Sandra Garcia

Sobre o Envelhecimento: Esse Rapaz é da Minha Idade!



A cena passou-se ainda o Papa João Paulo II era vivo, como viva estava a minha avó. O comentário era dela, da avó Vitalina, sobre ele, um dos Papas mais amados dos nossos tempos.
Estávamos na sala, lado a lado, e apareceu no noticiário a imagem de Karol Wojtyła, no fim do seu ministério, debilitado, vergado, titubeante, falando com dificuldade. Babando-se.
A imagem, simultaneamente constrangedora e comovente, mostrava a decrepitude humana que não queremos ver, para não admitir os medos dos fantasmas do futuro. De repente a exclamação ao lado: “Como ele está! Esse rapaz é da minha idade!”
Sobressaltei-me, admirei-me. Pareceu-me uma frase tão irrealista, tão insensata vinda de uma das mulheres mais inteligentes e sensatas que conheci. Mais uma vez, sensata era ela e, sensatamente, falou. Bem sabia ela que era, então, octogenária - nunca perdeu o tino, mesmo quando seria mais fácil tê-lo perdido - que não estava a falar de um rapaz qualquer, senão de um rapaz da sua idade.
Percebo-a agora melhor do que nunca. Não envelhecemos sozinhos, pelo menos não só, e apenas, sozinhos. Há uma dupla vertente em todo o processo. Por um lado, essa é uma viagem que é, de facto, pessoal e privada – só nós sabemos o que vamos perdendo e o que vamos somando com a idade – mas, por outro lado, é também geracional e, por isso, menos amarga. Vamos envelhecendo com os rapazes e as raparigas da nossa idade. Juntos. Paralelamente.
Se desde cedo tivéssemos essa perspetiva, se tivéssemos sempre presente que, por trás das rugas, das mazelas, da decrepitude, existe um rapaz ou uma rapariga, não muito diferente de todos os rapazes e raparigas de todas as gerações, com sonhos semelhantes e lutas análogas, apenas traídos pelo tempo, talvez não tivéssemos a ousadia de os tratar como crianças ou, pior, como uma categoria à parte, como se tivessem nascido velhos e, como tal, com nada a haver connosco.
Vi, no outro dia, uma publicação no facebook que ilustra esse sentimento de inconformidade com a forma como os outros nos percepcionam nessa caminhada: “Não sei como me comportar de acordo com a minha idade: nunca tive essa idade antes!”
Tenho saudades de algumas raparigas e rapazes que eram da idade do Karol... tenho saudades tuas avó.
Entretanto faço um brinde à vida, e a todos os da minha geração: seremos sempre os rapazes e as raparigas do nosso tempo, os rapazes e raparigas uns dos outros!

Sandra Garcia