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Mário T. Cabral - O Pensamento Filosófico-Político em Antero de Quental

"Amortalhei na Fé o pensamento, E achei a paz na inércia e esquecimento ... Só me falta saber se Deus existe! "

Mário T. Cabral - O Pensamento Filosófico-Político em Antero de Quental

(Mário T. Cabral, 1963-2017)



O Pensamento Filosófico-Político em Antero de Quental 
Mário T. Cabral 

InterDISCIPLINARY Journal of Portuguese Diaspora Studies
Volume3, Number 1.
Editors:  Irene Maria F. Blayer and Dulce Maria Scott
https://portuguese-diaspora-studies.com/index.php/ijpds/issue/view/15 )



   
 Resumo: Este artigo procura mostrar que o sofrimento existencial de Antero de Quental não é tão indecifrável como se pretende, com alguma frequência. Partindo da assunção universal de que se trata de um autor com preocupações teórico-práticas de cariz filosófico, político-económico e moral; e, ao mesmo tempo, considerando que ficou na História enquanto poeta, analisa um dos seus sonetos "O Convertido", para concluir que as angústias e depressões anterianas - que acabarão por conduzi-lo ao suicídio - derivam do facto de ter plena consciência de que apenas o catolicismo da sua educação açoriana corresponde aos anseios da sua alma informada e madura . . . embora não tenha tido a coragem de o assassumir, em século tão avesso à Igreja Católica, como foi o século XIX.

Palavras-chave: século XIX, Geração de 70, santidade, infinito, liberdade, Igreja Católica. 

Abstract: This paper attempts to demonstrate that Antero de Quental's existential suffering is not as indecipherable as it is usually thought to be. Departing from the universal assumption that this is an author with theoretical and practical concerns of a philosophical, political, economic and moral nature - and at the same time, considering that he is remembered as a poet - in this paper I analyze one of his sonnets, "The Converted". In this analysis, I intend to demonstrate that the Anterian's anxieties and depressions - which will eventually lead him to suicide - derive from his awareness that only the Catholicism of his Azorean upbringing fulfilled the yearnings of his learned and mature soul . . . even though he did not have the courage to admit this, during a century so adverse to Catholic Church, as the nineteenth century.

 Keywords: Nineteenth-century, Generation of 70, holiness, infinite, liberty, Catholic Church. 


Antero de Quental partiu de S. Miguel, ilha do arquipélago dos Açores, para o Continente, com a ideia de vir a ser padre católico. Mas, em Coimbra, ateou fogos revolucionários, sendo uma das cabeças mais importantes da Geração de 70. Acabou por escrever o primeiro programa do partido socialista português, antes de regressar à sua ilha natal, como um dos Vencidos da Vida
     Todo este percurso está por ele próprio resumido num soneto que, a meu ver, deve ser levado a sério, na íntegra; não é que seja um poema imortal, mas é claro, sintético e, sobretudo, autêntico e vivo. "O Convertido" é dedicado a Gonçalves Crespo. Foi escrito entre 1874-1880, quando o poeta andava pelos seus trintas (Quental, Poesia 270): 

     Entre os filhos dum século maldito
     Tomei também lugar na ímpia mesa, 
     Onde, sob o folgar, geme a tristeza
     Duma ânsia impotente de infinito. 

     Como os outros, cuspi no altar avito
     Um rir feito de fel e de impureza ...
     Mas um dia abalou-se-me a firmeza,
     Deu-me rebate o coração contrito!

     Erma, cheia de tédio e de quebranto,
     Rompendo os diques ao represo pranto,
     Virou-se para Deus minha alma triste! 

     Amortalhei na Fé o pensamento,
     E achei a paz na inércia e esquecimento ...
     Só me falta saber se Deus existe! 

     Há quem, dentro do mundo da Filosofia, da História e da Política, quase nos proíba de olhar para os sonetos, com medo de que possamos compreender o sofrimento do seu autor, apresentado como um mistério indecifrável. Vou partir dos seguintes pressupostos, que tomo por universalmente aceitáveis: 

  1. Antero de Quental é, para nós, no século XXI, principalmente um poeta - e o poeta dos Sonetos; vou levar muito a sério o que ele escreve neles pois, para além de tudo, parecem-me do melhor que produziu, e do mais sincero. 

