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Claridade, claridosidade – a irradiação açoriana Urbano Bettencourt

Claridade, claridosidade – a irradiação açorianaUrbano Bettencourt
Creio que o regresso à revista Claridade sob o signo de uma qualidade abstracta dela decorrente (claridosidade) poderá entender-se genericamente num duplo sentido: por um lado, um desafio ao aprofundamento da compreensão e do conhecimento daquilo que a revista representa «objectivamente» (colaboradores, conteúdos, recepção) em termos sócio-literários, num tempo histórico e no contexto específico que era o seu; por outro lado, a oportunidade para uma indagação sobre a intencionalidade, os pressupostos estéticos e também éticos que enformavam o projecto claridoso. Neste último caso, poderemos proceder a uma abordagem daquilo que a Claridade traduz enquanto produto de uma visão do mundo e da literatura por parte dos seus mentores e participantes, do papel que a uns e a outra cabe na sua relação com a sociedade; trata-se aqui de falar de um espírito claridoso, de um modo de ser ou de uma atitude, para referir o termo de Baltasar Lopes em entrevista a Michel Laban (1992: 33).

É certo que as duas questões se entrecruzam necessariamente e que a Claridade é o resultado de todos esses pressupostos e, ao mesmo tempo, o lugar onde eles se materializam e expandem. Mas a sua separação em planos diferenciados, enquanto opção metodológica, permite analisar uma dimensão a que sou particularmente sensível: a leitura da Claridade levada a efeito pela geração açoriana de 1940, aquilo que ela significa (como teoria e prática) para os jovens escritores que no arquipélago mais a norte procuravam situar-se no mundo que era o seu e na literatura que pretendiam construir. Os testemunhos públicos que deles nos ficaram sobre o modo como entendiam a recente experiência literária de Cabo Verde, a divulgação a que procederam dos seus autores na imprensa açoriana (especialmente graças à intervenção de Pedro da Silveira) e o facto mesmo de o caso cabo-verdiano se situar no centro de uma polémica ocorrida logo no início dos anos 50 – tudo isso atesta a irradiação açoriana da Claridade e ao mesmo tempo define, do lado de cá, os contornos de um pensamento insular, na medida em que se avança como proposta de renovação literária a experiência surgida num contexto que, pelas suas condições geográficas e históricas, mais afinidades apresentava em relação aos Açores. E se as diferenças entre os dois arquipélagos não eram de todo escamoteadas, havia algo que se sobreporia a isso e poderia transpor-se para a situação açoriana, exactamente a atitude dos escritores cabo-verdianos perante as suas ilhas e a literatura: o modo como eles se lançaram à descoberta da realidade histórica e sócio-cultural do seu arquipélago e, no mesmo passo, deram corpo a uma expressão estética adequada à configuração literária dessa realidade e mais apta a favorecer a comunicação entre autor e leitor.

O quadro histórico em que se insere esta geração açoriana é, em primeiro lugar, o do final da segunda guerra mundial e o triunfo sobre a irracionalidade, com o que isso criava de expectativas a nível de uma abertura política interna (que viriam a ser goradas, como se sabe); mas é também o de um imobilismo cultural e mormaço literário que será objecto de afrontamento directo, em nome do modernismo e das suas expressões. Alguns textos e empreendimentos da primeira metade da década de 40 manifestam já essa «consciência de geração» e as tarefas de que se sente incumbida, em termos culturais e cívicos, mas sem deixar de apontar as circunstâncias sociais do tempo, e em particular a precaridade da instituição literária açoriana (edição, circulação, recepção crítica, etc.). Neste contexto, poderíamos mesmo falar de uma primeira geração, agrupada em torno dos jornais Correio dos Açores e, posteriormente, de A Ilha, e em que se distinguem os nomes de Diogo Ivens, Ruy Galvão de Carvalho e Armando Côrtes-Rodrigues, este último um dos componentes de Orpheu, ao lado de Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro.

