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Victor Rui Dores - Um livro dolorosamente português

" Muitas são, de facto, as potencialidades cinematográficas deste romance e chamo, a propósito, a atenção dos realizadores do meu país. Está cá tudo: aventura, ação, personagens palpitantes, mistério, violência e até uma pitadinha de sexo: ..."

Victor Rui Dores - Um livro dolorosamente português

                                           Um livro dolorosamente português

                                                                                                                                                          Desenganem-se os adeptos da crítica de pendor biografista relativamente ao Livro de Vozes e Sombras (Dom Quixote, 2020), o mais recente romance de João de Melo e seu 30º título entre ficção, poesia, ensaios, crónicas e relatos de viagem. 
 
      Em nota prévia, o autor adverte: "Este não é, nem pretende ser, um romance histórico, e sim uma ficção narrativa e literária (...)". E isto porque, dando conta de alguns acontecimentos relacionados com o nosso passado recente, não há nesta obra uma perspectiva histórica desses acontecimentos, mas a visão de uma realidade ficcionada. Estamos, por conseguinte, perante uma recriação literária.  

      A que acontecimentos reportam o livro? O fim do Estado Novo e o derrube da Ditadura, as mudanças ocorridas em Portugal com o 25 de Abril, a exaltação revolucionária e os conturbados tempos de uma deriva ultra-esquerdista, a inquietação populista do Verão Quente de 75, os entusiásticos anseios dos movimentos do MFA e do PREC, o fim da Guerra Colonial, a instauração da Democracia, o fim de um ciclo colonial, as independências africanas, a Descolonização e o retorno dos portugueses de África, a ação terrorista dos movimentos independentistas da FLA (Frente de Libertação dos Açores) e da FLAMA (Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira), a Guerra Civil em Angola, as novas mitologias históricas, entre outros. 

      Com um título expressivo e plurissignificativo, Livro de Vozes e Sombras, cuja ação se desenrola nos anos 90 do século XX, é um romance de grande desenvoltura e fôlego narrativo, marcado pela polifonia e constituído por seis narrativas que paralelamente se articulam, e um final intitulado "Finisterra". Há, neste livro, um "espírito de lugar", uma atmosfera, um tempo histórico e uma época extraordinariamente bem caracterizados. 

      Porém, todos estes pormenores da exterioridade, do real, do vivido, do conhecido, do documental e do documentado não são possíveis à luz de nenhuma cartografia. É dessa impossibilidade de aferição pelo saber comum que nasce a obra literária. Dito de outra maneira: é desse cruzamento, desse entrelaçamento entre experiências do real e a reelaboração desse mesmo real, entre o histórico e o ficcionado, entre memória e invenção, entre guerras e sonhos, medos e perigos, conquistas e ilusões que João de Melo extrai os seus núcleos míticos. 

      Mas não se busque, nas 373 páginas deste Livro de Vozes e Sombras, uma sucessão linear que deixará com certeza escapar uma das facetas mais aliciantes da arte verbal de João de Melo: a vitalidade, a vibratilidade e a densidade da sua linguagem prodigiosa, dono e senhor que é de notabilíssimos recursos narrativos. E, nesta obra, são diversas e diversificadas as vozes narrativas que flutuam numa impessoalidade omnisciente. 

      Situar João de Melo dentro de cânones estéticos será tão difícil como reduzi-lo a uma cartilha ideológica. E isto porque, neste autor, a arte supera o testemunho. Nele, todo o acto social é um acto de consciência, e toda a tomada de consciência é um acto de responsabilidade social - bem patente, aliás, em toda a sua obra. Cruzando várias gerações, e dando conta de realidades adversas e vontades opostas, as personagens do Livro de Vozes e Sombras, insinuadamente dramáticas e involuntárias, resultam precisamente dessa consciência cívica. Mais importante, porém, do que uma análise referencial das personagens, eventos e circunstâncias, será sem dúvida a avaliação do contributo audacioso que João de Melo presta, com a publicação deste livro, ao romance português.
  
      Enganou-se redondamente Todorov (o formalista russo e meu suado pesadelo na Faculdade de Letras de Lisboa) ao referir que "toda a personagem é um ser de papel". Para mim, a personagem será sempre, e tão-somente, uma criação do autor para lhes insuflar sentimentos, emoções e estados de alma. E, neste Livro de Vozes e Sombras, as personagens criadas por João de Melo dão luzimento à literatura portuguesa, havendo uma que se destaca pela sua riqueza humana e espessura psicológica: Ângela Mendes Pinto, cega de nascença (mas que vê com o coração), educada por freiras, sábia e visionária, mulher de uma extrema sensibilidade. E temos Custódio Pinto, seu pai, homem violento e esquizofrénico, colonialista assumido em Angola, senhor de Munakala, proprietário da casa Grande, da roça de café, de uma extensa fazenda, de manadas e de uma serração, mas que, com a Descolonização, ficará sem nada e acabará internado num manicómio de Lisboa; ele tem como mulher Maria dos Anjos Mendes que, submissa, sofre a violência física e emocional que o marido sobre ela vai exercendo; Mariano Franco, ex-operacional da FLA, descendente de famílias tradicionais de São Miguel, a viver nas Capelas, que conta a sua história a Cláudia Lourenço, jovem e bela jornalista do jornal lisboeta Quotidiano que àquela ilha é enviada para o entrevistar; Manuel Cristóvão, sindicalista, democrata e esquerdista, a viver no Rosário, perseguido e expulso dos Açores pelos capangas de Mariano Franco... 

