo que o torna mais interessante a nível europeu: a sua posição geoestratégica e a sua vastidão e potencial oceânico.

A partir daí tem sido o descalabro, sendo que as reações de ambas as partes deixam muito a desejar. O resultado é que, pela primeira vez, o PSD Açores não tem um candidato num lugar elegível. Não foi apenas um Azorexit do PSD-A foi um hard Azorexit.

A Política não se esgota com a Estratégia, mas a esta sempre foi essencial àquela. É bom que se comece a construir uma estratégia clara e coerente, para se dar a volta por cima, sem excessos de orgulho ou criação de mais factos políticos. É que estas não são as únicas eleições que acontecem este ano.

Entretanto, e porque vale sempre a pena aprender com os deslizes do percurso, não será demais aproveitar a ocasião para lembrar que o princípio da subsidiaridade tem dois sentidos, e que, da mesma maneira que Ponta Delgada reclama de Lisboa e Lisboa de Bruxelas, entre nós, que vivemos nas restantes localidades dos Açores - no resto da ilha de S. Miguel e nas restantes oito ilhas - também há sede de visibilidade, justiça e equidade. E também há revolta quando tal não acontece. Para que conste.

Sandra Garci