O testemunho mais impressivo sobre essa primeira geração vem-nos do poeta português Egito Gonçalves, que, na sua condição de militar expedicionário, esteve em Ponta Delgada entre 1942 e 1944 e viria a reconhecer mais tarde a importância e o papel desse tempo na sua formação e mesmo no despertar da sua vocação literária: «Tive a sorte de ser “expedido” para S. Miguel onde me foi dado conviver com alguns dos escritores de Ponta Delgada. (…) Sei quanto devo, na minha formação, aos dois anos que ali passei… trouxe dos Açores um acréscimo de cultura, o interesse por coisas que antes desconhecia.» E, noutro passo, interpretando já o sentido geral desses dois anos, a sua dinâmica e a projecção na sua vida, interrogava-se ainda Egito Gonçalves: “sempre uma incógnita insolúvel me perturbou: se os acasos da sorte não me tivessem levado para Ponta Delgada, o que teria sido? Como poderia a literatura ter surgido, se surgisse?”(2001: 9).

Tudo isto para dizer que os jovens que se revelam na segunda metade da década de 40 beneficiavam de um trabalho anterior que, de certa forma, lhes preparara o terreno sem, contudo, eliminar constrangimentos e obstáculos vários. Só mais tarde (et pour cause) alguns testemunhos darão conta de modo mais específico do ambiente de Ponta Delgada nesses anos e das condições em que se desenvolveu o esforço de renovação cultural e do gosto público.

Numa entrada do seu diário, a 15 de Fevereiro de 1998, Fernando Aires dá-nos conta dos propósitos da sua geração e dos constrangimentos cívicos a que estava sujeita:

“A rever fotografias de há quase cinquenta anos. (…) É o grupo fundador do Círculo Literário Antero de Quental que, pelos anos 40 (mais precisamente, 46), se arvorou em mentor do movimento modernista a introduzir na Ilha e se destinava, por definição, a acabar com o conservantismo que estagnava as letras açorianas. (…) Naquele tempo vivia-se no Estado Novo. O que cheirava a novidade, cheirava a subversão, que era sinónimo de comunismo.” (2015: 654)



Criado no âmbito das aulas de Literatura Portuguesa, no então Liceu Nacional Antero de Quental, por um grupo de (muito) jovens estudantes e tendo recebido o apoio de alguns professores e mesmo de escritores da geração anterior, o Círculo Literário Antero de Quental (CLAQ) foi, de facto, um dos pólos de dinamização cultural na cidade (conferências, recitais de poesia, intervenção escrita na imprensa).

Um dos seus mais destacados elementos, o poeta e crítico Eduíno de Jesus, concedeu em 1987 uma longa entrevista a Álamo de Oliveira, na qual são explicitados os propósitos do grupo:

“Os nossos objectivos eram, por um lado, acabar com o ostracismo a que estavam votadas nos Açores a literatura e as artes modernas, não obstante o prestígio que tinham nas letras (por se ignorar ou fazendo-se por ignorar a sua obra «modernista») autores como Armando Côrtes‑Rodrigues e Vitorino Nemésio e o contributo dado à modernidade no campo das artes plásticas por Canto da Maia, Domingos Rebelo, Albuquerque Bettencourt, António Dacosta, e, por outro lado, encontrar, pela teoria e na prática a identidade (se a tinha) de uma literatura propriamente açoriana, seguindo o exemplo de Cabo Verde e na peugada de Roberto de Mesquita, Vitorino Nemésio, etc. Não foi fácil. Naquele tempo, a palavra «Modernismo», nos Açores, ainda cheirava a enxofre e pronunciá-la era como anunciar a 8.ª praga do Egito, e quanto a ideias «nativistas», mesmo só no âmbito da Literatura, sustentá-las era concitar a suspeição de antipatriotismo, um pouco como hoje, é certo, mas com a agravante de que, naquela altura, se indistinguiam os conceitos de «pátria» e «Estado Novo», do que resultava as ideias «nativistas» serem tidas por abjurantes do tabeliónico «repúdio do comunismo» e de todas as ideias subversivas.”(Jesus: 1987)

A citação, demasiado longa talvez, permite aprofundar o que em Fernando Aires era dito de forma sucinta e lacunar. Por um lado, o ambiente mental e ideológico, conformista e avesso a sinais de mudança, em nome de uma acomodação política, mas de igual modo avesso a práticas estéticas associadas ao modernismo, fossem elas no campo da literatura ou no das artes plásticas; por outro lado, uma proposta de reflexão teórica que, acompanhando a prática literária, indagasse a possibilidade e os termos de uma literatura açoriana.

