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Marcelino de Godofredo de Oliveira Neto Artêmio Zanon*

Marcelino de Godofredo de Oliveira NetoArtêmio Zanon*
Marcelino de Godofredo de Oliveira Neto
Artêmio Zanon*

Meu primeiro contato com a produção literária de Godofredo de Oliveira Neto1 remonta a O Bruxo do Contestado2. Consta dos dados bibliográficos disponíveis que anteriormente a essa obra de lastro histórico, Godofredo de Oliveira Neto publicou Faina de Jurema (1981); O nome e o verbo na construção de São Bernardo (1988) e A ficção na realidade em São Bernardo (1990).
A meu conhecer da literatura de catarinenses e da de quem por qualquer vinculação com o estado Barriga-verde, uma das primeiras obras que aborda o tema histórico (e jurídico e fanatizado), com atos e fatos antecedentes e de outubro de 1912 a agosto de 1916 e posteriores a eles correlatos, é Os fanáticos – crimes e aberrações da religiosidade dos nossos caboclos3, de Aujor Ávila da Luz4.
De pesquisa bibliográfica a respeito dessa obra, para meu aceitável desdouro, nada encontrei a respeito também do Autor na alentada A Literatura dos Catarinenses – Espaços e caminhos de uma identidade: Poema, Prosa, Poesia5, de Celestino Sachet. Sem dar-me por vencido e pela importância desse ilustre acadêmico na trilha das letras, compulso História de Santa Catarina – O Contestado6, em coautoria com o irmão Sérgio Sachet, publicação que contou com apoio editorial mencionado na que pode ser tida como a “folha de rosto”.
Nessa obra dos irmãos Sachet, ao que me proponho, há referências: “O catarinense Aujor Ávila da Luz, médico, analisando um possível retrato do monge, encontra-lhe estigmas físicos que lhe caracterizam a personalidade de um degenerado moral” (p. 63); no tópico “Dentro do reduto” (p. 307), após breves explicações, escrevem: “É o caso de Aujor Ávila da Luz com o livro Os fanáticos – crimes e aberrações da religiosidade dos nossos caboclos, 1952, [...]” e “Aujor Ávila da Luz aplica ao movimento do Planalto a velha lei do determinismo geográfico e social quando analisa a criatura humana como um produto do meio em que vive”; por fim, no tópico “Uma fraternidade messiânica” (p. 308), referindo-se a dois estudiosos do tema, no fim dos anos 50, atesta: “Os dois professores retomam a questão sob o aspecto religioso, já abordado pouco antes pelo catarinense Aujor Ávila da Luz” (p. 309).
Se assim foi e, ainda entendo, é, Aujor Ávila da Luz, então, foi o pioneiro em tema e “Guerra do Contestado”, envolvendo, expressamente, ao menos, um dos personagens centrais.
Não bastante isso, Aujor Ávila da Luz, com o selo da Editora da UFSC, teve publicação de “2ª edição revisada,com ´Posfácio` de Walter F. Piazza”, lendo-se na folha de rosto: “Crimes e aberrações da religiosidade dos nossos caboclos [...]”). É verdade que o Autor do “Posfácio” menciona alguns estudos e respectivas autorias realizados nos primeiros anos após cessada a “Guerra”, mas a meu anotar, não há sombra para a obra de Aujor Ávila da Luz7.
Até nossos dias o affair Contestado ensejou dezenas de publicações nas quais a credibilidade histórica faz tremer a veracidade em favor da exuberância, aliás da fertilidade, ou melhor da exaltação do imaginário.
De O Bruxo do Contestado posso assinalar que existem estudos acadêmicos para obtenção de titulação de pós-graduação.
Há, em O Bruxo do Contestado, um contexto social e político revelado em toda a narrativa. O próprio título sugere conotação mística, ligada à religiosidade popular e não à tradição bíblica e cristã. Resta claro que, desde o título, a evidência do personagem se concentra na individualidade que entre o passado e o presente vive no liminar da sanidade e da loucura. Os fatos históricos são apresentados de forma descontínua, em momentos intercalados na narrativa. Não há linearidade e há escassez da forma narrativa; os acontecimentos são narrados de uma forma oblíqua e com poucas referências diretas aos episódios do conflito e às figuras históricas participantes da guerra. A fragmentação da narração propicia a multiplicidade dos enfoques, e a Guerra do Contestado é apenas um dos acontecimentos históricos revividos na narrativa. Pode-se resumir que a narrativa não está centrada nas causas, nas consequências ou nos detalhes da Guerra do Contestado, situa-se nas marcas desse acontecimento histórico no imaginário dos personagens8.
