Comunidades

Da linguagem como parte do nosso ser e estar, da crónica como arte. VAMBERTO FREITAS

É desse parapeito que me debruço sobre o mundo e foi nas dimensões desta janela que aprendi a moldar a realidade e a ser parte dela. Paula Cabral, Crónicas da Minha Terra

Da linguagem como parte do nosso ser e estar, da crónica como arte.VAMBERTO FREITAS
Da linguagem como parte do nosso ser e estar, da crônica como arte.
                              Vamberto Freitas

Se há um livro que nos faz conhecer a sua autora em toda a sua dimensão interior assim como o seu lugar de nascença e eleição afectiva, Crónicas da Minha Terra, de Paula Cabral, natural da freguesia do Pico da Pedra, aqui em São Miguel, será por certo um deles. Claro que me vem de imediato à mente Viagens Na Minha Terra, de Almeida Garrett, mas isso não é chamado para aqui, nem eu pretendo qualquer simetria ou outras comparações neste espaço. Queria só dizer que lendo este seu primeiro livro, que reúne alguns dos seus escritos, quase todos eles curtos mas incisivos, escorreitos, onde cada palavra ou nome de “personagens”me parecem ou me lembram uma metáfora do nosso mais profundo ser ilhéu numa contínua “viagem para dentro” e para o mundo é ficar além do prazer que os textos nos proporcionam. Li-o como quem lê uma narrativa meio ficcional meio ensaística, completa no retrato, uma vez mais, da autora desde a sua mais tenra idade até ao seu presente (é professora numa escola do ensino secundário aqui na sua ilha), ficamos a conhecer cada rua dessa sua terra natal, e ainda mais de cada um que se atravessam na vida. Sem surpresa para mim, como não será para qualquer açoriano, a outra grande presença nesta prosa é a América, vista ao longe e de perto, através dos seus cheiros em sacas de roupa outrora enviadas para cá, ou ainda mais pelas visitas de familiares e amigos em tempos de festa ou de outras ocasiões ditadas pela vida. De início, nenhum destes textos trazia qualquer título, como se a autora nos quisesse sugerir uma história com princípio, meio e fim, e é assim que estas páginas funcionam.
A minha leitura foi num manuscrito, e espero que se mantenha nesta estrutura de “ensaio” ou “imaginação” do que fora os seus anos de crescimento e formação entre os seus, que tanto podem ser os seus pais e irmãos como a figura vista pela janela na entrada e saída de um café central ou da igreja mesmo em frente. A ilha, aqui, não um mero pedaço de terra rodeada de mar todos os lados – é o mundo inteiro vivido ou fantasiado pela autora. Não haverá também muitas outras freguesias como o Pico da Pedra, que pelo menos durante todo este século foi berço de nascença de tantos grandes escritores, hoje de nome nacional pelas suas grandes obras em diversos géneros: Onésimo Teotónio Almeida, no ensaio e na ficção, Cristóvão de Aguiar (primo da autora) autor de vários romances, contos e ensaios, sobressaindo, para mim, a trilogia Raiz Comovida, e o Osvaldo Cabral, seu irmão, conhecido jornalista da RTP/Açores, e agora do jornal micaelense Diário dos Açores, Gilberto Bernardo, Fernando Couto Alves, e isso só alguns do meu conhecimento directo. A história de um lugar, de qualquer lugar, raramente é feita por historiadores universitários ou famosos – é feita pelos seus escritores locais e cujos livros raramente são lidos por grandes números de leitores. William Faulkner dizia que quase toda a informação e ambiência geral da sua ficção era tirada de autores locais, por quase todos esquecidos para sempre nas estantes obscuras da sua pequena Oxford, em Mississippi. Creio que se passa o mesmo em Portugal, e muito especificamente nos Açores. Este livro de Paula Cabral resgata muito do que se aplica a nós todos, ou seja, a vida em pequenas comunidades virada para o mundo inteiro no outro lado do horizonte, ora nebuloso ora claríssimo, com a ilha em frente a desfazer a nossa solidão ou sentido de isolamento.
“Eu sem escudo protector– escreve Paula Cabral a dado momento – me apresento à vida com a força do sonho. Não tenho o poder do caminho já traçado. Trago comigo a força convicta da minha consistência e com ela vou desbravando a adversidade do momento e da circunstância. Tento não capitular a vendas que me tolhem a lucidez ou a pôr à venda a liberdade do meu pensamento. A liberdade e o sonho, longe de caber na mão de um homem, não se configurarem ao tamanho de uma bandeira. São ambos apátridas. Têm a força de uma humanidade inteira… Sou do Pico da Pedra. Digo-o sempre com muito orgulho. Puxei deste galão para explicar a minha natureza reivindicativa a um colega de profissão. Curiosamente, o meu interlocutor percebeu o alcance da minha assertividade”.