Em suma, tratava-se de um projecto que se propunha articular as expressões estéticas da modernidade com a reavaliação da tradição açoriana em várias dimensões: a dimensão prática, textual, a partir de Roberto de Mesquita, o simbolista do século XIX acerca do qual Nemésio escrevera, em 1939, ser «o primeiro poeta que exprime alguma coisa de essencial na condição humana tal como ela se apresenta nas ilhas dos Açores» (Nemésio, 1970: 149); e a dimensão teórica, respeitante ao enquadramento da literatura açoriana, os seus parâmetros, constantes e modos de ser, um assunto explicitamente abordado já desde meados do século anterior e que atravessava praticamente o século XX até àquele momento. E é neste contexto que surge referenciado o caso de Cabo Verde, como modelo de um processo a desenvolver nos Açores. Sob um outro ângulo, aquilo que o depoimento de Eduíno de Jesus configurava era o desenvolvimento de um projecto cultural e literário assente numa dinâmica de interior-exterior, ilha-mundo (para utilizar os termos de um título de Pedro da Silveira), que era, aliás, uma lição também colhida no exemplo de Mesquita, num diálogo atento com outras práticas estéticas externas, não numa atitude de simples importação e imitação, mas de transformação e incorporação, de acordo com a particular mundividência e as condições do próprio tempo e espaço. Essa abertura ao mundo contrastava, de algum modo, com algumas orientações advogadas durante a década anterior por algumas vozes, no sentido de o espaço cultural e literário da imprensa se ocupar (quase) exclusivamente de autores açorianos.

Caberia, no entanto, a Pedro da Silveira a mais consistente e duradoura difusão da ideário da Claridade, do mesmo modo que seria ele também o poeta açoriano em cuja obra os pressupostos e os procedimentos discursivos e semânticos dos claridosos deixariam um rasto mais profundo e evidente, pelo menos numa determinada fase.

A forma como em 1942 descobriu a nova poesia cabo-verdiana, através de Ambiente, de Jorge Barbosa, está contada em vários lugares (cf. Silveira, 1986; Franco, 1996) e revela um conjunto de pequenos acontecimentos em rede insular, ao mesmo tempo que atesta ainda a infindável curiosidade intelectual de Pedro da Silveira, que o levou a aproveitar sempre as ocasiões capazes de lhe abrirem as portas do conhecimento de diferentes culturas e autores.

No caso concreto, tudo começou com a leitura de uma recensão do santomense Francisco José Tenreiro ao Ambiente, na revista Horizonte, da Faculdade de Letras de Lisboa, dirigida pelo madeirense Joel Serrão e mais tarde pelo açoriano Julião Soares de Azevedo. Uma carta enviada a Jorge Barbosa iria encontrá-lo já no Sal e iniciaria um contacto epistolar traduzido ainda na recepção de um exemplar autografado de Ambiente. A verdadeira epifania que Jorge Barbosa representa para Pedro da Silveira («O meu primeiro mestre de modernidade e, vá lá, de açorianidade também, foi Jorge Barbosa, com o Ambiente») radica, primeiramente, na constatação de que a «realidade que ele transmitia, de um Cabo Verde miserável em que as pessoas olhavam o mar como um caminho a transpor, de salvação, tinha muito que ver com a nossa nos anos de 1930-1940» (Silveira, 1987: 4), mas desemboca, posteriormente, numa outra constatação, a de quão longe andam os escritores açorianos de uma atitude idêntica à que tomaram os cabo-verdianos e, pelo contrário, se entregam a um «bairrismo patrioteiro à Pinheiro Chagas» (1945a: 1), coisa a que já nos anos 20, e em registo irónico, Nemésio descrevera como os «hinos à terra, no estilo das caravelas e das cruzes de Cristo dos cinzeiros.» (21995: 88).

