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A Graciosa e seus problemas

Artigo de opinião de Aristides Silva

A Graciosa e seus problemas

Quem sai do porto da Praia da Graciosa em direcção a Santa Cruz, encontra logo no lado direito da estrada, um enorme cartaz, aconselhando as pessoas a beberem água da torneira.

Acredito que em Angra do Heroísmo, talvez se justifique tal cartaz, mas na Praia da Vitória, por exemplo, a água é absolutamente intragável. Colar tal cartaz na Graciosa é um «crime», porque a água que sai das torneiras, até pode obedecer a quase todos os parâmetros exigidos pela lei, menos a salinidade, que de certeza absoluta, ultrapassa todos os limites legais.

Há mais de vinte anos, num artigo que escrevi e publiquei sobre a Graciosa; nessa altura já chamava a atenção para a hipótese de o problema ser resolvido com dessalinizadoras; como há muito já acontece em Cabo Verde. Entretanto a Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa, já mudou não sei quantas vezes de vereadores, e até de partido, e a politica acéfala continua a mesma. Parece que há falta de imaginação e racionalidade. Depois disso, já quantos milhões foram gastos, em obras de fachada?

A água na Graciosa é um problema grave, secular e gritante de saúde pública. Será que ninguém com responsabilidade política na ilha e nos Açores, «descobriu» este problema? Porque é que o município, não contrata uma empresa, ou até várias, especializadas na matéria, para estudarem as soluções? Pelo menos informem-se com os caboverdianos. É aproveitar enquanto há fundos comunitários; porque se trata de um problema prioritário, que terá certamente bom financiamento. Não vale a pena tentar esconder o assunto com análises duvidosas, antes pelo contrário, o que se deve fazer é contratar laboratório credenciado, que faça uma recolha da água das torneiras, em diversos pontos da ilha, isto é, conseguir uma amostra representativa, obedecendo a critérios ciêntificos, que dê credibilidade ao projecto a apresentar à UE.

Outro assunto importante; as estradas na Graciosa têm pisos lastimáveis, cheias de buracos nas zonas habitadas. Nas zonas rurais, poucas casas terão o «privilégio» de não possuírem um remendo à sua porta. Cada vez que rebenta uma conduta de água , e são muito frequentes e repetidas , lá vão os funcionários dos serviços municipalizados, cortar o alcatrão para consertar as canalizações. Depois os remendos, como não devem ser bem compactados, vão baixando, baixando e nunca mais são reparados. Resultado, os buracos nunca mais acabam. Curiosamente em nenhuma outra ilha dos Açores vi coisa semelhante.

Não existem para a Graciosa, transportes marítimos de carga e passageiros durante o inverno; apenas só de carga. As ilhas do triângulo há muito que têm o seu problema resolvido, a Graciosa é que continua sem ligações marítimas durante o inverno.

Na freguesia do Guadalupe, na Canada do Poço, existe um furo onde se pode extrair água a mais de 40 graus de temperatura. Será que com esta água, não se poderia fazer de inverno, em estufas, certas culturas próprias de outras estações do ano? Porque é que a Universidade dos Açores, aproveitando esta água, não cria ali um campo experimental? A extensão e qualidade dos terrenos daquela planície, bem o justificavam.

Ainda na freguesia do Guadalupe, na Beira-Mar da Vitória, há um espaço, entre a ermida de Nossa Senhora e os Poceirões, onde antigamente existiam diversas eiras , e se debulhava o trigo produzido na ilha. Algumas destas eiras ainda são visíveis e a junta de freguesia já recuperou duas, mas ainda faltam mais umas seis ou sete. Agora que está na moda os trilhos pedestres, porque não aproveitar aquela zona, até ao Afonso do Porto, sempre à beira mar, desaguando na característica e linda baía? Algumas das eiras já foram invadidas pelos salgueiros, mas ainda são visíveis. Antigamente tinham donos, mas hoje em dia, todas elas estão abrangidas pela orla marítima e portanto propriedade do Estado. Poderia intitular-se o « trilho das eiras» com algumas indicações da sua história e enquadramento.

A zona balnear dos Poceirões, tem sido melhorada pela junta de freguesia, sobretudo a parte do merendário e arredores. Mas as piscinas, sobretudo o poceirão de baixo, sem uma intervenção séria, nunca terá um aproveitamento integral do espaço; e é pena porque na ilha, há poucos lugares com aquelas características. Se fosse noutra ilha dos Açores, há que tempo aquela zona balnear já teria sido optimizada! 




* Texto publicado no Jornal "Diário Insular" e enviado pelo autor.