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Mário Cabral - «O Meu Livro de Receitas» - Receita Para Agosto

Mário Cabral - «O Meu Livro de Receitas» - Receita Para Agosto

Mário Cabral, 2015

Mário T. Cabral
9 de Junho de 1963-10 de Agosto de 2017



Principais obras:
  • O Mistério da Casa Indeterminada (romance, Companhia das Ilhas, 2016)
  • Via Sapientiæ: Da Filosofia À Santidade - o fundamento cristão do pensamento português ilustrado a partir de Delfim Santos, Agostinho da Silva e Teixeira de Pascoaes (ensaio filosófico, Imprensa Nacional -Casa da Moeda, 2009
  • Tratados (poesia, Companhia das Ilhas, 2012)
  • O Acidente (romance, Porto: Campo das Letras - Prémio John dos Passos para o melhor romance publicado em Portugal em 2005-2006, 2005)
  • O Livro das Configurações (romance, Porto: Campo das Letras, 2001)
  • O Meu Livro De Receitas (poesia, Guimarães: Pedra Formosa, 2000)
  • História Duma Terra Cristã (crónicas, ed. autor, 1995) 
Tem ensaios espalhados por livros e revistas académicas a nivel internacional. 

Mário Cabral também é pintor, com exposições feitas em Lisboa e nos Açores. Os desenhos inclusos em Tratados pertencem a Eudemim: O Regresso ao Belo (Sinestesias) - (exposição de 53 desenhos). Desenhou a capa de livros que integra a série "Interdisciplinary Studies in Diasporas" Peter Lang International Academic Publishings.       


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RECEITA PARA AGOSTO

Viajam em Agosto, vão às ilhas gregas tirar fotografias para mostrar aos amigos no Inverno
Nas praças italianas desenvolvem xenofobia nipónica, sobem e descem o Nilo, compram «souvenirs»
Os mais aventureiros experimentam os bem denominados "palcos de guerra" -mas não fazem a dieta local.
- A receita para a divinização não é esta, digo-lhes eu, mas já vão demasiadamente longe para ouvir
Demasiadamente longe demasiadamente longe demasiadamente longe 
Quanto a mim, enclausuro-me na sombra das árvores e escrevo versos extensos, à maneira de versículos.
O ritmo estival é assim estendido, lento, basto como os sucos vitais.
Tenho a certeza de que procuram o elixir da Felicidade e não sabem oh
Oh e o pior é que não querem saber que Agosto é o mês exacto para receber a Plenitude
Em nossa casa, bastando para o facto enclausurar-se na sombra das árvores
Distraidamente a contemplar as carpas dos tanques sem idade.
Talvez ao longe se consiga ouvir distorcido pela onda do calor da tarde um rádio em emissora popular
Os barcos, estes, vêem-se como reflexos no azul azul da minha ilha helénica.
O meu século turistou da mesma forma que comeu «hamburgers» e vestiu Levi's 501
A ideologia fica comprovada no facto de não terem apreciado a Poesia.À noite, os grilos, as rãs e os cagarros desfazem a argumentação histórica
E eu, que porque não embarco não me esqueci ainda da fala dos animais
Traduzo-lhes o poema de Göran Palm, que começa assim:
"Enquanto o sol brilhar sobre nós ou sobre as nuvens, é
Domingo, Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta ou Sábado
Mas as noites permanecem sem nome, recusam-se a ser baptizadas."
E antes de a Morte vir ofertar-nos o sono gratificante
Concedem-nos os deuses benéficos os meses de Verão, entre todos o de Agosto
O mês dos Campos Elíseos, o tempo sem trabalho, sem conquista, sem expectativa
Cheio da Verdade que a fala dos homens recusa e por fim desmente.
O meu leão da Serra da Estrela arrasta-se para a sombra da figueira, eu sorrio a pensar
Na forma bem comportada como até os meus amigos mais irreverentes obedecem ao humanismo
E bebo mais um pouco do meu refresco de frutas com muito gelo
Os barcos, estes, vêem-se como reflexos no azul azul da minha ilha helénica
À noite, os grilos, as rãs e os cagarros desfazem a argumentação histórica
E eu, que porque não embarco não me esqueci ainda da fala dos animais
Traduzo-lhes o poema de Göran Palm, que começa assim:
"Enquanto o sol brilhar sobre nós ou sobre as nuvens, é
Domingo, Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta ou Sábado
Mas as noites permanecem sem nome, recusam-se a ser baptizadas."
Cegam a alma com os olhos. Que há de novo para dizer? De novo
A quinta da tia Carmelo, que ficava na Roma Antiga
Melhor dito, no campo romano das bucólicas de Virgílio.- A receita para a divinização não é esta, grito-lhes eu, mas já nasceram demasiado longe para ouvir.


Mário Cabral, «O Meu Livro de Receitas» (poesia, Guimarães: Pedra Formosa, 2000)