  2. Antero de Quental privilegia sempre os modelos teóricos que enformam a prática; não é nada o género de pessoa que tem as ideias por secundárias ou irrelevantes, todas iguais, no fundo. Por outro lado, não aceita uma ideia que não se concretiza numa prática efetivamente justa e livre. 

  3. Creio ser uma assunção universal que Antero de Quental procurou em todas as etapas da sua vida a liberdade, a justiça e o bem, sendo, na essência, um autor moral. A figura do santo é central nas Tendências da Filosofia no Século XIX, a sua obra filosófica por excelência. 

  4. Creio ser uma assunção universal que o eixo de toda a obra de Antero de Quental é aquilo que, neste soneto, aparece dito como "ânsia impotente de infinito". Não me custa chamar-lhe "Deus", embora haja muito a esclarecer sobre este assunto na obra em questão. 

     Em suma, a minha tarefa consistirá em testar as grandes paixões filosófico-políticas de Antero de Quental com base nesta grelha: quantos mais pontos, deste quadro, forem cobertos por uma doutrina, mais esta doutrina se adequa ao pensamento íntimo deste autor. 
     A mensagem de "O Convertido" é clara. Chama "maldito" ao século XIX, faz o mea culpa das participações nas impurezas ímpias e declara: "Amortalhei na Fé o pensamento". 
     Neste contexto, não me sinto a arriscar muito ao interpretar "Como os outros, cuspi no altar avito" como uma referência direta à Igreja Católica: o adjetivo "avito" quer dizer "que procede, que se herda ou se obtém dos avós ou antepassados; avoengo". Ora, este açoriano não só é de criação católica como saiu da sua ilha para ser padre, como já referi. Repare-se que o soneto descreve uma luta entre o "século maldito" e o "altar avito". De resto, como é sabido, esta luta foi cara à República. 
     Se se tratasse de um caso único na sua poesia, então esta peça não teria significado. Porém, a haver tema principal na poesia anteriana, ele é mesmo este: podemos contar muitíssimos poemas cujo tema é Deus e a religião católica, entre eles a única peça que o representa no volume de poesia universal Rosa do Mundo (Monteiro 1106-1107); e quem não conhece o sublime "Na mão de Deus, na sua mão direita . . ."?! (Quental, Poesia 300). 
     É impressionante a forma como Oliveira Martins tenta diminuir esta evidência, insinuando que o amigo é uma espécie de borboleta que salta desta ideia para aqueloutra com leviandade infantil; quase que se enfurece com o facto de Eça de Queiroz, entre outros, lhe chamar "Santo Antero". Antero de Quental torna-se um escândalo para a Geração de 70, devido à integridade e pureza que coloca na busca da Verdade (Quental, Poesia 159-173). 
     Ainda hoje perturba assistir à teimosia daqueles que, estudando o autor, continuam a abafar os gritos lancinantes que apelam por salvação. Joel Serrão aconselha-nos a não cairmos no fascínio do cântico das sereias líricas, postas ao lado dos textos políticos numa mesma e única hermenêutica, pecado que eu me preparo para cometer (Serrão 345). 
     Na minha conclusão, direi que Antero de Quental não é um santo - mas parece que estou a ver o sorrisinho maroto de Eça ao perguntar pelo "nosso santo" a Oliveira Martins. A ironia fina que todos reconhecemos ao autor de A Cidade e as Serras tem razões fortes para ter compreendido o que estava a acontecer com o amigo das ilhas. Ambos os nossos escritores se deram conta que tinham ido longe de mais nos impropérios da juventude contra Portugal. 
     Por agora, interessa investigar aquilo de que se arrepende Antero de Quental, que "rir feito de fel e de impureza" foi este que o levou a bater, depois, no peito. Para tanto, façamos uma paragem obrigatória no texto das conferências do casino, intitulado Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, onde explicita as razões que, em seu entender, impediram Espanha e Portugal de acompanharem o movimento moderno, dominante no século XIX da Europa do Norte e, convenhamos, ainda prevalecente na Europa atual. 
     O que mais espanta nestas palestras é a sua atualidade, seja qual for o ângulo pelo qual as contemplemos: se olharmos para o fatídico provincianismo com que denegrimos, ainda hoje, o passado de Portugal, parece-nos velho o   discurso contemporâneo sobre o nosso atraso em relação à tal Europa do Norte, dado que Antero de Quental escreve o mesmo em 1871; se olharmos para o modo como Antero entendeu a Idade Média portuguesa, então lembramo-nos de pensadores do século XX, a exemplo Teixeira de Pascoaes, Delfim Santos e Agostinho da Silva, e continuamos a admirar a frescura anteriana (ver Cabral). 
