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José Enes – Obra Poética por Nuno A. Vieira

Fonte: Notas de Rodapé.

José Enes – Obra Poéticapor Nuno A. Vieira

   José Enes - Obra Poética 

Poesia e filosofia foram práticas paralelas na vida de José Enes intertextualizando-se numa unidade comum. Com a publicação José Enes - Obra Poética, da Editora Letras Lavadas, em Fevereiro de 2018, desmistifica-se a ideia de que o poeta havia parado de praticar poesia a partir de meados da década de 1960. O livro, na sua primeira parte intitulada Montanha Do Meu Destino, reúne um conjunto de poemas inéditos escritos entre a década de 1940 e os primeiros anos do século XXI.   A poesia de José Enes é um reflexo do que ele próprio teoriza em 1955, no artigo "A poesia como actividade humana" e, mais tarde, em 1964, no livro A Autonomia da Arte. Miguel Real, em livro de autoria pessoal José Enes, Poesia, Açores e Filosofia, menciona conceitos fundamentais do poeta, que com a devida vénia, passo a especificar.  Depois de dividir a prática poética em jocosa, séria, e trágica, José Enes afirma que a arte poética é uma actividade humana com uma "função vital"e não uma "brincadeira elevada". Assim, "poetar é alcançar uma consciencialização existencial que ao mesmo tempo responda à inteligência e satisfaça à sensibilidade". Como crítico literário, José Enes não se limita a analisar a poesia; vive-a, partilha emotivamente o livro com o autor, elevando-o, depois, não a mera análise crítica, mas a uma verdadeira análise filosófica, integrando os poemas em correntes culturais que ultrapassam a literatura. Já a sua interpretação cultural da açorianidade tece-se, não da análise histórico-social, mas do contacto e da vivência da história da poesia dos Açores. O pensador açoriano coloca os poetas ao lado dos filósofos, no cume da montanha do espírito humano, consciencializando a íntima atitude dos actos humanos. E, mais que os filósofos, os poetas, devido à maior dose emotiva que os liga à vida, com este olhar reflexo vislumbram as coordenadas noéticas e metafísicas do momento histórico presente e da humanidade. Como dito acima, a primeira parte de José Enes - Obra Poética, intitula-se Montanha do Meu Destino e consiste de poemas inéditos. Em análise de Miguel Real, nestes poemas, o Sagrado, ainda que continuando, perde a sua importância para dar relevo à Espiritualidade que é <<tão espiritual como metafísica>>. Trata-se de uma poesia singular no conjunto da poesia do século XX < <onde mais que elevar aos céus, a poesia faz o homem descer à terra >>. Neste contexto, vejam-se alguns excertos dos seus poemas seleccionados por Miguel Real:                                                                                                               Diz-me, Ó Mãe!, pg. 53: Diz-me, ó mãe! Naquela noite triste / imersa no cuidar do teu desejo / quando a sorrir meu pai te deu um beijo, / no fundo da tua alma, que sentiste?   Teus Olhos Ausentes, pg. 105: Nas jarras sem flores, na mesa sem pão / na cama onde ser se fez a ser contigo, / nas portas por onde vou e venho em vão, / quero ver teus olhos e não consigo.   É Miguel Real quem diz que <<a transcendência não anula a esperança humana>>, como o demonstra o poema "Virá", pg. 46: Virá a luz que não se apaga / Virá o pão que não escasseia / Virá a água que não se estanca / Virá o rubor que não falece / Virá o amor que não cansa / Virá a esperança que não desespera / Virá o esforço que não fenece / Virá a morte que não morre / Virá o que não passa / Virá o amor.   A singularidade espiritual, como símbolo da transcendência humana, aparece no telurismo açoriano em muitos dos seus poemas, dos quais transcrevo o seguinte: Montanha do Meu Signo, pg. 37:                          Montanha do meu segredo / Montanha do meu destino / Tocaste-me com um dedo / Imprimindo em mim um signo / Quando me viste nascer / Montanha da minha dor, / Montanha do meu chorar / Olhaste-me com amor / Com um fundo e fino olhar / Quando me viste nascer / Montanha dos meus desejos / Da minha louca ambição, / Encheste-me a alma de beijos / Do fundo do teu vulcão / Quando me viste nascer... / Montanha da minha sorte, /Oh! génio do meu viver / Encomenda-me na morte / Quando me vires morrer.   