Acrescente-se a isso o conhecimento, por parte de Pedro da Silveira, do Comandante João de Deus Lopes da Silva, irmão de Baltasar Lopes, que aportava regularmente aos Açores com o seu navio Nossa Senhora dos Anjos e constituiu um elo decisivo na ligação a Cabo Verde e aos seus escritores (um deles, Manuel Lopes, a residir na ilha do Faial desde 1944); o Comandante Lopes da Silva acabaria por tornar-se também um dos propiciadores da renovação literária açoriana, pelo seu papel aglutinador e também pela revelação da literatura brasileira a essa geração de 40. Em mensagem electrónica de 17.09.2006, Eduíno de Jesus referia-se a esse aspecto, dando conta das tertúlias com os jovens intelectuais de Ponta Delgada que o Comandante organizava a bordo do seu navio, sempre que por passava pela ilha de S. Miguel. E Pedro da Silveira, logo nesses tempos, dava conta de ter encontrado na câmara de Lopes da Silva, a bordo do Nossa Senhora dos Anjos, «livros de Jorge Amado, um dos seus preferidos, livros sobre África e Cabo Verde e fotografias das Ilhas. Obras dos jovens autores de Cabo Verde.» (Silveira, 1946) Mais tarde, explicitará ainda: «Dos brasileiros das gerações de 22 e de 30, o que conhecemos devemo-lo primeiro a João de Deus Lopes da Silva» (Silveira, 1986: 41), acrescentando, para o seu caso pessoal, a intervenção de Manuel Lopes, que lhe enviava para as Flores as obras brasileiras de que dispunha.

A intervenção do escritor cabo-verdiano durante a sua estadia nos Açores não se limitou, porém, a esse gesto de companheirismo literário: ele colaborou na imprensa local, expôs no Faial um conjunto de pinturas suas e foi um dos fundadores do Núcleo Cultural da Horta, em 1954, ao lado de outras personalidades e intelectuais da cidade. E em 1950 proferiu na Horta a conferência Os meios pequenos e a cultura (editada no ano seguinte), em que se ocupa dos constrangimentos que afectam os meios pequenos, dos prejuízos que daí advêm à criação cultural, sobretudo quando, além de pequenos, os meios são igualmente tacanhos.

A verdade é que, em virtude da conjugação de todos estes factores, a nova literatura e a cultura de Cabo Verde marcaram presença nas páginas do jornal A Ilha durante cerca de uma década (1945-1954), embora como maior visibilidade nalguns períodos. Poesia, narrativa, recensões críticas (em boa parte assinadas pelo próprio Pedro da Silveira), ensaios de natureza etnográfica e sócio-económica – tudo isso proporcionou ao leitor em geral um conhecimento do arquipélago cabo-verdiano e indicou aos escritores açorianos em particular como era possível desenvolver um projecto literário colectivo num espaço com tão poucas condições, «com comunicações precárias com o mundo e, por conseguinte, privado da maioria dos recursos culturais dos grandes meios.» (Silveira, 1945a: 1); por via indirecta, a referência ao isolamento, à distância e às reduzidas condições materiais constituía um argumento a mais numa estratégia persuasiva que tinha em mente os destinatários imediatos do seu texto. E quanto a autores, um rastreio rápido encontra aí os nomes de Jorge Barbosa, Manuel Lopes, António Nunes, Pedro Corsino, Amílcar Cabral, Carlos Alberto Monteiro Leite, Aguinaldo Brito Fonseca, Gabriel Mariano, além do próprio Comandante Lopes da Silva (com algumas experiências líricas e narrativas, para lá da entrevista e do ensaio etnográfico).

