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Um punhado de areia nas mãos -- José Manuel Santos Narciso

Um punhado de areia nas mãos --José Manuel Santos Narciso
Um punhado de areia nas mãos

Era uma vez uma filha… Normalmente o prefácio de um livro não tem título. Onésimo Teotónio Almeida deu, porém, título ao prefácio deste Um punhado de Areia nas Mãos. E não precisava escrever mais nada… Era uma vez uma filha é o melhor que se pode dizer de Maria João Ruivo, a autora do livro, filha de Fernando Aires – Era uma vez o Tempo - “que me passou, de todas as formas, a paixão pela escrita”… E o Onésimo justifica: Não é impunemente que se é filha de um escritor que marcou as letras portuguesas com um diário – Era uma vez o Tempo – de uma singularidade exemplar no género. Como pode uma filha que adorava o pai, e se delicia a evocar as memórias dele (…) escapar a este peso, por mais doce que lhe seja? (...) Por todas estas e outras razões, natural será que Fernando Aires esteja presente página sim, página não, entrando e saindo dos parágrafos com a naturalidade da mudança do tempo nos Açores, isto é, a toda a hora e sem causar surpresa.
Um punhado de Areia nas Mãos, com edição de Letras LAVAdas, é o primeiro livro de Maria João Ruivo, é “um livro intimista que reúne memórias e reflexões que abrangem um longo período de tempo, embora, como a própria autora diz, com largas intermitências, porque a escrita de nós não é pacífica e, a par com o encantamento da descoberta, traz muitas dúvidas e angústias, por isso a adiamos tantas vezes”.
A professora Maria João Ruivo, como acima referi, é filha do grande escritor Fernando Aires e, embora este seja o seu primeiro livro, longa já vai a sua experiência de ligação à escrita, com publicações na imprensa e com a coordenação e co-autoria de outras obras, nomeadamente o livro Memórias do nosso Liceu, e o grande projecto que foi reunir num volume o Era uma Vez o Tempo, em trabalho conjunto com Onésimo Almeida e com Leonor Simas Almeida.
Ao ler este Um punhado de Areia nas Mãos senti a emoção de reviver Fernando Aires, mas senti mais ainda a sensação de que nele há um pássaro que se liberta do ninho e trilha caminhos próprios em voos para o desconhecido. Jovem que é Maria João Ruivo, (nasceu logo ali, em 1965) consegue brindar-nos com memórias que são verdadeiros pensamentos, numa linguagem muito própria, muito feminina, mas cheia de vigor criativo que, bastas vezes, nos faz parar, reler e anotar… Lembro-me daquele pedaço deslumbrante de prosa, onde perante sensação da grandeza territorial, Santa Maria é “uma ilha de brincar”… E também me fixei naquela pontinha de filosofia, quando Maria João Ruivo escreve: Durante alguns anos, a vida pareceu-me tão certa e tudo deu ideia de estar no seu devido lugar. Sonhei o futuro como se a vida fosse eterna”…
Sempre me fascinou seguir o ritmo da vida, nas estações, nas festas, nas celebrações e nas emoções familiares. As entradas que Maria João Ruivo vai fazendo, ao longo das mais de 170 páginas do livro, levam-me por esses caminhos de tempo e lugar, Natais saudosos, Santos e Carnaval, Primaveras e Outonos (a estação preferida de Fernando Aires que nele morreu), flores, filhos e pássaros, tudo isto é vida palpitante que escorre deste diário, onde não faltam também os alunos, a irreverência e o outro lado de ser professor(a).
Não me posso esquecer daquela comovente narração do encontro da autora com o seu Pai, nos papéis existentes no Liceu – Escola Secundária Antero de Quental… Mesmo com fotografia, “parecia outra pessoa”, nos dados, nas fichas, nos papéis… Tão diferente daquilo que tinha no coração… “A vida é estranha, de facto. Naquele registo biográfico oficial não encontro o ser de meu Pai. Como direi isto? Aqueles documentos oficiais sobre o percurso profissional dele, não fosse a sua assinatura, poderiam ser de outro indivíduo qualquer. É isso. Ali pouco se encontra da sua essência. Do amor dele peãs pessoas e pelas coisas. (…) Mesmo assim fiquei com um nó na garganta!
Por isso mesmo tão assertivo considero este pensamento de Maria João Ruivo, quando fala do seu avô paterno: “Mesmo as memórias que são só nossas estão povoadas de coisas que ouvimos aos outros, de dizeres de família, que passam de forma quase imperceptível, como as moléculas de ADN”… E ao ler as recordações que a autora acorda, encostada ao avô “tão pequenina que a minha cabeça lhe dava pelos joelhos”, também eu me senti ao colo dos meus que hoje recordo, porque como dizia Fernando Aires , “as pessoas não morrem enquanto os que as amaram se lembrarem delas”…
Como também vivi a experiência da guerra colonial, tocou-me a forma psicologicamente certeira como a Maria João fala do João Pataco que “vive de pão e vinho” e de seu só tem um saco, a muleta e toda uma vida para contar… A mulata a lembrar-lhe o seu cajado de cabreiro: “estive em Moçambique, na guerra do Ultramar”… Uma foto que parecia ferida de feia intromissão em vida sofrida, poderia ser uma forma de eternizar o Pataco numa sala do Centro Cultural… uma homenagem, uma forma de dignificar este homem…
E se me refiro ao João Pataco, uma entrada no livro que já vem de 2008, não esqueço aquela de 2010, um banco, um mendigo e um cão. É tão comum, que só reparei, porque, ao darem-lhe um bocado de bolo, o homem partiu-o exactamente ao meio e partilhou-o com o seu fiel companheiro. Fiquei com lágrimas nos olhos. Não tanto por essa partilha, que não deixa de ser comovente, mas porque ela é a prova da tremenda solidão que faz com que um homem fique com fome, pelas simples razão de que a sua companhia é tão importante como o pão para a boca.
Detenho-me, aqui nestas Leituras do Atlântico, nestes casos que muito me tocaram, para referir que este Um Punhado de Areia nas Mãos, embora sendo um diário intimista, como diz a autora, está cheio de motivos que nos fazem interiorizar sentimentos e vivências que só alguém com apurado sentido de oportunidade e humana sensibilidade capta.
Maria João Ruivo tem uma escrita madura, bonita, leve e cativante, mesmo quando se sente menina insegura: “Pai, agora o nosso encontro é isto. Eu a escrever, seguindo os teus passos, insegura, como quando aprendi a andar e te dava a mão, na certeza de que nunca me deixarias cair”… E, para a mãe, esta dedicatória, sobre a paixão pela escrita que me obrigou a mantê-la, quando me sentia insegura.
Para quem gosta do género literário diarista, um livro a não perder!

Santos Narciso

Publicado,originalmente, na Coluna Leituras do Atlântico de autoria do jornalita Santos Narciso, Jornal Expresso Atlântico.Reproduzido no Comunidades com a devida permissão do autor.