Na obra A Literatura dos Catarinenses – Espaços e caminhos de uma identidade: Poema, Prosa, Poesia, de Celestino Sachet, constam breves dados biobibliográficos de Godofredo de Oliveira Neto.
O ambiente mesológico e humano em toda a narrativa de Marcelino9, pelo que se tem conhecimento da produção literária nestas plagas de Porto dos Patos, de Meiembipe, de Yjururê-mirim, da ilha de Santa Catarina, de Nossa Senhora do Desterro, de Ondina, etc, desde os nativos, os brancos, os pretos, os mestiços, os cafuzos, os mamelucos e os (e não sei se há as), nem tudo mudou: as águas atlânticas (ao menos as que circundam a ilha, e só se há águas que banham um pedaço de terra por todos os lados, é que se tem uma ilha); pessoas ainda falam como há alguns séculos, a indumentária dos pescadores de tanga virou calção, bermuda, bermudão, e/ou; os costumes pouco divergem (agora, ao invés da comunicação via fumaças, marcas em carreiros, estacas de bambu fincadas em trilhas, tem-se o rádio, a televisão, os celulares, etc e etc, para os primeiros meios e para os modernos). A alimentação ainda está concentrada no peixe, camarão, siri, nas raízes de aipim ou de mandioca, garapa, jacuba, bolinhos de nata, do maxixe e o pirão é bom para qualquer boca. Sei que existem outras tradições alimentares e isso não faz mal para nenhum mané (por que quem é mané não padece fome).
Durante séculos e “civilizações” o garapuvu virava bateira ou canoa (a Divino Espírito Santo de Marcelino) de um só tronco. Hoje, se abatido, os da Greenpeace (autoproclamados ecologistas) botam a boca no trombone e a mídia interesseira e hipócrita, sensacionalista agita organizações disso e organizações daquilo.
E Godofredo de Oliveira Neto, de tez de alva areia na qual a lua desvirginada ainda encontra seresteiros com violão e cuíca e pandeiro e cavaquinho, sabe de muitas histórias praieiras, de comadres, de bruxas, de encontros amorosos em macegas e em casas de senadores e de pescadores, e muito mais de Marcelino cafuzo, mulato, mestiço, mané não poupado pela desgraça que chega a dar pena nos plenos dezoito para dezenove anos. Que tristeza, Godofredo de Oliveira Neto, que tristeza, apesar de que teve amputada a mão esquerda e ele que era usualmente destro para a labuta dos quefazeres no barraco e nas águas do alto mar.
Na enseada de praia de Nego Forro, Marcelino, o Lino Voador, há anos órfão de mãe e pai, neto de Chiquinha filha de Chico Tainha, esse pai de Maneco que é mudo, companheiro inseparável, tem um relacionamento vicinal comum, destaca-se pela vida pesqueira, prestativo, tem boa lembrança da professora Edneia, é personagem central da trama, não se aparta de Maroca e Chico, que sob a regência de Zequinha, o mais cantador da região, fica mudo na hora de se apresentar ao senador, situação, ainda que única, deixa o Voador amuado.
O “um Cruz e Souza dos mares” (p. 18), “um pescadorzinho negro” (p. 37), tem em Eve, uma trintona polonesa de língua alemã, a governanta da família do senador, a iniciadora na vida sexual (pp. 134-6), e, ao menos, duas paixões: Sibila, da família de Nazareno Corrêa da Veiga di Montibello e Emma Alencastro do Nascimento Silva Azambuja di Montibello, e Martinha, filha de Ézio, proprietário local de um armazém de secos e molhados.
O tempo é em alguns meses de 1942, período da intervenção no estado de Santa Catarina, com reflexos locais e no Rio de Janeiro onde o senador exerce atividade atrelada à política, passando temporadas com a família na mesma praia onde sobrevivem os nativos.
Marcelo Voador, afeito às intempéries em terra e água, que fossem os fortes ventos, as chuvas torrenciais, com Chico Tainha, Maneco e o velho Arlindo, sempre capturam o necessário para a alimentação e o suficiente para venda (a manutenção das redes, os anzóis, reparos na Divino, etc.).
Até que em mais uma pescaria “A Divino Espírito Santo fez-se à vela mal clareava o dia” (p. 110, um pouco menos da metade das 258 páginas do livro). E tudo estava indo bem: “[...] tainhas, sardinhas, corvinas, cavalas, pescadas, enchovas, um cação dos grandes, um alqueire de camarão e uma arraia debatiam-se no fundo da canoa”.
