Sandra Garcia

Uma Família Muito Moderna



António Mendes, Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é irmão de Ana Catarina Mendes, Secretária-Geral Adjunta do PS, casada com Paulo Pedroso (ex-Ministro, nomeado para o Banco Mundial) e cunhada de Patrícia Melo e Castro, assessora de António Costa.

Apenas uma amostra de entre várias possíveis no Governo de António Costa que tem, que se saiba até à data, mais de duas dezenas de parentescos, filiais, matrimoniais, fraternais, entre outras. Inédito em Portugal, inédito na Europa, inédito no âmbito das democracias ocidentais.

Nós já sabíamos que o PS era uma grande família, um mote repetido por vários, mas alguns de nós nunca pensámos que era literal!

Quando começamos a ver as relações familiares existentes, noticiadas nos vários órgãos de comunicação, parece uma coisa surrealista: fulano, casado com fulana, pais de sicrana, que vem a ser….que, por sua vez…. De pasmar.

Agora vem o mais caricato: as justificações.

Há quem diga que não se trata de nepotismo. Vejamos a definição da palavra: do latim nepos, que significa sobrinho, neto ou descendente, é o termo utilizado para designar o favorecimento de parentes ou amigos próximos, especialmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos. Portanto há quem, audazmente sustente que não se trata de nepotismo porque os familiares não são nomeados diretamente no seio familiar; os ministros nomeiam as mulheres e familiares dos outros ministros que, em troca nomeiam os seus. Ou seja, não fizeram como Donald Trump que nomeou diretamente a filha e o genro, para conselheira e assessor. O bandido que nem disfarçou!

Acontece que esta prática também tem nome: nepotismo cruzado.

Fez-me recordar um filme onde se conspira para levar a cabo o crime perfeito: dois homens que querem assassinar as respetivas mulheres mas, como sabem que o marido é sempre o principal suspeito, trocam de vítimas: “tu matas a minha, e eu mato a tua”. Brilhante para enganar os mais distraídos mas só resulta se a coisa for mais ou menos discreta, digamos, se for um caso sem repetição, estão a ver?

Depois há quem argumente que os seus familiares não podem ser prejudicados na sua carreira só pelo facto de pertencerem à sua família. Isso seria certo se estivessem a concorrer para um qualquer emprego ou devemos recordar que lugares políticos não são o mesmo que postos de trabalho?

Assim de repente, aparentemente, alegadamente etc e tal (há que ter cuidado com as palavras, já o sabemos), estão é a ser beneficiados. Descaradamente. Imagino que isto descarrilou porque alguns hão-de ter pensado: “Se tu podes, também eu”, e bom, deu no que deu.

Se já era difícil aguentar com os políticos de carreira imaginem agora termos de aguentar também com os carreiristas político-familiares dos políticos de carreira!

Agora pergunto-me o que acontecerá quando houver divergências entre os Ministros quem ficará ao lado de quem? Ou, pelo contrário, se houver um divórcio, uma zanga? Pode até ser que se entendam todos nesta Família Realmente Muito Moderna, moderna demais para o comum dos sensatos. O que aconteceu ao ditado : “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta” ?

Oh! E já que veio o nome à baila há muita gente que defende que Carlos César tem sido uma grande influência no Governo de Costa. Eu diria que sim, em várias frentes, afinal tudo isto soa familiar, não?!

p.s. - Venho identificada, e bem, com a minha profissão, mas face ao conteúdo deste artigo e de todos os outros que eventualmente venha a escrever de teor político, tenho de fazer uma declaração de interesses: sou militante do PSD-A, do qual fui dirigente e deputada. Isso limita-me? Só se eu deixasse.