Sandra Garcia

Politicamente Incorreta

Politicamente Incorreta Politicamente Incorreta

Este Domingo de Páscoa aconteceu mais um feroz ataque terrorista, desta feita no Sri Lanka, mais uma vez perpetrado por um grupo com ligações ao islamismo radical e tendo como principal alvo, novamente, os cristãos.
E novamente uma das grandes preocupações de muitos analistas e políticos é que não se confunda a árvore com a floresta. Certo. Ma se calhar está na hora de encararmos que já são muitas árvores e que começam a ter contornos para uma floresta. Densa. Perigosa.
O maior paradoxo do mundo ocidental é que, os valores e princípios que nos distinguem são também o que nos torna mais suscetíveis a ataques deste género. Não tenhamos ilusões. Mesmo quando os ataques não têm lugar nos países do universo ocidental têm sempre como alvo os seus valores e os seus cidadãos, por isso os hotéis e os aeroportos são sempre pontos sensíveis.
É precisamente o que temos de melhor, como o respeito pela diferença, a liberdade religiosa e política, que depois é usado contra nós, no meio de nós. É uma questão delicada porque, se para nos defendermos tivéssemos que abdicar destes valores também estaríamos a condenar uma parte fundamental de quem somos e do que defendemos. Mas há que criar uma terceira via. Não seria mau começarmos por deixar de ser tão politicamente corretos, cheios de eufemismos e falsas cerimónias, dizendo a todos o que querem ouvir, tornando, cada vez mais óbvias as fragilidades do sistema e o fosso entre as palavras e a realidade. Preferia que os responsáveis ocidentais se tornassem mais políticos, e mais corretos, por oposição a serem politicamente corretos, que não é o mesmo.
Para começar temos de rever as nossas políticas de imigração que têm de ser pautadas por critérios rigorosos que sejam mais justos quer para os nacionais, quer para os imigrantes, criando condições para a sua verdadeira integração social e económica. Nada como a pobreza e a exclusão social para fermento do descontentamento e da revolta, solo fecundo para os discursos radicalistas.
Em segundo lugar há que encarar as coisas de frente e chamar os bois pelos seus nomes. Quer queiramos, quer não, os atos de terrorismo praticados pelos fundamentalistas islâmicos são contra os cristãos, sejam estrangeiros ou domésticos. Não há discurso politicamente correto que o consiga mascarar. Não devia então ser dada prioridade aos cristãos desses países nos fluxos migratórios? Não são eles as maiores vítimas e também quem tem melhores condições de integração? Politicamente incorreta? Talvez. Mas isto eu sei: as palavras têm poder próprio e fugir delas é afastarmo-nos das melhores soluções. Se eu não conhecer o meu adversário nunca me poderei defender verdadeiramente.
A somar a tudo isto, no mês em que celebramos a liberdade, teremos de tentar fazer contas às nossas expectativas para nos adaptarmos aos novos tempos. Quanto das nossas liberdades estamos dispostos a condicionar, sem perder a nossa génese, mas por forma a contribuir para a nossa segurança? Uma questão difícil mas a verdade é que não podemos ter tudo, porque tudo mudou menos nós. Sei bem que tememos, e bem, que alguns se aproveitem do tema da segurança para nos cercearem liberdades e garantias, mas o facto permanece que aos mortos - sejam indivíduos sejam civilizações - não fazem diferença liberdades de papel. Teremos pois, de pensar em novos equilíbrios e novas estratégias – políticas e corretas – para não perecermos.

Sandra Garcia