Quem disse ou escreveu que até o que é bom dura pouco também para Marcelino, Maneco e Edinho, esse, menino de dez anos em sua primeira pescaria? A desdita ceifa a vida no iniciante e Marcelino fere a mão esquerda em algo perfurante e, pela clareza da narrativa, sem piedade, atroz, dolorosa, a despertar compaixão para com o duplamente órfão, algo estala na mente de quem está a ler: tétano! Exatamente, tétano!
Passados alguns dias de hospitalização “Marcelino acordou no dia seguinte tonto da anestesia. E já sem a mão esquerda. No hospital diziam que não ter perdido o braço e ter sobrevivido era o mais importante, a infecção aparentemente fora debelada, o risco de morte tinha sido grande” (p. 156).
Desse episódio em diante, sem ter havido nenhuma brusca ruptura na linearidade da narrativa, a trama, quase que no todo da obra, passa a ter o cenário na casa da família de Nazareno, no Rio de Janeiro do tempo de Getúlio Vargas. Marcelo Voador aceitou o convite, por três meses, para cuidar-lhe dos pássaros que o senador tinha algo de ornitólogo.
Na Capital Federal, estando o senador ainda na Vila Faial, próxima à praia de Nego Forro, é que foram para o Rio de Janeiro Emma, a filha e a governanta, nem fluído o trimestre “O pescador de Praia do Nego Forro vinha descrito como um jovem com espírito simples, despojado, com total desprendimento pelos bens materiais da sociedade, e inteligência abaixo da média, presa fácil de seus instintos animalescos, particularmente o instinto sexual altamente aflorado, [...]” (p. 243), conforme relatório, por ter sucumbido às artimanhas arquitetadas por sectários (nazistas) com os quais Eve desempenha papel relevante. Ao final, reconhecida a inocência, veio-lhe o aconselhamento: “– Pode voltar pra tua tribo de índio, meu filho, aqui é o Rio de Janeiro, não é cidade para os teus beiços” (idem).
Regresso, esquecido pelo senador, estando em Santo Antônio de Lisboa que não era o Rio de Janeiro, e continuando a vida na ilha de Sana Catarina dos seus sonhos (p. 250), o personagem, após reafamiliar-se “No dia seguinte, domingo de Páscoa, de manhã, foi aquela gritaria. Lino Voador estava pousado no alto do abacateiro que se erguia na vertente do morro, não muito distante da venda do seu Ézio, esteado em dois grossos galhos bifurcados. [...]”(p. 253).
Na evolução da obra nota-se a recorrência ao nome do personagem:
“Marcelino olhou novamente para baixo. Sorriu para Martinha. O sol parecia acariciá-la, os raios iriavam-lhe os cabelos anelados. Dona Edneia gritou com toda a força:
– Manumisso! Você está livre, Marcelino Nanmbrá dos Santos. Livre, Marcelino, livre, manumisso.
Outros se juntaram a ela e repetiram, em coro:
– Manumisso, manumisso, manumisso”.
Manumisso!? No final dos anos de 1930 e início da década de 1940, seria Marcelino Nanmbrá dos Santos um escravo alforriado, liberto?
Poupo-me ao efetivo desfecho de Marcelino e sigo com mais um pouco da literatura de Godofredo de Oliveira Neto.
O fato ocorrido com o personagem, a meu sentir, beirando à morte, é de realismo perfeitamente admissível inclusive à atividade pesqueira. Poderia o Autor ter “escolhido” uma perna ou um olho para a parte dramática da trama? Não ouso opinar, mas opino a respeito da excitante descrição na plenitude do cenário na ação em que Eve e Marcelino se envolveram comungando experiência feminina e iniciação do parceiro.
O discurso fraseológico em Marcelino é fluente, detalhista, insinuante, atento às circunstâncias vividas pelos atores, adjetivação opulenta e substancial riqueza vocabular, além de mostrar coerência com o usual linguajar praieiro e o mais “civilizado” seja tribal ou para outros beiços. A dialogação, ferramenta recorrente, é compatível com a linguagem dos personagens e adequada às circunstâncias em que as ações se desenvolvem.