Crónicas da Minha Terra é-me surpreendetemente, o primeiro livro de Paula Cabral. Eu já tinha lido uma ou outra “crónica” sua nos jornais locais, e um dia pedi-lhe que me enviasse uma ou duas colaborações para o suplemento Açoriano Oriental Ares & Letras, que coordeno com o escritor terceirense Álamo Oliveira. A sua humildade levou a que nunca me mande nada sem eu pedir. Só que isso agora vai mudar, quero-a presente sempre que lhe seja possível. Uma das freguesias açorianas que tem, ou deve ter, o orgulho dos seus escritores é precisamente o Pico da Pedra, a outra sendo a Achadinha, também aqui de São Miguel, quando foi e é fundo de romances e outra escrita como a de João de Melo, Adelaide Freitas, e Júlio Cabral, talvez o mais injustamente desconhecido de quase todos os leitores açorianos, cujas cartas enviadas de Lisboa onde residiu a maior parte da sua distinta vida como advogado, são de todo ignoradas, mas há alguns anos publicadas pela Câmara Municipal da Ribeira Grande. Leio um Prémio Nobel do mesmo modo e com o mesmo espírito aberto com que leio estes outros autores. Não é o “lugar” que faz um escritor, muito pelo contrário, é o escritor que faz o “lugar”. Isto é tanto verdade para nós como para qualquer país. Há algo ainda de maior importância. É a grande escrita que nos cria empatia perante qualquer povo, cultura ou país. Depois de lermos, por exemplo, e só para me reduzir aqui a uma geografia nacional, um Octávio Paz, um Carlos Fuentes, um Juan Rudolfo ou uma Laura Esquivel, nunca o México será o mesmo para os seus leitores. Os Açores nunca mais deixaram de entrar, mesmo que com limitações e só entre certa elite literária, no imaginário nacional português depois de Mau Tempo no Canal. Só resisto ao endeusamento de seja quem for. Depois deste e de outros escritores vieram muitos mais. Alguns deles não só ultrapassaram (é a sua obrigação) a chamada “ansiedade da influência” propagada por Harold Bloom, mesmo que só em certos sentidos positivos, como superaram, como deve ser, os seus mestres ou grandes antecessores. Depois de lermos a Paula Cabral, o seu espaço de eleição nunca mais será o mesmo. Quase vemos, quase o sentimos, e queremos visitá-lo. Pedir mais de prosa como esta seria injusto e ignorante. Ela junta-se, agora, ao melhor dos nomes picopedrenses que já mencionei, junta-se agora ao melhor da literatura açoriana. Para quem não for provinciano, digo ainda e sem apologia, ao melhor que se escreve dentro do seu género, no nosso país e, até, na nossa língua.
Pedir a um escritor ou a uma escritora que escreva mais do mesmo, ou no mesmo género e forma, é injusto e irracional. Só que quero dizer à autora de Crónicas da Minha Terra que vai-me ser difícil esquecer. Para além disso, eu próprio raramente saio fora da recensão ou crítica literária, a não ser para um ensaio de fôlego numa qualquer revista universitária, lida quase só entre pares. Não, o que lhe peço são estas palavras de uma clareza como nos impõe um anti-ciclone, do calor de como vê a humanidade em seu redor, do respeito pelo seu próximo, da palavra que tanto se torna metáfora com símbolo. Um elogio não de ser bajulação, e ante Paula Cabral não tenho as mínimas razões para isso, ou pelo menos, pela forma civilizada com que a vejo escrever ou tratar todos à sua volta. Não sei que aulas dá na sua escola, mas sei que deveria trabalhar a palavra escrita, a palavra como transmissão de pensamento e crítica aos seus alunos. Leio-a, repito, como quem encontra uma velha amiga, uma conterrânea de uma das minhas ilhas de afectos sem fim, uma colega a quem apetece dizer “bom dia”, e que nunca deixe de nos oferecer mais um ensaio, curto ou longo. Vejo-a, daqui, a olhar pela sua janela com um sorriso na cara, ou então com um certo desagrado pelo que ouve ou avista. A fachada da igreja que ela olha ou olhava na sua juventude é mesma que eu via, caminhando um pouco nas minhas Fontinhas. Não insinuo aqui, eu ou ela, qualquer crença ou opção religiosa – vejo, vemos, a génese de tudo que une o nosso povo, de tudo que faz festejar a sua existência, de tudo que incutiu em nós valores que partilhamos ou rejeitamos.
Crónicas da Minha Terra é esse tesouro da razão e do coração. Creio não termos o direito de pedir mais, nem a nós próprios nem aos outros, que connosco nasceram, tornaram-se adultos, ficaram ou emigraram. A sua presença, de qualquer modo, fica para sempre.
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Paula Cabral, Crónicas da Minha Terra, Ponta Delgada, COINGRA, Lda., 2017.
Este texto foi retirado do meu prefácio a este livro. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental.