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Duas Galerias de Arte por Nuno Costa Santos

Duas Galerias de Artepor Nuno Costa Santos
Duas Galerias de Arte
Os actos de generosidade comovem. Os actos de generosidade para com os Açores emocionam. Falo por mim, claro. E, sem arriscar muito, por outros. Aconteceu um por estes dias. Há umas semanas escrevi aqui: falta romantismo aos Açores. Reafirmo a convicção, volto a enfatizá-la sem reservas, mas acrescento, com sentido de justiça e sentimento de esperança, que ainda há pessoas capazes de idealizar, e de concretizar, um arquipélago mais forte, informado, curioso, culto. Mais capaz. Uma dessas pessoas é Dimas Simas Lopes, reconhecido médico, escritor, artista plástico, nascido nos Biscoitos, Terceira, em 1946. Faz parte de uma família de açorianos sonhadores com talento para fazer. Agrupamento reduzido e timoneiro, do qual outros, refastelados, beneficiam.
O facto: Dimas Simas Lopes ofereceu à Região – ao Museu de Angra de Heroísmo - a galeria de que era proprietário, fundada em 2004, a Carmina Galeria, onde aconteceram exposições de artes várias, com nomes importantes, novos e afirmados. O referido museu ficou assim com um novo núcleo museológico com vocação para a arte contemporânea.
Estive no abrir de portas de uma exposição do doador. Antes de chegar, soube depois, através da prosa de Tatiana Ourique, desenhada para o Açoriano Oriental, que, dentro do espaço, o director do Museu de Angra do Heroísmo, Jorge Paulus Bruno, informou que a sala de exposições acolherá mostras temporárias, procurando promover uma relação privilegiada com estudantes e idosos. E com turistas. A dado passo comentou que chegar à galeria não é tarefa fácil por causa da localização. Sim, não está ao lado da cidade Angra mas, caramba, fica na freguesia de Feteira, a 7 kms. Andam os açorianos a comprar vistosas carripanas para as deixarem estacionadas.
Fiquei durante um tempo à porta a trocar uma palavra com alguns dos convivas. E, admitamos, não é tão vulgar ter boa troca de palavra nestes momentos entre o croquete e a mão a segurar o queixo. Percebi, durante o parlatório, que me faltava o essencial: entrar. Fui. Vi os quadros da exposição “Simbologias”, divida entre dois conjuntos de obras, “Breviário Açoriano” e “Sinais da Matéria”. São feitas, na temática, do cruzamento entre o universo e o mundo da região açórica. Além de ter beneficiado da qualidade dos quadros, fiquei contente e bem disposto ao ver reproduzidos num deles os rostos dos meus amigos Onésimo e Vamberto. Comparsas de letras do autor do romance “Porto do Mistério do Norte”, editado pela Companhia das Ilhas, que há uns anos tive o prazer maior de apresentar na Fnac Chiado. É uma obra de evocação de um tempo baleeiro, de agruras económicas, com espaço literário para evocar a Natureza – o cedro, o pau branco -, filarmónicas, matanças de porco, ditos vários. E a relação com o divino (Espírito Santo), muito presente na exposição “Simbologias”. Do livro ficou-me uma frase, a merecer juntar-se a uma famosa sentença de Daniel de Sá: “A medida da ilha é o mar que se vê da ilha”.
O gesto de Dimas não tem apenas interesse cultural. É um exemplo humano e de cidadania para a comunidade. Dar é um dos verbos mais raros da temporada.
Falha minha. Nunca havia visitado a Quinta do Martelo, propriedade de Gilberto Vieira, destinada a proporcionar uma viagem no tempo pela vida açoriana. Esta quinta, cujo momento alto aconteceu durante o período da exportação da laranja, é, pude senti-lo há dias, uma carta amor aos Açores. Muitos conhecerão o espaço mas acho que merece todas as celebrações. Circulei no lugar como uma criança anda num jardim encantado.
Ao visitar as casas – desde as primordiais, do povoamento, até às dos lavradores abastados, passando por barbearias doutros tempos e doutros cortes de cabelo –, ao avistar os elementos etnográficos espalhados pelos recantos e terrenos, podemos experienciar o que foi viver no arquipélago e existir nas freguesias rurais terceirenses. E ainda o que é, nos casos em que sobrevivem cómodas, camas, quadros, costumes, usos, expressões de uma era já desvanecida.
A recriação dos edifícios de cada época da nossa História é tão perfeita que chega a enganar arquitectos, julgando alguns tratar-se de edifícios originais. A circunstância diverte Gilberto, hoje com 60 anos, ligado ao sector do turismo desde a altura em que era funcionário de uma agência de viagens situada na Praça Velha, num tempo de desvalorização do turismo. Um romântico fazedor, a merecer aplausos, como Dimas Simas Lopes. Começou por desenhar um pequeno mapa de Angra do Heroísmo para servir de orientação mínima para os turistas. Mais tarde, contribuiu de para o renascimento de diferentes tradições terceirenses paralisadas por causa do sismo de 80 e foi dos primeiros profissionais da área a apostar no que veio a chamar-se "turismo sustentável".
O esforço sério de mimetização, iniciado há mais de três décadas, chega aos odores, aos cheiros. Ir, por exemplo, à mercearia é respirar o ambiente de madeiras ancestrais. Ir às oficinas de artes e ofícios tradicionais também.
Fruto de uma investigação junto de eruditos e do convívio com sabedora gente do campo, este é um puzzle bem desarrumado, construído para confundir, no melhor dos sentidos, o visitante.
Cada pormenor torna a ficção mais credível. Ficamos na dúvida se o que vemos é real ou ou uma invenção a partir do real. Esta é uma verdadeira ficção que nos faz entrar, sem esforço, noutras épocas. Há ali aquilo que noutras artes se chama suspensão da descrença. Tarefa difícil.
A gastronomia do espaço, beneficiando de uma generosa agricultura biológica, prática muito anterior à moda recente, é, sabe-se, conhecida e reconhecida. Curioso saber que Gilberto está a preparar uma resposta inteligente à vaga de fast-food na Terceira, reforçada com a abertura, recente, de um restaurante especializado na dita. Sítio gerador, ao que se diz, de 50 postos de trabalho (onde estão as aspas?). O menu a ser preparado pela Quinta do Martelo trará dentro os melhores sabores locais.
A galeria de Gilberto Vieira completa a galeria de Dimas Simas Lopes, agora propriedade do Estado. Os Açores são isto: ancestralidade e contemporaneidade. Valorizemos, pois, o que fomos, somos e o que ainda podemos ser.