O filho de Blumenau é detentor de um currículo específico invejável (aqui a inveja no sentido de vício sadio): cursou os estudos superiores na França, durante os anos da ditadura militar, no Brasil; é professor do Departamento de Línguas vernáculas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; graduou-se em Relações Internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Paris II (França) e em Letras pela Universidade de Paris III (França) onde também realizou o mestrado em Letras; possui o título de Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; ocupou diversos cargos técnicos em instituições nacionais e internacionais, e integra diversos grupos de pesquisa em Literatura, dentre os quais o comitê de pesquisadores da Association Archives de la Litérature Latino-américaine des Caraibes et Africaines du XX Siècle, ligado à UNESCO; preside a Comissão de Língua Portuguesa do Ministério da Educação do Brasil e o Conselho Científico do Instituto Internacional de Língua Portuguesa da CPLP, entidades responsáveis pela implementação do novo acordo ortográfico nos países lusófonos. Além das obras referidas – O Bruxo do Contestado (1996) foi eleito revelação do ano pela Folha de São Paulo e pela revista Veja. É também Autor de Pedaço de Santo (1997); Oleg e os Clones (1999); o livro infantil Ana e a Margem do Rio: confissões de uma jovem Nauá (2002) recebeu o selo de “altamente recomendável” da Fundação Nacional para o Livro Infantil e Juvenil; Menino Oculto (2005), segundo lugar no 48º Prêmio Jabuti; Libertinagem & estrela da manhã (2006); Cruz e Sousa: o poeta alforriado (2010); Amores Exilados (2011), aclamado pela crítica como importante livro sobre os exilados políticos durante o regime militar no Brasil; Secchin : uma vida em letras (2013); Ilusão e mentira: as histórias de Adamastor e de Lalinha (2014); Falando com estranhos: o estrangeiro e a literatura brasileira (2016) e Grito (2016).
Godofredo de Oliveira Neto é Membro Titular da Cadeira “Barão do Rio Branco” da Academia Carioca de Letras; membro do PEN Clube do Brasil; da Academia Europeia de Ciências, Letras e Artes (Embaixador para a América Latina) e do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Entre outras condecorações recebeu a Medalha Euclides da Cunha da Academia Brasileira de Letras e a Medalha Cruz e Sousa do Estado de Santa Catarina. Em 2018 foi eleito Membro Efetivo da Academia Catarinense de Letras para ocupar a Cadeira 10, cujo patrono é Francisco Antônio Castorino de Farias. É professor universitário.
Constata-se, pois, uma vida inteiramente consagrada às Letras.
Não é de se admirar a existência de trabalhos acadêmicos estrito senso referentes à produção literária de Godofredo de Oliveira Neto, bem como a assinada e fundamentada fortuna crítica tanto como a de Vivaldo Andrade dos Santos: “Marcelino ressurge nas praias do litoral catarinense suplantando o antropófago oswaldiano emblemático da cultura brasileira”, quanto até as “Felicitações pelo Marcelino”, de Eduardo Portella, o que, em qualquer manifestação sempre configura a prova de que alguém, ainda que de quinze em quinze anos, está lendo ou leu alguma obra de algum autor, também catarinense.
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*Artêmio Zanon, 80. Jurista e da Academia Catarinense de Letras.
1Godofredo de Oliveira Neto nasceu em Blumenau, estado de Santa Catarina, no dia 22 de maio de 1951.
2O Bruxo do Contestado. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996.
3Os fanáticos [...]. Florianópolis, 1952. Não há dados de impressão. Consta ainda na página de rosto que se trata de “(Contribuição para o estudo de antropo-sociologia criminal e da história do movimento dos fanáticos em Santa Catarina)”. Insere-se, nesta nota, que após o nome do Autor consta: “(Da Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de São Paulo, do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e do Conselho Penitenciário do Estado de Santa Catarina)”.
4Aujor Ávila da Luz nasceu em Florianópolis, no dia 28 de agosto de 1906 e faleceu no ano de 1974.
5A Literatura dos Catarinenses – Espaços e caminhos de uma identidade: Poema, Prosa, Poesia. Edição Especial. Editora Unisul, 2012, 426 páginas.
6História de Santa Catarina – O Contestado. Não consta a data de publicação, e apenas no dorso lê-se: “Editora Século Catarinense”, 342 páginas. No verbete Godofredo de Oliveira Neto (p. 437), lê-se que no ano de 2000, pela FCC (Fundação Catarinense de Cultura) e pela Record (Rio de Janeiro), foi publicada a obra Marcelino Nanmbrá, o manumisso; e pela Imago, Rio de janeiro, 2008, Marcelino, com esta observação: “versão reformulada de Marcelino Nanmbrá, o manumisso”.
7Os fanáticos [...]. Editora da UFSC, Florianópolis, 1999, 296 páginas.
8Texto adequado, para este estudo, da dissertação apresentada em dezembro de 1999, para obtenção do título de Mestre em Literatura, por Fernando Goss: conforme sítio repositório.ufsc.br discursos e narrativas da Guerra do Contestado.
9Marcelino. Livros de Criação: Ímã editorial, Rio de Janeiro, 2019, 260 páginas.