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“Esclerose Múltipla na primeira linha”, de Rosa Maria Silva.

      Esclerose Múltipla foi a enfermidade que levou a minha mãe ao ponto de não reação. Tudo foi adormecendo ao longo de trinta e nove anos... o que ela dizia eu compreendia: "é uma dormência, um formigueiro que me toma o corpo todo". Ficou dependente de outrem (a filha mais nova) para os
cuidados mínimos e essenciais. Perdera quase todos os sentidos incluindo a visão. A palpação surtia apenas no que era formato habitual. Moldava a caneca do café com leite matinal, a colher ia torta ao caminho da boca, mastigar ou engolir um sacrifício necessário, um cortejo deficiente da mão para a perna sem força para pousar o pé na cadeira de rodas. Em idade mais avançada (pós sessenta anos) a cadeira foi substituída pela cama quase sempre. A cama era o estado de todas as ações do corpo
humano, um peso "morto" entre lágrimas e orações repetidas mentalmente com as imagens de Santos feitas ornamento do móvel do quarto. Ela era uma preciosa crente na oração e na "visita" à Mãe Padroeira, por ocasião da segunda semana de setembro, desse por onde desse. A prioridade era ouvir e "ver" a missa de Festa com a Mãe no andor, mesmo sentada muito perto d'Ela. O sorriso resplandecia nessa hora. O perfume das flores ornamentais da época, no interior da igreja, fazia-lhe o rosto novo e
feliz. Eu admirava aquela cena e entristecida recolhia-me ao silêncio. Quando seria o tempo de já não ver aquele cenário de "felicidade" instantânea?! Foi na Festa de setembro do ano de 2003 que não foi possível sequer pensar em levá-la para junto da melhor representante das mães do universo. No mês seguinte, a vinte e oito, perdia todos os movimentos. Apenas os lábios cerrados com uma sonda para a refeição adaptada a máquinas, olhos fechados para o mundo efémero, palidez total, um "sono" feio de ver, e a nossa oração para que Deus a recebesse e lhe desse a paz merecida.

Nunca mais gostei de ouvir essa expressão "ter esclerose múltipla"... é como que relembrar a
minha irmã, a melhor cuidadora que minha mãe podia ter, no sentido de que acostumara-se àquele flagelo caseiro. Quantas e quantas vezes não fora a ambulância o meio certeiro e diligente para levar a sua doente (e minha) ao velho Hospital de Angra do Heroísmo?! Quantas e quantas vezes a fisioterapeuta lhe acudira e ensinara a melhor forma de suportar a queda dos movimentos?! Quantas e quantas vezes chorava eu, interiormente, ao tratar do que podia porque outro maior tratamento não me era considerado adequado por ser demasiado sensível à dor, às feridas, e ao consumir das peças de um corpo que me (nos) dera à luz.

Ainda hoje penso que foi ela, Matilde Correia, a minha mãe, a sofredora a inspirar a minha
criatividade de escrita que jamais fizera antes (Não fui aluna por gosto, mas por obrigação). Depois do seu falecimento tornei-me amante de palavras ao ponto de ser uma repentista assídua. Deixo provas num livro que editei para memória futura sobre a Padroeira, a freguesia e a mãe enferma, mas sempre com uma fé inabalável. Essa fé não a curou, elevou-a e curou-me.
Comentário de leitor conhecido e que não identifico por opção:
"Efetivamente, a vida da tua mãe, durante vários anos, foi a de uma autêntica mártir, sempre
regada com fé, essa força invisível que, certamente, a ajudou a suportar a tremenda cruz. A tua irmã, também, não teve tarefa fácil pois, lidar com esse tipo de doença, exige uma disponibilidade total. Quanto a ti, que estavas mais na periferia, ias sofrendo no teu silêncio. Depois da sua morte, creio que o espírito dela, em paz, foi decisivo na tua transformação intelectual. Provavelmente, o que tu fizeste a partir daí foi algo que, ela, em vida, sempre quis fazer, mas não o conseguiu por duas limitações: conhecimentos literários, doença."
Comentário de uma profissional da comunicação conhecida e que não identifico por opção:
"Um texto profundo, comovente, que espelha o sofrimento de alguém que teve a felicidade de
estar envolvida pelo amor até ao fim. Na forma, a escrita da Rosa é visual e intensa, onde o recurso às metáforas quase impercetível, nos fazem testemunhas do episódio e nos transportam para a realidade das emoções."

A divulgação destes textos, quanto a mim, vão além do aspeto literário.
A experiência de vida da sua mãe, de ser portadora da "esclerose múltipla", deve ser divulgada,
porque é na partilha de situações como esta que o interesse pela problemática se difunde".