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J. H. Santos Barros - o operário da palavra por VICTOR RUI DORES

J. H. Santos Barros - o operário da palavra por VICTOR RUI DORES
J. H. Santos Barros
o operário da palavra

“Fazer versos dói
Pregar um prego, lavar pratos, cortar a erva
custa. Mas nunca nada me custou tanto que
carregar um verso das coisas mais difíceis” (…) (S. B., pág. 273)

“Eis-me nu e atravessado da
beleza louca e náutica das coisas
possuído do cheiro a maresia
coração marítimo encerrado
na alta arca solitária do tempo”. (S.B., pág. 338)


Acabo de ler, com emoção e comoção, uma obra que faltava e que eu pessoalmente tanto ansiava vai para 40 anos: Alexandrina, como era (Imprensa Nacional, 2018), de José Henrique Santos Barros (1946-1983), poeta de agudíssima sensibilidade e de apreciáveis recursos sensoriais.
A obra reúne toda a sua poética, num total de 308 poemas reunidos por ordem cronológica e de publicação em livros e outras publicações, bem como de alguns inéditos encontrados em dactiloscritos no espólio do autor.
Agora reunida, a poesia toda de Santos Barros ganha, sem sombra de dúvida, uma outra consistência, uma outra unidade e um novo fôlego. E desde logo se apossa de mim uma convicção: a de que este poeta terceirense sempre esteve na linha da frente das preocupações da moderna poesia portuguesa.
Conheci-o em 1978 no 5º esq. da Rua Possidónio da Silva, seu apartamento, era eu um jovem estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, e ele já homem feito e poeta consagrado. Porque na altura havia tirado um curso de dactilografia, Santos Barros convidara-me a dactilografar um dos números da “Memória da Água-Viva”, revista açoriana de cultura, coordenada por ele e pelo Urbano Bettencourt.
Desde então mantive com Santos Barros uma longa relação de amizade e de camaradagem literária até ao fatídico 20 de Maio de 1983, dia em que ele viria a encontrar a morte numa estrada de Espanha, na sequência de um brutal acidente de viação que também vitimou Ivone Chinita, sua mulher e companheira nas actividades literárias e políticas. Aquele que era então considerado um dos maiores poetas dos Açores, deixava-nos prematuramente e em pleno vigor criativo.
Profundamente humano, Santos Barros foi, física e visceralmente, um homem de cultura. Para além da poesia, o seu nome está repartido pela crónica, crítica literária, ensaísmo e suplementarismo cultural. “Lavrador de ilhas” sobrevivendo “à vida burocratizada” de Lisboa, abriu e renovou caminhos culturais, dentro e fora dos Açores, motivou muita gente a escrever (e eu fui um deles), deu-nos a conhecer aos outros nos jornais, ensinou-nos que é preciso saber resistir na escrita e que necessário se torna combater a resignação em várias frentes. E alertou-nos ainda para a sedução do imediato e para os perigos da facilidade. E disse-nos não haver deslumbramento na arte, ele que teimava em afirmar que “fazer versos dói”…
Com Prefácio do escritor António Lobo Antunes, Nota à Edição de Jorge Reis-Sá, coordenador da obra, e texto final de Urbano Bettencourt, Alexandrina, como era é toda uma arte poética que poderá ser dividida em cinco grandes áreas temáticas ou, se quisermos, cinco grandes linhas de força:
1. Entre a ironia e o desencanto. O poeta lança olhares de minuciosa atenção à realidade que o rodeia: coisas, pessoas e acontecimentos que povoam o seu imaginário. Fá-lo de forma crítica, desencantada e irónica (Cf. “Sobre este lado do mar”, “Topiária”, “A catedral iluminada” e “Redator do reino”), com Alexandre O´Neill a rondar por perto… Neste sentido, reabilitando a palavra poética e escrevendo com simpática alegria, Santos Barros utiliza mais a metonímia e a sinédoque do que propriamente a comparação e a metáfora.
2. Poesia da memória telúrica. Memória insular enquanto tempo/espaço definitivamente perdido e irrecuperável, num discurso poético marcado em boa parte por um realismo urbano. Espaço imagético e afectivo, a ilha é geradora de mitos, mistérios e fascínios e está sempre presente na lembrança do poeta e pressentida nos seus versos. Poesia que viaja entre o local e o universal. Santo Barros vai longe na enunciação do telurismo ilhéu. (Cf. “Visões da ilha” e “A Humidade”).
3. Poesia de renúncia/denúncia às verdades ilusórias, contra o medo, a crueldade e a intolerância postos ao serviço dos mecanismos repressivos do Estado Novo, com especial destaque para a Guerra Colonial (1961-1974) de que o poeta colheu dolorosa experiência e que constituiu uma das mais trágicas encruzilhadas da História portuguesa. Aliás, há um sopro africano que atravessa muitos dos poemas de Santos Barros. (Cf. “Imagem Fulminante”, “Retratos africanos” e “Os alicates do tempo”).
4. Poesia de combate e resistência. Para este autor escrever poesia sempre foi um acto de combativo acerto de contas, já que o poeta esteve sempre atento às diversas formas de contencioso social vivido dentro e fora das ilhas. Santos Barros denuncia as máscaras de um quotidiano alienante, cumprindo, por assim dizer, uma espécie de missão social. (Cf. “Os alicates do tempo” e “São Mateus, outros lugares e nomes”).
5 A construção do poema. Artesão e operário das palavras, o poeta lapida as que são exactas, únicas e essenciais, buscando sempre novas significações para as mesmas. Trata-se de uma arte poética que se assume na consciência (crítica) do próprio acto de escrita, sendo disso exemplo o emblemático poema “Fazer versos dói”.
Em boa hora editado, Alexandrina, como era, obra de inegável qualidade, aí fica e a merecer a nossa melhor leitura. Foi para mim uma experiência avassaladora revisitar a poesia toda de Santos Barros. Poesia autêntica e original. Apesar da sua ausência física, Santos Barros é um dos nossos mais inventivos autores e continuará a honrar a poesia portuguesa. Porque os poetas só morrem se os deixarmos de ler.

Horta, 15/05/2019
Victor Rui Dores