Será, porém, na análise de alguns textos concretos que podemos encontrar a expressão do ideário claridoso, o modo como Pedro da Silveira lê à distância a poesia cabo-verdiana, tendo sempre em vista a situação interna açoriana, por vezes indiciada de forma implícita, outras vezes directamente convocada e analisada em termos contrastivos (e em termos provocatórios mesmo) com o que ocorria na literatura do arquipélago a sul.

Um desses textos poderá ser aquele em que procede a uma recensão crítica de Ambiente, de Jorge Barbosa, justamente o texto que inaugura a presença cabo-verdiana nas páginas de A Ilha. Fazendo-a preceder de uma reflexão genérica sobre literatura e condição humana, sobre o homem enquanto ser situado e concreto, e os diferentes modos como a literatura pode aproximar-se (ou não) das suas angústias e perplexidade e das suas aspirações, Pedro da Silveira coloca-nos, mesmo sem referir os termos, no campo da habitual dicotomia arte pela arte vs arte comprometida, entre uma arte individual e uma arte social, entre os escritores cujas obras atestam uma «humanidade isolada, individual», e aqueles «cuja obra bebe a essência vital que a anima na terra e nos dramas económico-sociais do homem» (Silveira, 1945: 1) – admitindo embora a qualidade literária verificável em qualquer dos domínios, de que os exemplos aduzidos são, em síntese, Oscar Wilde e Marcel Proust, de um lado, e Graciliano Ramos e Erskine Caldwell, do outro.

É a partir dessa moldura teórica que Pedro da Silveira se ocupa da poesia de Jorge Barbosa, realçando que o seu (re)conhecimento externo se deve primordialmente ao facto de ela exprimir o «drama do homem de Cabo Verde, prisioneiro do mar numas Ilhas pobres, esquecidas totalmente, assoladas pelo flagelo da seca, ansioso por transpor esse mar em busca do pão que precisa para não morrer de fome.» (Silveira, 1945: 1); no decurso da sua recensão, Pedro da Silveira virá a reiterar as afirmações anteriores, especificando as particularidades da obra de Jorge Barbosa, de um lirismo outro, diferente, o dos «destinos presos a uma vida dura, dos anseios frustrados mas intimamente nunca mortos das gentes crioulas, dos seus anseios de vida melhor em terra melhor.» (idem, p. 2). A esta dimensão temática, conteudística, deve acrescentar-se ainda (e por mera dedução da abertura do texto) um traço discursivo facilitador da comunicação e da relação de empatia entre leitor e autor, ou seja, «a comunicabilidade do estilo simples e directo e o terra-a-terra das vidas movimentando-se nas suas obras» (idem, p. 1).

A terminar o seu texto, a que uma adenda acrescentará ainda informação geral sobre outros escritores cabo-verdianos, Pedro da Silveira apresenta um quadro contrastivo que revela a intencionalidade autoral e dá ao texto uma «utilidade» literária e cívica, para lá da simples divulgação jornalística: «Tomarei ainda da obra de Jorge Barbosa (como da de outros escritores crioulos) um exemplo para os intelectuais açoreanos, abstratamente especados à beira do Gulf Stream, a magicar versos de amores impossíveis, à Soares de Passos, sem olhos para o que os rodeia.» (idem, p.2)

Nos seus diversos artigos sobre a literatura de Cabo Verde, Pedro da Silveira não deixará de acentuar essa vinculação dos escritores ao seu tempo e espaço, traduzida numa poesia com raízes na terra, num contexto em que «a realidade é já imperativa, o poeta já não pode furtar-se a ela» (Silveira, 1950: 2), como escreve ao recensear os Poemas de quem ficou, de Manuel Lopes. Este último corroborará este modo de ver e ler, numa longa entrevista concedida a Pedro da Silveira, lançando mão da metáfora «ficar os pés no chão», para dar conta do propósito dos claridosos quanto a uma arte enraizada no seu próprio meio, embebida «do húmus autêntico das nossas ilhas» (F.F.-M, 1950: 2).

