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A PAIXÃO PELOS LIVROS - “Jornal da Festa do Livro dos Açores" (IV) JOSÉ ANDRADE

VICTOR RUI DORES, MADALENA SAN-BENTO, LUIZ FAGUNDES DUARTE, SANTOS NARCISO



Victor Rui Dores



Numa época em que temos muitos autores, mas poucos escritores, gosto, sobretudo, dos livros que ainda não foram escritos. Para mim a felicidade está em grande parte ligada aos livros - meus amigos silenciosos, invisíveis e irresistíveis. Leitor compulsivo,sou completamente viciado em livros. E é por isso que não fumo. A minha relação com os livros não é só intelectual, é também física e orgânica.
Gosto do cheiro do papel e da tinta, gosto do tacto do lustre ou do mate das capas. Depois há este dado inapelável: podemos ler livros sentados, deitados, de bruços ou de cócoras, podemos dobrá-los, amarrotá-los, riscá-los, fazer neles anotações - prazeres que o meu tablet não me dá... O livro será sempre um apelo à nossa inteligência, à nossa sensibilidade,à nossa imaginação, ao nosso espírito crítico e ao nosso desejo de aventura. É esta viagem pelo conhecimento e pela informação que torna o livro um objecto sui generis, até agora insubstituível na esfera da fruição estética, na preservação da identidade linguística e no aprofundamento do eu.O romance "Mau Tempo no Canal", de Vitorino Nemésio,que li aos 17 anos de idade, despertou o meu interesse pela literatura porque me fez perceber que a literatura é inseparável e indissociável da vida.


Madalena San-Bento


O nosso amor vive da cumplicidade e de emoções intensas. Invadiste-me, com uma imensa tatuagem de palavras, que agora são eternas. Sem exigir nada, fazes com que tudo aconteça.Envolveste-me na música das tuas frases e eu provei o teu corpo de letras e estilo, o teu ritmo de cores e de cheiros... Eça: os teus "Maias" - o começo do meu desvario.

  Luiz Fagundes Duarte


Faço minhas as palavras de Terenciano Mauro:Pro captu lectoris habent sua fata libelli - o destino dos livros depende da capacidade dos leitores.O que me leva a desconfiar dos livros que vendem muito - num país que pouco lê. O meu amor pelos livros é um acto de perdição. E daí, de salvação.Minha.
Montaigne escreveu numa viga da sua biblioteca esta frase em grego: «Isto tanto pode ser como não ser». E, num ensaio, diz que a única explicação para a sua extrema amizade por La Boétie não podia ser outra que não esta: «Porque era ele,porque era eu». É esta relatividade das coisas e do ego, assim ditas, que fazem dos Ensaios o livro de onde sempre parto e aonde sempre chego. O resto são searas ao vento.

  Santos Narciso



O livro - Livro é vida, escola, sonho e repouso. Nele sinto o quebrar de cadeias de solidão, o despertar de personagens adormecidas e torrentes de água fresca em que mergulho sempre em busca do mesmo: um mundo melhor! O meu livro - "O Hino do Universo" de Teilhard Chardin! Li-o muito novo, quando ele me era

proibido. Nele aprendi que o Infinito está nas coisas finitas. Nele moldei a minha forma de pensar e olhar o mundo, porque o Universo começa dentro de mim!