Sandra Garcia

Sobre o Silêncio

Sobre o Silêncio Sobre o Silêncio


Há poucas palavras que tenham tantos significados, entendimentos e subentendimentos como a palavra silêncio. Ao pesquisá-la podemos ver o quanto inspirou poetas, filósofos e pensadores.
Para uns é de ouro, repleto de sabedoria e utilizado pelas mentes sensatas, para outros é sinónimo de cobardia, de conivência; pode ser ainda sinónimo de paz, de tranquilidade ou mistério.
Em todas as versões há ressonâncias da verdade. Há muitas formas e contextos para o silêncio.
Na propaganda política o mais importante é o que não é dito, o que é omitido de propósito, portanto quando virem estatísticas e números procurem os que não são mostrados e assim ficarão mais próximos da verdade.
No palco da estratégia, seja política, militar ou empresarial todo o sucesso reside no secretismo, no que não pode ser interceptado pelo adversário.
Depressa o nosso mundo ficou cheios de dossiers classificados, documentos interditos, de códigos inacessíveis, de leis da rolha: toda uma rede de silêncios que se perpetua por baixo da cacofonia pseudo-livre e pseudo-libertadora.
De todos os possíveis significados o mais fraco é o que dita que “quem cala, consente”. Demasiado simples para albergar toda a paleta de “tons” que moram no silêncio, da sabedoria ao medo. De facto se pudéssemos visualizar o silêncio, se este se pudesse revelar aos nossos olhos, nunca seria de uma só cor, antes policromático: do branco da integridade, ao negro da opressão, passando pelo amarelo do medo, o vermelho da raiva ou pelo roxo da aflição.
Há, contudo, uma diferença enorme entre o silêncio opcional e o silêncio imposto. Um oceano de diferença chamado liberdade.
“From the moment I could talk, I was ordered to listen”, canta Cat Stevens e assim constatou uma das maiores verdades do mundo: assim que aprendemos a falar começam a mandar-nos calar… e nunca mais param.
Aparentemente o poder das palavras tem de vir acompanhado por um antídoto, dado que pode matar muita gente. Poucas coisas são mais aviltantes do que nos mandarem calar. Aviltantes mas reveladoras: o silêncio imposto aos outros é sempre uma manifestação de poder, mas também é a derradeira prova da falta de argumentos; só o silêncio auto-imposto revela inteligência.
Grassam por aí vozes que obrigam ao silêncio alheio, ao silêncio da palavra dita, da intervenção cívica, da palavra escrita. E andam em todos os cantos e recantos e vêm em todas as formas, cores e feitios.
Isto eu sei: não há silêncio que sempre perdure porque, de ouro ou não, o seu destino derradeiro é ser quebrado, porque o seu desejo último é ser ouvido.

Sandra Garcia