A dimensão literária será apenas um dos aspectos a reter da leitura da Claridade e da atenção prestada pelo poeta açoriano à cultura cabo-verdiana em geral. Ele não deixará de referir-se a uma outra componente, a que diz respeito à natureza social, histórica de Cabo Verde, que diferentes ensaístas ajudam a compreender. Se no texto em que entrevista o Comandante Lopes da Silva (Silveira: 1946: 1), coloca os ensaios de história económico-social de Simão de Barros no mesmo plano de importância dos textos criativos dos principais claridosos, enquanto factores de conhecimento da realidade de Cabo Verde, mais tarde, ao ocupar-se da nova fase de Claridade, registará que ela «peca por demasiado circunscrita à literatura», lamentando a ausência de «artigos e notas sobre os cruciantes problemas da terra crioula», bem como a ausência de nomes como os de Jaime Figueiredo, João Lopes, António Nunes e Teixeira de Sousa, cuja participação viria valorizar a revista, conferindo-lhe uma configuração mais abrangente (Silveira, 1949: 2)[1].

Na recensão aos Poemas de quem ficou, de Manuel Lopes, deixou-nos Pedro da Silveira uma anotação que nos remete já para o interior da própria poesia, para o impacto inicial de Jorge Barbosa na descoberta do seu caminho poético:

“Lembro os tempos há quatro ou cinco anos atrás, quando me foi possível tomar um contacto mais directo com a nova Literatura Cabo-verdiana e procurava já encaminhar-me – tão às cegas – no sentido da açorianidade nalgumas pobres tentativas poéticas. Jorge Barbosa foi então para mim como a luz a indicar-me uma porta no meio da noite. Foi este poeta humaníssimo, com o seu Ambiente, quem me afinou o ouvido para escutar os ruídos da banda de lá – a mão que se estendeu para mim e me levou para lá da porta. E a mesma sensação, com maior ou menor intensidade, tiveram outros do meus companheiros.” (Silveira: 1950: 2)





Na verdade, uma das vozes que mais repercutem no primeiro livro de Pedro da Silveira, A Ilha e o Mundo (1952), é a de Jorge Barbosa, embora sem descurarmos a presença de Manuel Lopes e António Nunes, que participam igualmente nesse diálogo intertextual.

A interpelação directa de Barbosa no poema 3 da sequência «Êxodo» é apenas um traço pontual das afinidades que a poesia de Pedro da Silveira manifesta com a de Jorge Barbosa, facilmente detectáveis na idêntica percepção do «mundo abreviado» da ilha: cercado, preenchido por vidas monótonas e de pequenos acontecimentos, no qual se recorta o perfil vago de figuras humanas divididas entre o apego à terra e o apelo do mundo, finalmente anuladas pelo peso da rotina e «encharcadas de solidão». Num quadro assim, a irrupção do grande mundo e dos seus sinais, através do vapor, alterando o ritmo da vivência quotidiana, reveste-se de aspectos festivos e excepcionais («o dia santo de São Vapor») – mas este é também um momento dramático, pois nele se concretizam ou frustram os desejos de partida e a aspiração de uma vida outra, melhor, em fuga às fomes insulares e à reduzida dimensão do espaço.

O poema Ilha, na escassa dimensão dos seus quatro versos, resume a situação insular, nas vertentes histórica, geográfica, individual e colectiva e num registo que deixa de ser uma simples expressão localista para tornar-se, em outro contexto estético, a expressão da mesma condição humana de que falava Nemésio, a respeito de Mesquita:



ILHA

Só isto:

O céu fechado, uma ganhoa

pairando. Mar. E um barco na distância:

olhos de fome a adivinhar-lhe, à proa,

Califórnias perdidas de abundância.

