Comunidades

ANTÔNIO CÂNDIDO, o Mestre. (1918-2017) por Lélia Pereira Nunes

“A literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização”. Antônio Cândido,1988.

ANTÔNIO CÂNDIDO, o Mestre.     (1918-2017)por Lélia Pereira Nunes

Francisco Emolo/Jornal da USP.
http://www.imagens.usp.br/?p=11181

 Morreu,aos 98 anos, na madrugada de 12 de maio último, na cidade de São Paulo , um dos maiores intelectuais do Brasil que soube como ninguém interpretar a sociedade e a literatura brasileira - Antônio Cândido.
Professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo,onde implantou e foi o pioneiro no ensino da Teoria Literária na USP.Sociólogo. Sua tese de doutoramento em Ciências Sociais,na década de cinquenta,tratou das mudanças sociais da vida do caipira paulista. Crítico Literário por excelência. Sua extensa obra o comprova. São inúmeros ensaios reunidos em livros ou em coletâneas a falar de escritores e seus livros,de arte literária,temas que pulsam na sua pena de mestre. Acompanhava e escrevia sobre o que já era consagrado e sobre o surgimento de novas vozes no país. Afinal,ensinava-nos que é a partir da literatura brasileira que se cria a identidade nacional.

O sociólogo e o interprete do Brasil se encontram de forma magistral em sua "Formação da Literatura Brasileira:Momentos Decisivos",estudos iniciados há setenta anos que guarda uma vitalidade teórica e um olhar acurado inquestionáveis.São inúmeras edições desde a primeira em 1959 que bem atestam não apenas a vitalidade mas,também, a atualidade. Com ele compreendi a importância do sistema literário para a sobrevivência da literatura de um país.A tradição literária se fortalece no contínuo fazer literário, no pensar a criação, na mobilidade das ideias, na intimidade com o público leitor que faz movimentar as engrenagens do sistema,interligando autores,obras e público leitor. Assim,posso falar "de uma literatura dos catarinenses" ou reconhecer "a existência do sistema literário açoriano", por exemplo, visto a partir de uma configuração estética de estruturas profundas da condição humana, assim como sobre a existência de uma literatura luso-americana que tematiza, sem deixar de problematizar, a vivência e a experiência da comunidade açoriana na América – “uma literatura da nossa imigração”, como bem clarifica o Vamberto Freitas no Prefácio do seu borderCrossings: Leituras Transatlânticas 2.

Foi justamente a noção de sistema literário que suscitou críticas e algumas objeções ao Formação da Literatura Brasileira. No entanto, não desmerece sua magistral obra e nem o sistema literário pensado que, segundo ele, não havia antes do Arcadismo. Para Antônio Cândido a formação literária do Brasil estava pronta no Século XIX. E apresenta arquitetura da dinâmica de um sistema literário que vai incorporando o processo formativo da nação com a formação da literatura. Embora questionados, o fato é que os conceitos apresentados pelo imenso Formação da Literatura Brasileira serviram como ferramenta da crítica literária na avaliação de obras e seus autores que passam a integrar o cânone literário.
Numa visão crítica e sociológica, Antônio Cândido olha no texto literário a influência do meio social (externo) como um elemento constitutivo da estrutura social(interno). Ou seja,o autor a pensar a sociedade a partir da sua produção literária. Estas ideias remetem-me ao seu "Literatura e Sociedade" (1965)lido,relido e muito sublinhado desde o meu tempo de aluna de Ciências Sociais, na PUCRGS ao de professora de Sociologia da UFSC.E continua valendo...
Talvez, por tudo isso, guardo de Antônio Cândido a lembrança do Mestre. Do professor sempre presente na sala de aula e nas milhares de páginas produzidas, ensaios,artigos,livros, lições maravilhosas para seus alunos-leitores,como eu, de todo o Brasil. Do professor e crítico literário sempre presente, em centenas de conferências e entrevistas gravadas em video. Presente na memória de todos que cultuam a sua obra, o seu ensinamento, o seu legado por este Brasil.
Ao cabo, a frase de sua filha,a historiadora Marina de Mello e Souza, quando da partida do grande Mestre Antonio Cândido:
“Nesse momento em que a gente vive não só no país, como no mundo, uma situação de extremo retrocesso e de valores e bens que são muito diferentes do humanismo, é importante lembrar que teve gente que dedicou a carreira e o trabalho para construir uma sociedade melhor”.