     Na verdade, o leitor hodierno espanta-se com o facto de o jovem de trinta e um anos compreender o alto valor intrínseco do Portugal antigo. Em síntese, sublinha a descentralização e o federalismo da Península Ibérica, consignado na multiplicidade de reinos e, no caso luso, no espírito municipalista, revelador da independência e autonomia das populações, chegando mesmo a chamar-lhe "democrático". A economia de base rural não é referida explicitamente, como em Agostinho da Silva, que elege o reinado de D. Dinis como o ponto mais elevado da nossa história (ver Cabral 379-414); mas a ela podemos chegar, a contrario, quando se põe a rasgar o maior elogio à indústria moderna, à ciência moderna, que nunca tivemos. 
     É chocante que não reconheça, nesta altura, que a Idade Média portuguesa e europeia, no seu conjunto, é o resultado concreto e real da mundividência católica; e, no nosso caso específico, franciscana. Segundo ele, somos cristãos, mas não romanos, no que volta a lembrar Agostinho da Silva, que também caiu, por um tempo, neste equívoco. 
     Mas enquanto o último aponta o dedo à dissidência protestante, Antero de Quental acusa a Igreja Católica do Concílio de Trento de se opor à ciência moderna, à industrialização do mundo burguês, à liberalização moral e a todo o atraso proveniente da contrarreforma. Refere as questões teológicas, sem atender às consequências práticas. Fica claro como água o apoio ao protestantismo e ao capitalismo, seu sucedâneo. Será este "o riso feito de fel e de impureza"? 
     Com efeito, a igreja católica opôs-se a Lutero e a todos os protestantismos derivados, por razões teológicas, mas não só, pois que as ideias têm consequências. Este conflito é muito mais antigo do que Antero de Quental parece supor. Já no século XIII, o século áureo da civilização cristã, começaram a surgir as primeiras ameaças do capitalismo atual. Talvez Lutero pensasse na vida eterna, mas os príncipes alemães que lhe deram o seu apoio não estavam primeiramente preocupados com o Reino dos Céus, ao se revoltarem contra o Papa. O dinheiro que ia para Roma continuou a ser extorquido ao povo . . . só que, desta feita, os reis absolutos não representavam Deus na terra.   
     Sim, a Santa Madre Igreja opôs-se à modernidade, porque tem a obrigação de tomar o partido dos pobres e oprimidos e esta modernidade avançou criando um novo tipo de escravatura, mais tarde denominada "proletariado". Dantes, um lavrador não precisava de pedir dinheiro emprestado para fazer o seu arado ou a sua nora; havia sempre um compadre carpinteiro que o ajudava. Pouco a pouco, as máquinas foram substituindo o modo antigo de viver, até que o século XVIII abafou, de vez, a vida campesina. O sistema bancário   condicionou a relação cidade-campo: a pequena propriedade privada de base rural ou mercantil é vendida, só resta emigrar para a metrópole e vender a força de trabalho, e mais nada. Em Inglaterra, John Ludd chefia um grupo de proletários que se voltam contra as máquinas e as destroem, porque estas os estão a lançar no desemprego, depois de lhes terem roubado a dignidade. A coisa vai ao ponto de, em 1769, o parlamento inglês promulgar uma lei que condena à morte quem destruir máquinas. 
     Ao contrário da maior parte do século XIX português - e mesmo do século XX, e mesmo do século XXI - Antero de Quental virá a compreender todo este imbróglio e tomará o partido dos pobres, seguindo atrás de Proudhon e Bakunine (Serrão 349). Entretanto, está ainda encantado com a filosofia alemã, protestante e burguesa, em especial por Hegel. Deixar-nos-á testemunho do seu muito consciente afastamento deste panteísta naquela que é assumida como a sua opera magna filosófica, as Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do século XIX. Terá sido neste "dia que se lhe abalou a firmeza, e lhe deu rebate o coração contrito"? (Quental, Poesia 270). 
    Costuma apresentar-se Hegel como o filósofo da História, o que Antero de Quental vem a declarar como um paradoxo, recusando a evidente falta de liberdade deste que é considerado o maior sistema do idealismo alemão. E Antero de Quental é uma alma demasiado pura para recusar a evidência da liberdade. 
     Todos nós, seres humanos, sentimos a liberdade, se quisermos ser honestos diante de nós próprios. Se passarmos debaixo de uma macieira e dela cair um fruto que nos atinge na cabeça, não nos revoltaremos contra a árvore, dado que não lhe reconhecemos intencionalidade. A maçã caiu porque estava madura e porque existe gravidade. Já se alguém nos atirar uma maçã à cabeça, logo nos perguntaremos pelo motivo que levou a tal ação. 
     A liberdade é o contrário da necessidade. A necessidade é o princípio explicativo do mundo físico, enquanto a liberdade é o princípio explicativo do mundo espiritual. E entre ambas ainda há outra lei diferente, que é a finalidade, que explica o mundo biológico. Ninguém de bom senso espera que uma pedra cresça e dê fruto. Uma pedra não se mexe do local onde está, a não ser que haja uma causa externa que lhe provoque o movimento. Porém, é expectável que uma pequena planta de macieira venha a tornar-se numa árvore e dê fruto, um dia.