Na segunda parte do livro José Enes - Obra Poética aparece, em reedição, Água do Céu e do Mar que segundo Onésimo Teotónio Almeida não gozou da valorização que merecia devido às posições estéticas de José Enes serem opostas aquelas dos jovens marxizantes das décadas de 60 e 70, respectivamente arte pela arte versus arte comprometida. Onésimo Teotónio Almeida considera que a primeira parte de Água do Céu e do Mar terá alienado o leitor devido à carga de religiosidade que expressa, ocultando, desta maneira, o humanismo contido na segunda parte.   O professor Onésimo Teotónio Almeida destaca duas características fundamentais em Água do Céu e do Mar: Primeiro, uma poesia tecida de inquietação sobre o sagrado. Regista alguns exemplos: Voz da Graça, pg. 120: Eu vos louvo, Senhor, num canto novo, / quando me dobro sob o peso imenso / das minhas dores. E também vos louvo quando trabalho, brinco, rezo, penso   Águas que não secam, pg. 130: / Por haver renunciado a um amor pequeno / nasceu na minha vida o teu amor, / o teu incomparável amor / Pecados e fraquezas tornaram-me mesquinho. / Mas tu, com o olhar de que nunca mais me esqueço, / Eternamente iluminaste o meu caminho. / Deste-me o teu amor. Não mereço.   Segunda característica: uma fortíssima inquietação humana de teor espiritualista. Ouçamos a voz do poeta em poemas da escolha de Onésimo Teotónio Almeida:   Dia de Sol, pg. 169: Vento norte. Sol a pino. / Não há nuvens. Luz no ar. Jorra um azul opalino. / Água do céu e do mar. / Para além da rocha o mar. / Além do mar o horizonte. / Por cima o céu. / Azul e ar. / E a Terceira ali defronte. / Dorme um sossego lilás / E estua em tudo um anseio: /- Emoção densa que traz, / Como espiga o centeio.   Chuva, pg. 171: Cai uma chuva miudinha / impertinente / basta como a farinha / da peneira. / Dois olhos pela porta da cozinha / cravam nas nuvens / a ânsia da vida inteira.   Tarde, pg. 162: Há nuvens indecisas neste céu de Maio. / Estão com medo / as vinhas prestes a florir. / Pétalas a cair / na suspensão da tarde... / Olhos cansados de dormir nas araucárias.   José Enes foi um homem de pensamento e acção. Em 1954, escrevia no suplemento cultural "Pensamento"do jornal A União: " O grande perigo do homem está em ele não aplicar a sua actividade conhecitiva a todos os sectores da sua vida, em não racionalizar". Foi ainda na Segunda Semana de estudos dos Açores que José Enes leu um texto de profunda tendência humanista: "Mais saber para melhor viver".   Na sessão de lançamento do livro José Enes - Obra Poética, realizada a 23 de Fevereiro de 2018, na Câmara Municipal de Ponta Delgada, o presidente José Manuel Bolieiro achou ser ato de justiça do Município homenagear José Enes, primeiro reitor da Universidade dos Açores, pelo "lastro e legado da sua vida". "Explicou: " O professor José Enes era um vigilante da missão de servir: o pensamento, a filosofia; a verdade da ontologia; a cidadania; o cumprimento e verdade institucional da fundação da Universidade dos Açores; a verdade da fé". Afirmou que para o edil, "é imperativo não deixar no injusto limbo a memória de José Enes, homem inspirador". Referindo-se ao homenageado, o Sr. Presidente realçou o escopo da sua obra: "Uma vida e uma obra de inspiração para ele próprio, para a universidade do presente e do futuro, para os Açores, para Portugal e para a Europa e para o pensamento e para a filosofia europeia e ocidental".   José Enes, meu antigo professor, foi atleta no campo de voleibol e asceta nos caminhos de Deus. Foi pensador profundo que chegou à porta do ser. Tocou o sublime na prática da arte poética. Descobriu o belo na Natureza. Na sala de aula, ensinou os seus alunos a relacionarem conceitos e correntes de pensamento. Foi obreiro de uma sociedade e mundo melhores. Na expressão de Miguel Real foi "Um Homem do Saber". E eu acrescentarei: do saber dos livros e saber da vida.