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O Bracinho, de Carlos Tomé (ou a memória maldita do pai) por VICTOR RUI DORES

O Bracinho, de Carlos Tomé (ou a memória maldita do pai)por VICTOR RUI DORES

O Bracinho, de Carlos Tomé
(ou a memória maldita do pai)

Livro a livro, Carlos Tomé vai consolidando um projecto de escrita no âmbito da ficção narrativa. Uma ficção narrativa que assenta sempre em coordenadas históricas e culturais. Este autor sabe que homem e época são elementos em íntima conexão. Seguir a aventura de uma personagem implica reconstituir o tempo histórico e sócio-cultural em que ela se movimenta. Assim acontece nos dois livros anteriores deste micaelense: Morreremos Amanhã (Artes e Letras, 2007), que tem como pano de fundo a Guerra Colonial Portuguesa, e Um perigoso leitor de jornais (Artes e Letras, 2017), cuja história é atravessada pelos mecanismos repressivos e opressivos do Estado Novo.
Neste terceiro romance, O Bracinho (Letras Lavadas, 2019), Carlos Tomé fala da infância enquanto tempo de descoberta, aprendizagem e deslumbramento, no contexto político e social de um Portugal pobre, rural, analfabeto e subdesenvolvido, a contas com a feroz ditadura fascista e, por isso mesmo, (sobre)vivendo entre parêntesis e a preto e branco. Os Açores, ainda sem autonomia, não fugiam à desdita do subdesenvolvimento e da emigração…
Com a ação centrada no microcosmo da freguesia de Santo António, ilha de São Miguel, o espaço temporal da obra situa-se entre os anos 60 do século XX até ao ano de 2002. Carlos Tomé lança mão de uma história verídica ocorrida naquela ilha: um pai comunica a um filho de 6 anos de idade (que não tinha o braço esquerdo, apenas um coto que não chegava ao cotovelo) que, devido à sua deficiência física, terá que ficar nos Açores e não integrar a família (o pai, a mãe e três irmãos mais velhos) no seu processo de emigração para o Brasil.
Constituindo o leitmotiv de O Bracinho, esta violentíssima separação do agregado familiar é a causa de um trauma profundo vivido por António Medeiros, o menino que ficando ao cuidado de uma tia viúva (Teresa), se sente abandonado, rejeitado e completamente inútil.
Acionando os retroactivos da memória e os dispositivos (cinematográficos) do flashback, António, narrador-protagonista, vem, quatro décadas depois, falar e falar-nos (na primeira pessoa do singular) dessa mágoa maior e do seu percurso de vida desde os verdes anos, passando pela juventude e idade adulta. Fá-lo sob o ponto de vista da criança sofrida (que ele foi), em paralelo com a visão de narrador autodiegético (hoje, com 48 anos de idade, um bem sucedido advogado).
Livro de emoções e comoções, as páginas de O Bracinho estão carregadas de choros, lágrimas e sofrimentos. Aqui se revela, antes de mais, o lado humano dos sentimentos, dos afectos, das emoções e dos estados de alma. O infortúnio e a má sorte de António despertam em nós uma imediata adesão afectiva. Inquieto e irrequieto, ele é o “bracinho”, o “maneta”, o aleijado, o enjeitado, o abandonado. Como se isto não bastasse, seu pai, o severíssimo Luís Medeiros, inflige, com brutal tirania, violentas sovas e tremendos castigos aos filhos (fazendo lembrar a personagem do colérico pai Manuel, de Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo), roubando-lhes os sonhos e fantasias. Luís Medeiros, que nunca aceitou a deficiência do filho, representa o poder patriarcal, obscurantista e inquisitorial que povoa de medo e angústia o agregado familiar. Todo o livro é atravessado por uma espécie de dimensão edipiana e catártica, isto é, de ajuste de contas com a memória maldita do pai.
Outra personagem a ter em conta é Maria da Conceição Medeiros, a mãe de António, mulher sofrida, incomodada e prisioneira porque submissa à autoridade ditatorial do marido que a manipula a seu belo prazer. António só encontrará verdadeiro apoio e refúgio junto de Aninhas, sua irmã e confidente.
Estas três personagens, o filho, o pai e a mãe, a quem Carlos Tomé dá consistência humana e fundura psicológica, são dignas de constar na galeria das grandes personagens da literatura portuguesa de sempre.
Com os pais e irmãos no Brasil (“a terra do esquecimento”), apossa-se de António um sentimento de revolta e rebeldia. Ele não quer saber da família nem das notícias que chegam de longe, fecha-se no seu quarto e no seu mundo de solidão. Completa, com sucesso, o ensino primário. A razoável situação financeira da tia Teresa, com quem continua a viver, permite-lhe, mais tarde, frequentar o Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde vai resistindo aos escárnios e insultos de alguns colegas. A magoada tristeza de não ter emigrado com os pais e irmãos não o larga. De férias na freguesia natal escuta as boas intenções do padre Fernando, mas não se submete aos princípios cristãos e torna-se agnóstico. Termina o ensino liceal e é admitido na Faculdade de Direito de Lisboa, num tempo em que o estigma da Guerra Colonial é ameaça permanente. Adapta-se ao viver lisboeta e os estudos correm bem. De Moçambique chega a trágica notícia da morte (“em combate”) de Miguel, seu amigo de infância. Assistirá, nas ruas da capital, à revolução do 25 de Abril. Com 25 anos coloca uma prótese, torna-se um advogado de sucesso e… obviamente não revelarei aqui o desfecho do romance.
Apenas acrescento que, ao ler O Bracinho, tive como que a sensação de estar a ver um filme ao retardador, pois que nele pressenti o sonho a decompor-se e a refazer-se – em imagens de grande pureza e limpidez, num enfocamento visual que me agradou sobremaneira.
Pleno de espessura evocativa e de atenta observação do humano, o livro está escrito em bom vernáculo e com uma muito bem conseguida fluência narrativa. Por serem curtos, os 38 capítulos tornam a leitura desta obra ainda mais apetecível.
Carlos Tomé, ex-jornalista de méritos firmados na imprensa escrita e televisiva, é hoje um escritor humaníssimo que fala do destino do homem no palco da vida.

Victor Rui Dores