     Nicolai Hartmann sintetizou estes pressupostos num quadro de níveis de realidade que marcou indelevelmente o pensamento de Antero de Quental, assim como acontecerá com pelo menos mais um filósofo português, no século XX; refiro-me a Delfim Santos, que também combate o positivismo com a necessidade de encarar a realidade como múltipla, estratificada em camadas que apelam a métodos, linguagens e princípios explicativos diversos, com o risco de, ao contrário, reduzirmos as diferenças reais a uma planura materialista onde desaparece o humanismo e, até, a vida. As consequências sociais e políticas são funestas (ver Cabral 47-99).  
     Delfim Santos sabia que, bem vistas as coisas, Hartmann se limitara a esquematizar reflexões muito antigas, que remontavam até Aristóteles. Antero de Quental não parece ter lido os antigos, o que é pena. Mas ao menos haveria de saber que, para o Cristianismo, a ideia de liberdade é fundamental, porquanto decorre necessariamente da noção de Criação, que é um dogma de Fé: Deus cria o Homem à Sua imagem e semelhança, ou seja, livre. 
     Ora, uma das razões de fundo pelas quais a Santa Madre Igreja combateu os modernos prende-se com o facto de estes explicarem toda a realidade a partir dos princípios de causalidade mecânica, anulando a finalidade biológica e a liberdade humana. O flagelo materialista nunca mais largou a filosofia e a ciência ocidentais, como, por exemplo, na neurologia e na filosofia da mente contemporâneas. Nele, o homem morre afogado, como bem o sentiu o nosso poeta. 
     Ao contrário de Descartes - paradoxalmente considerado o pai da filosofia moderna -, Espinosa e Hegel afirmam que o pensar e a realidade exterior ao pensamento são uma e a mesma coisa, recusando a transcendência do espírito e, por conseguinte, a liberdade. Os sistemas panteístas reduzem os diversos níveis da realidade a uma só substância, à qual chamam Todo ou Absoluto. Toda a natureza e toda a vida histórica e social são entendidas como manifestações inevitáveis da vida desta espécie de monstro que é o universo a dar-se a si próprio, sendo o pensamento humano apenas a consciência deste bicho, que não tem complacência para com a individualidade pessoal. 
     Para Hegel, não são os homens que fazem a História; os homens são instrumentos nas mãos deste Absoluto sem mãos, autómatos, sonâmbulos, escravos do avanço deste ser tirânico sem misericórdia para com os entes que devora, à sua passagem, destino que alastra como onda de petróleo que se espalha pastosa sobre as aves do mar, impedindo-as do voo. 
     Se a História é um processo inevitável, o domínio da burguesia não pode ser combatido, por exemplo. Diz-se que quando Napoleão entrou na Alemanha, Hegel exclamou: "Eis o Espírito Absoluto montado a cavalo!" (Hegel citado em Gramsci 386). A Santa Madre Igreja espuma, indignada, ao ver claramente visto o ataque a um dos seus pressupostos fundamentais: o Mal não é necessário. Todo o processo humano pode regredir, dependendo da consciência, do livre arbítrio e da vontade. 
     Mas o século XIX foi, de facto, um "século maldito", época difícil para se viver com discernimento mental. Ao mesmo tempo, Darwin e os evolucionistas declaram que o ser humano deriva de um processo de seleção natural onde a lei do struggle for life impera. Para além desta lei, contrária ao amor e ao sacrifício, tão caros a Antero de Quental, a natureza humana, assim explicada, esvazia-se de orientação metafísica e de sentido. É declarado o império do acaso, contra a finalidade e a intencionalidade. Freud garante que sobraram em nós umas raízes dos instintos bestiais e que são estes, e não a liberdade espiritual, quem determina a viagem da razão.  
     Regressemos aos Sonetos, que revelam a grande falta de ar que Antero de Quental sente, trancado nesta bola do Absoluto hegeliano e seus derivados novecentistas. Falta aqui infinito, falta aqui liberdade, falta aqui transcendência. E tudo isto está relacionado com a excelência do santo, como explica na terceira parte das Tendências . . ., onde apela à necessidade de um deus kantiano, que é um axioma da razão, uma necessidade prática para os homens comseguirem viver a moral e a política, mesmo sem crença, mesmo sem Graça. 
     Neste ponto, não pode estar mais no avesso de Bakunine, embora seja por aqui, a meu ver, que se aproxima dos ideais socialistas. Marx é o grande analista do triunfo burguês e um dos primeiros a ridicularizar o Espírito Absoluto de Hegel, insistindo que a História é feita por homens concretos, aqui e agora, homens com interesses distintos, conforme a classe social a que pertencem, e que, portanto, abrem luta uns contra os outros. 
