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Leituras do Atlântico: VIAGENS por José Manuel Santos Narciso

Leituras do Atlântico: VIAGENS porJosé Manuel Santos Narciso
Viagens

“Eis uma bela recolha de depoimentos sobre o tema da viagem, da autoria de escritores de algum modo ligados aos Açores, ou por lá terem nascido e vivido, ou por lá terem ficado a residir sem lá terem nascido ou por qualquer outro vínculo, no fundo sempre afectivo”.
A apreciação é de Eugénio Lisboa, o grande escritor e especialista em José Régio, por sinal ele próprio autor, em 2017 de um belo Livro de viagens, intitulado “Diário de Viagens fora da Minha Terra” e que agora prefacia mais esta iniciativa literária da Editora Letras LAVAdas.
Um I Volume que é uma agradável surpresa e magnífica leitura de Verão. Dezasseis escritores, dezasseis textos e outras tantas viagens narradas ao sabor de afectos e de sonhos que rapidamente nos cativam e, como diz Eugénio Lisboa até levam os leitores a “substituírem, sem grande desvantagem, as suas não viagens pelo recheado relato destas que aqui se publicam”.
Álamo Oliveira; Ângela de Almeida; Diniz Borges; Eduardo Bettencourt Pinto; Eduíno de Jesus; Henrique Levy; José Francisco Costa; Lélia Pereira Nunes; Leonor Sampaio da Silva; Leonor Simas-Almeida; Nuno Costa Santos; Onésimo Teotónio Almeida; Paula Sousa Lima; Scott Edward Anderson; Urbano Bettencourt; Vamberto Freitas! Estes são os viajantes deste livro, escritores que não precisam de qualquer apresentação e que aqui nos deixam, nestas 190 páginas, verdadeiros recortes de emoções, como se de uma “selecta” se tratasse. Inebriamo-nos com os “outros Alascas” de Álamo Oliveira, e vamos até aos “Sinais do Último Oeste” de Urbano Bettencourt, para finalizarmos (a ordem alfabética assim o determina) com Vamberto Freitas que nos delicia com “Algumas Viagens Aventureiras e de Amor”, em que nos fala e recorda também a sempre saudosa Adelaide.
Como refere o prefaciador, e é bom termos este espírito presente, num livro como este, “a vida insular é um permanente convite à viagem, de uma forma particularmente intensa: cercados de fronteira por todos os lados, apetece mesmo atravessá-la. Mas, mesmo sem ser insular, o homem, desde os tempos mais remotos, sentiu necessidade de se deslocar pelos mais diferentes motivos. Hoje, num universo de meios de transporte cada vez mais rápidos e mais acessíveis, um número muito grande de habitantes do planeta sente o atractivo das viagens, para conhecer tudo o que é mundo”.
Seja “Na Barriga do Barco” – que viagem narrada por José Francisco Costa (desde Adão e Eva andamos de malas aviadas), seja “ Por trás das Pálperas” de Henrique Levy, (o sorriso do pai extinguia aquela viagem), há um mar de vida nestes leves textos de viagem, como o mar de “Cabo Verde – Morabeza é só tomar-lhe o gosto” que Onésimo Almeida recheia de peripécias e humor, ou o outro mar que Leonor Simas Almeida vislumbra naquela “A minha Primeira Viagem ao Maine”.
Como se lê no Prefácio “viaja-se por necessidade de trabalho, por simples curiosidade, por razões de saúde, por puro prazer ou porque o vizinho de rua já viajou. Ou para se mudar de vida ou de clima ou para se ter uma reforma em sítio mais tranquilo ou aprazível.
Não poucos dos que viajam sentem o desejo de dar testemunho daquilo que apreciaram, sentiram, aprenderam. O desejo de partilha é algo de muito humano”. E isto transparece, quase com ternura na “Viagem da Minha Vida” de Diniz Borges ou naquele improvável “27 Daiquiris depois”, a Cuba mágica de Nuno Costa Santos e é capaz de ir com Paula de Sousa Lima, numa “Viagem a Roma” a esplendorosa, onde tão depressa é cercada por vendedores de água, como por fornecedores de guarda-chuvas, logo aos primeiros pingos… Máfias ou misérias?
Em ano de não-viagens – este 2020 pandémico – assim ficará recordado, ficar pelos Açores é sempre bom porque “As Ilhas do Espírito Santo” contêm segredos que Lélia Nunes nos vai revelando nas suas múltiplas descobertas. E há também aquela “Carta” de Leonor Sampaio da Silva (não é para qualquer um escrever cartas de despedida), ou aquele “Breve Diário da Praia com caracóis voadores”, de Eduardo Bettencourt Pinto. E como, em viagens, há lugar para outras Línguas… poderá ler-se “Steerace”, de Scott Edward Anderson.
Eduíno de Jesus leva-nos a uma longa Viagem “Em demanda de Uma Dama Portuguesa do Século XVI Que Se Perdeu Nos Açores” (uma carta a Onésimo… O Fernando Aires há-de contar-te o resto) e Ângela Almeida com seu “Menina, Abra os Olhos e Veja” deixa-nos ver tanto do interior do país (como é diferente o tempo aqui).
De referir ainda o pormenor (para mim pormaior) da capa deste Viagens: “Ilhas Emaladas” de Tomaz Borba Vieira – Colecção Museu Carlos Machado, numa foto de António Pacheco.
Como já referi, Viagens é uma belíssima sugestão de leitura neste Verão, nele se condensando a arte da crónica e do conto, narrativa e diálogo, como muito Pensamento à mistura.
Se é erro dizer que a melhor viagem é aquela que não se faz, mesmo nesses tempos de medos e temores, a verdade é que as viagens já feitas cabem no nosso imaginário e neste livro tornam-se bonito ponto de partilha.
E nada como terminar, deixando aqui, em Leituras do Atlântico, esta magnífica passagem de Eugénio Lisboa:
“Há quem viaje para ver diferente do que tem, mas há também quem viaje apenas em busca de encontrar o que já tinha no seu próprio país. A este respeito, o sempre acerado e cáustico Somerset Maugham pôs na boca de um personagem da sua comédia, The Constant Wife, estas judiciosas palavras: “Os únicos lugares de que John gosta, no continente, são aqueles em que, só por um grande esforço de imaginação, se pode dizer que se não está na Inglaterra.” Há realmente quem vá à Grécia, não para experimentar a comida grega, mas sim para ali reencontrar a cozinha do seu próprio país. Há viajantes de curiosidade intensa e sempre desperta, mas há também os terrivelmente enfastiados, a quem nada encanta. O conhecido maestro Sir Thomas Beecham, conhecido pela sua desbocada iconoclastia, declarou um dia: “Dei recentemente uma volta ao mundo e fiquei com uma fraca impressão do que vi.” Este testemunho tem, em todo o caso, a eminente virtude da franqueza. Virtude que não faltou a Oscar Wilde, quando, no final da viagem que fez, da Inglaterra para os Estados Unidos, declarou grandiosamente para quem o quis ouvir: “O Atlântico desapontou-me!” É o que se colhe de mais saboroso nos relatos de viagem, de autores que, em vez de embasbacarem perante os marcos milenares do engenho humano ou para as maravilhas que a natureza lentamente congeminou, confessam destemidamente o seu ocasional desinteresse ou fastio”.
Santos Narciso

Nota: artigo originalmente publicado no Atlântico Expresso, na coluna Leituras do Atlântico, assinada pelo jornalista Santos Narciso