(Silveira, 1952: 17)

Este lirismo ganhará uma notória dimensão social ao longo do livro, com o poeta a assumir-se a voz daqueles que a não têm e a denunciar o passado e o presente, para de seguida anunciar um futuro a haver. Daí, a sua forte «consciência» histórica, a incidência nos seus dramas e contingências, partidas e errâncias pelo mundo (a que um título de extracção bíblica como «Éxodo» confere uma significação punitiva e pungente), mas acentuando a situação de um povo abandonado a meio do Atlântico e submetido aos caprichos da natureza e dos agentes políticos da dominação. Tudo isso, num discurso marcado por forte prosaísmo e por um descritivismo que não raro recorre à enumeração e à acumulação para dar conta da totalidade do mundo representado e de forma tendencialmente objectiva. Esta poesia «desadornada», despojada de artifícios retóricos, corresponde, afinal, à «comunicabilidade do estilo simples e directo» que Pedro da Silveira assinalara em Jorge Barbosa e é condição para uma escrita «sem mentiras bonitinhas» (Silveira: 1945a: 1), capaz de pôr frente ao leitor e dar-lhe a ver a realidade de que se ocupa

Na sua polémica com Jacinto Soares de Albergaria, Pedro da Silveira afirmou que ninguém pretendia copiar os escritores cabo-verdianos, mas podia recolher deles um exemplo quanto ao modo de pensar a relação do escritor e da literatura com o seu mundo e o seu tempo:

“O que vamos buscar aos cabo-verdianos, ilhéus como nós e também súbditos de Portugal, é uma como que lição de atitude, uma indicação do caminho a tomar. Apoiados no exemplo dos escritores «claridosos» (e também no de Vitorino Nemésio, no dos escritores das nações das ex-colónias da América, etc.), lançámo-nos também à tarefa de descobrir o nosso arquipélago. Iniciámos a descida do mundo das nuvens à terra das ilhas, direi.” (Silveira, 1950a: 3)

Essa descida à terra, enquanto rasto da lição claridosa, pode detectar-se a vários níveis no espaço cultural açoriano, nos diferentes modos da sua concretização.

Em primeiro lugar, e como acabámos de ver, no interior do discurso de A Ilha e o Mundo, também pelo lugar que a oralidade aí ocupa, com o seu ritmo e fonética próprios, num processo de identificação do poeta com o universo popular, com a narrativa das suas experiências do mundo, que incluem, como no caso de Romance (um título que evidencia já um modelo narrativo oral), o contacto entre açorianos e cabo-verdianos a bordo das barcas da baleia.

A valorização da cultura popular levará ainda a outros caminhos em Pedro da Silveira, ou seja, o da investigação e o da recolha de espécimes da literatura tradicional ainda em circulação nesses tempos, como forma de preservar, pelo menos em forma escrita, um património colectivo; em sentido diverso, a investigação histórica e literária por ele levada a efeito de forma persistente pode ser ainda interpretada como a permanência de uma atitude que, no fundo, radicava no exemplo recebido de Claridade. Num caso e noutro, investigar era descobrir o passado para compreender o presente e questioná-lo, sabendo que chão se pisa.

De igual modo, o extenso e aprofundado labor crítico e ensaístico de natureza histórico-literária realizado por Eduíno de Jesus (a precisar ainda de uma recolha sistemática) há-de proceder da atitude inicial dos anos 40, a da indagação das condições de existência de uma literatura açoriana, a sua natureza, tendo como ponto de partida o caso cabo-verdiano.

Por via indirecta, a irradiação açoriana de Claridade manifesta-se ainda na descoberta da literatura brasileira, pelo menos de uma parte dela, sendo de ter em conta os testemunhos de alguns escritores desse grupo de Ponta Delgada sobre o que ela representou também em termos de renovação e orientação na busca de caminhos poéticos pessoais.

Numa perspectiva mais vasta, é possível pensar a experiência de Claridade, enquanto processo em que repercute a lição brasileira e que depois se projecta no espaço cultural açoriano, como exemplo de dinâmicas insulares assentes na relação entre o exterior e o interior, em que aquele é apreendido como contributo para uma reflexão sobre este último, abrindo caminho para uma síntese transformadora. Finalmente, o que isto traduz ainda é a circulação atlântica de culturas e a realidade das ilhas como plataformas onde elas se cruzam e interagem.