     Marx sempre exerceu e ainda exerce um fascínio perverso sobre os crentes, porque há semelhanças inegáveis entre a proposta comunista e as primeiras comunidades cristãs. É altamente revelador, do meu ponto de vista, que Antero de Quental tenha tomado o partido de Proudhon e de Bakunine que, como é sabido, é a ala derrotada na Internacional Socialista. 
     Proudhon e Bakunine (ver Serrão) distinguem-se do marxismo "oficial" por não advogarem a necessidade de uma revolução violenta, como a que veio a acontecer na Rússia. O comunismo é, no fundo, o culminar do capitalismo, a concentração do capital nas mãos do estado totalitário, entendido por Marx como uma etapa indispensável para a construção da nova sociedade sem classes. 
     Os anarquistas, por seu turno, acreditam que esta busca do paraíso perdido deve ser conseguida progressivamente, na paz e na ausência de estado, através da ação direta das pessoas organizadas em corporações e sindicatos, à boa maneira medieval. De resto, Proudhon faz lembrar muitas vezes aquilo a que muitos chamam "socialismo cristão medieval", ao defender a pequena propriedade privada e um sistema de empréstimos que invalide a usura capitalista. 
     Já dá para perceber que é preciso ter cuidado quando se afirma que Antero de Quental introduziu as ideias socialistas em Portugal. Na altura, aquilo que se entendia debaixo da palavra "socialismo" nada tinha a ver com a "socialdemocracia" de pendor liberal em que ele se transformou nos nossos dias. Se vivesse hoje, Antero não seria socialista, por certo; nem seria "comunista - nem me parece que fosse anarquista, porque os anarquistas não sentem a necessidade metafísica do nosso poeta. 
     Se regressarmos aos tempos logo a seguir ao 25 de Abril, encontraremos muita gente nossa conhecida que foi da qualidade de Antero de Quental, gente profundamente marcada pela formação católica, que aderiu a partidos como o MDP/CDE, por exemplo, sem se dar conta da incompatibilidade teórica de fundo. Aliás, o mesmo veio a acontecer no Brasil e na América Latina, as teologias da libertação estão aí para provar este equívoco. 
     Antero de Quental é um bom pequeno das ilhas, bem formado no "altar avito", que toda a sua vida procurará concretizar o Reino de Deus já neste mundo, a ponto de abandonar o berço de oiro em que nasceu e fazer-se tipografo, que os ideais se desejam materializados e há que experimentar a sorte dos pobres. 
     Começa por atacar tudo o que aprendera nas ilhas sobre a Justiça, a Verdade e o Bem. Quer ser moderno entre os mais modernos de todos, aproximando-se desta corrente e daqueloutra, na senda da paz, da liberdade e da justiça social. Entra no labirinto de Teseu e assusta-se com o Minotauro.
     Em Hegel procurou a "ânsia de infinito", mas quase morreu afogado na clausura imanentista deste sistema sem lugar para a liberdade nem para a misericórdia. Regressando à minha grelha inicial, Hegel cobre, de certa forma, o ponto (4); mas os pontos (2) e (3) ficam altamente a descoberto. 
     A sua viva inteligência deixou-o ver de forma admirável, para o tempo, o insulto que a ciência positiva representa para a essência do ser humano. Nenhum dos meus quatro postulados é coberto pelo positivismo. 
     O espiritualismo francês não tem um método credível, deixando periclitantes os pontos (2) e (3). 
     As políticas derivadas de Marx, embora sensíveis à injustiça social - pressupostos (2) e (3) -, são completamente surdas aos apelos metafísicos do ponto (4).
     Em suma, coloquemos frente a frente as armas do "século maldito" e do "altar avito": do lado do "século maldito", encontramos o "struggle for life" capitalista - do lado do "altar avito" a recusa do egoísmo, que caracteriza o santo; do "lado do século maldito", o fatalismo historicista de Hegel - o lado do "altar avito", a intencionalidade e a vontade livre; do lado do "século maldito", o materialismo positivista - do lado do "altar avito" o infinito da metafísica; do lado do "século maldito", a desresponsabilização moral de Freud - do lado do "altar avito", a consciência moral . . . Creio que não há necessidade de continuar este confronto. 
     Terá Antero de Quental compreendido que só o Catolicismo cobre, à vez, os quatro requisitos que enumerei? O soneto analisado aponta neste sentido. Aliás, no geral, os Sonetos são pungentes pedidos de socorro de uma alma lúcida num "século maldito". 
     É inevitável uma pessoa compadecer-se de Antero de Quental. 
     Que tem tudo isto a ver com a república, com a monarquia, com a anarquia? Bem vistas as coisas, nada, ou muito pouco. Terá Antero de Quental descoberto que os sistemas políticos são máscaras e farsas, quando a eles não subjaz a moral, que puxa o humano para a sua maior humanidade, que tem a obrigação de se transcender a cada momento, sempre para o alto e para o mais alto do alto? 
     Antero de Quental foi um homem muito inteligente e culto e, sobretudo - todos o garantem - uma alma muito boa, pelo que é quase certo que chegou a esta conclusão. 