      O romance evoca as resistências em relação à FLA (muito significativa é a "cena" em que, no Café Milhafre, em Ponta Delgada, um capitão de Abril enfrenta, corajosamente, um grupo de separatistas, "revoltosos tocados a aguardente e cerveja", (p. 266) que se acobardam, bem como as resiliências dos retornados (em rigor, refugiados) de Angola, numa inquietante busca de novas formas de encarar o futuro. 

      João de Melo, recorrendo a uma extraordinária pormenorização, a uma linguagem densa de valores poéticos, à elaboração de uma atmosfera mágica, à utilização de uma imagística sedutora e de um ritmo original, dá-nos um belíssimo retrato sobre "angústias e incertezas da alma" (pág. 249), isto é, sobre a condição humana. Leia-se, a propósito, o capítulo "Uma cortina sobre África" e aprecie-se a sua beleza e riqueza literária. Admiráveis narrativas: as pilhagens de negros sobre os bens dos brancos; as vacas de Custódio barbaramente mortas a golpes de catanas por bandos de negros; e é Custódio que, expulso do seu lugar e espoliado e despojado das suas riquezas, lança fogo à sua própria casa (qual outro indignado Manuel de Sousa de Frei luís de Sousa, de Garrett), fugindo para o aeroporto de Nova Roma; o adeus a África e a debandada trágica dos retornados para o Aeroporto em busca de lugares nos aviões que faziam a ponte aérea com Lisboa; a estranheza da sua chegada e a maneira como, entre medos e angústias, esperanças e desilusões, verdades e mentiras, vão viver uma nova realidade em Portugal, reinventando-se. 

      "Um livro feito de regressos num país de partidas históricas", assim definiu João de Melo este seu romance em entrevista ao "JL". Acima de tudo, o autor lança olhares muito atentos sobre os acontecimentos vividos nos Açores no pós 25 de Abril de 1974 (impressionante a descrição da grande manifestação de 6 de Junho de 1975 ocorrida em Ponta Delgada) e, algo sem precedentes na ficção narrativa, dá-nos um notável retrato dos conluios e sobressaltos do movimento separatista da FLA na ilha de São Miguel e o modus operandi dos seus operacionais. 

      É de antologia (e cinematográfico) o rapto do sindicalista Manuel Cristóvão: espancado em plena rua de Ponta Delgada por separatistas embuçados, é atado de pés e mãos com uma mordaça na boca e colocado na bagageira de uma viatura, conduzido para lugar incerto e, no dia seguinte, deportado, à força, para Lisboa... 

      As feridas de Manuel continuam por cicatrizar e são, simbolicamente, a dor de um tempo português em que o medo, a crueldade e a intolerância foram postos ao serviço dos mecanismos repressivos do Estado Novo. A contas com uma estúpida e inútil guerra (1961-1974) que constituiu uma das mais trágicas encruzilhadas da nossa História, Portugal, "país uno e indivisível", chegou tarde ao 25 de Abril, pois que durante meio século de ditadura foi um país analfabeto e subdesenvolvido, vivendo (entre parêntesis e a preto e branco) o seu ruralismo agrário, o seu conservadorismo bacoco...  

      Muitas são, de facto, as potencialidades cinematográficas deste romance e chamo, a propósito, a atenção dos realizadores do meu país. Está cá tudo: aventura, ação, personagens palpitantes, mistério, violência e até uma pitadinha de sexo: a magistral descrição do acto sexual praticado, num quarto de hotel, pela jornalista Cláudia Lourenço e por Gil (correspondente do jornal Quotidiano nos Açores) em noite de copos e epifania... 

      Desligado do circunstancionalismo das modas e dos grupos literários, João de Melo é, em definitivo, ele e os seus livros - todos de elevadíssima qualidade. Este Livro de Vozes e Sombras é mais um que passa a constituir importante marco na literatura de expressão portuguesa. Por isso mesmo saúdo a grandeza literária, estética e humana desta obra.
                                                                                                                                                                                                                                                  Horta, 09/07/2020
                                                                                                                    
                                                                                              Victor Rui Dores