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"Última crônica" de SÉRGIO DA COSTA RAMOS

Última crônica deSÉRGIO DA COSTA RAMOS

Foto: Divulgação/Agência RBS/Charles Guerra

Última crônica



Festejo mais esta manhã em que tomo o primeiro café com o leitor, como acontece neste “Diário” há 28 anos. Será o último.

Manhã perfeita para agradecer a esta senhora, a crônica, gênero fugaz pela própria natureza, mas que tem o berço dos quinhentistas portugueses, como Diogo do Couto e Pero Vaz de Caminha. Senhora que passa por Machado de Assis, Lima Barreto, Drummond, o velho Braga e Fernando Sabino – dois dos mais emblemáticos mestres dessa arte. Sabino orgulhava-se de sua linhagem e defendia a descontraída senhora, que tanto pode ter a brevidade da história curta, como freqüentar os mistérios do conto ou, modernamente, assumir exortações indignadas, contra nosso duro cotidiano de política não-civilizada.

Mas, o que é mesmo a crônica? Um texto que deve ser curto, leve e solto, e que Sabino comparou com as doenças efêmeras – “se não é aguda, é crônica”...

Trata-se, sem dúvida, de um texto “benigno”. Sempre comparei a crônica a um guarda-sol, espécie de oásis onde o leitor se abriga da inclemência do noticiário. Uma pausa para o beduíno beber aquela água fresquinha, escapando da tempestade de areia.

A crônica de jornal, últimamente, precisa ter essa peculiaridade: estar sempre pendurada na janela dos acontecimentos, partilhar com o leitor o “momento” desse “rapaz sem juízo”, o Brasil.

Na verdade, jornalismo e literatura não se estranham tanto quanto sugere a crítica. São fortemente complementares – e uma das melhores definições de jornalismo que conheço é a de Alberto Dines, segundo a qual “jornalismo é a literatura sob pressão”.

Ao que eu acrescentaria: “ E a crônica, é a literatura com pressa”.

***

Drummond, que além de cronista era o poeta que era, certa vez pediu desculpas a um leitor que o acusara de ser “frívolo”:

- É preciso que, em meio a tantos desastres, se tenha certa prática para duas conchinhas na praia, um colibri sugando o pólen, o rebolado de uma corista, um verso que não seja épico, uma citação que não seja pedante...

Um bate-papo simples com o leitor, sobre a vida e o nada.

Deixo aqui minhas desculpas por não ser um Drummond, ou o velho Braga, mas tenho ciência de que nunca desrespeitei essa idosa senhora, a crônica de jornal.

Foi um prazer.

Sergio da Costa Ramos. Um dos mais festejados cronistas do Sul do Brasil.Natural de Florianópolis. Ilhéu, nativo da Ilha de Santa Catarina.É escritor, crítico literário e titular da cadeira 19 da Academia Catarinense de Letras.
Há 28 anos assinava a coluna de crônicas do Diário Catarinense.