 Obras Citadas 
Cabral, Mário. Via Sapientiae: da Filosofia à Santidade. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2008. Print 
Gramsci, António. Cadernos do Cárcere, Vol. 1. Org. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001. Print. 
Monteiro, Manuel H., ed. Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro. Lisboa/Porto: Assírio & Alvim/Porto, 2001. Print 
Quental, Antero de. Poesia Completa, vol. I. Lisboa: Círculo de Leitores, 1991. Print. 
---. Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX. Lisboa: Editorial Comunicação, 1988. Print. 
---. Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos. 1871. Lisboa: Tinta da China, 2008. Print.
 Serrão, Joel. "Do pensamento político-social de Antero de Quental (1868-1873)". Análise Social, 16.61-62 (1980):343-361. Print. 


Mário T. Cabral é Natural da Terceira, Açores, é Doutor em Filosofia Portuguesa Contemporânea, pela Universidade de Lisboa, com Via Sapientiae - Da Filosofia à Santidade, ensaio publicado pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda (2008). Para além do ensaio, publica poesia e romance. O seu livro de ficção (O Acidente, Porto: Campo das Letras, 2007) ganhou o prémio John dos Passos para o melhor romance publicado em Portugal em 2007. Está traduzido em inglês, castelhano e letão. Também é pintor.