Filinto Elísio e Márcia Souto (Org), Claridosidade. Edição crítica. Lisboa: Rosa de Porcelana Editora, 2017, pp. 153-165.







Referências

AIRES, Fernando (2015), Era Uma Vez o Tempo. Diário. Guimarães, Opera Omnia.

F.F.-M (1950), «Encontro com um escritor caboverdeano: Manuel Lopes», A Ilha, 8 e 15 de Julho. [As iniciais correspondem a Fernando Fisher-Mendonça, um dos vários pseudónimos utilizados por Pedro da Silveira, para evitar problemas com a censura e com os agentes da polícia política].

FRANCO, António Cândido (1996), Exercício sobre o Imaginário Cabo-Verdiano (Simbologia Telúrico-Marítima em Manuel Lopes). Évora, Pendor Editorial.

GONÇALVES, Egito (2001), depoimento a J.M. Tavares Rebelo, «O poeta que se formou na ‘Universidade de Ponta Delgada’». Atlântico Expresso, 2 de Julho, p. 9.

JESUS, Eduíno de (1987), «Eduíno de Jesus em discurso directo». Entrevista a Álamo Oliveira, Suplemento «Quarto Crescente», n.º 153, jornal A União, 6 de Fevereiro.

LOPES, Baltasar (1992) Entrevista in LABAN, Michel, Cabo Verde. Encontro com escritores. Porto, Fundação Eng. António de Almeida

NEMÉSIO, Vitorino (1970), «O Poeta e o Isolamento: Roberto de Mesquita», Conhecimento de Poesia, 2.ª ed. Lisboa, Editorial Verbo.

___________ (21995) «O Açoriano e os Açores», Sob os Signos de Agora, introdução de José Martins Garcia. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda

SILVEIRA, Pedro da (1945), «Notas sobre Literatura Moderna – A Literatura Caboverdeana e Jorge Barbosa», A Ilha, 14 de Julho.

____________ (1945a), «Os Poemas de Longe de António Nunes», A Ilha, 3 de Novembro.

____________ (1946), «A Terra e a Gente de Cabo Verde. Pedro da Silveira entrevista o Comandante João de Deus Lopes da Silva, A Ilha, 2 de fevereiro.

____________ (1949), «Notas de Leitura: Literatura Caboverdeana», A Ilha, 26 de Março.

____________ (1950), «Notas de Leitura – Poemas de quem ficou», A Ilha, 7 de Janeiro.

____________ (1950a), «A Literatura Açoriana ou uma Conferência Infeliz de Jacinto Soares de Albergaria», A Ilha, 13 de Maio.

____________ (1952), A Ilha e o Mundo. Lisboa, Centro Bibliográfico.

____________ (1986), «Aqueles anos de 1940 e tal», in ALMEIDA, Onésimo Teotónio, Da Literatura Açoriana – subsídios para um balanço. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, pp. 31-42.

____________ (1987), «Pedro da Silveira: Às vezes fui intempestivo no que escrevi, mas não estou arrependido». Entrevista a Álamo Oliveira, Suplemento Quarto Crescente, jornal A União, 17 de Julho.

Filinto Elísio e Márcia Souto (Org), Claridosidade. Edição crítica. Lisboa: Rosa de Porcelana Editora, 2017, pp. 153-165.

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[1] A segunda parte do ensaio é preenchida com uma análise de Chiquinho e em que aparentemente há uma resposta à recensão de Mário Dionísio ao romance de Baltasar Lopes (Vértice, vol.V, n-º 54, Fevereiro de 1948) e onde o crítico afirmava que Chiquinho chegava dez anos atrasado. Pedro da Silveira refere que só é possível afirmar isso se o considerarmos no quadro da literatura portuguesa, o que não é o caso: «O facto de Cabo Verde ser uma possessão portuguesa não implica que chamemos literatura portuguesa ao que, depois de Claridade, tem escrito a intelectualidade crioula.»

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