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Ainda sou do tempo em que…

Crónica de Victor Rui Dores

Ainda sou do tempo em que…


… o silêncio era de ouro e a palavra de prata… 

… consumíamos fotonovelas e radionovelas… 

… escrevíamos cartas e postais… 

… não havia televisão, nem computadores, nem telemóveis, nem inteligência artificial, mas tínhamos a capacidade de pedir um pé de salsa à vizinha… 

… pedíamos a bênção aos pais, tios e padrinhos… 

… as crianças brincavam com papagaios de papel…. 

… a heroína era apenas o feminino de herói… 

… ninguém chegava a mestre sem primeiro ter sido aluno… 

… o ar era incondicionado... 

… os animais mereciam tratamento humano... 

… a medida do amor era amar sem medida… 

… só havia dois sexos... 

… as mulheres seduzidas eram sempre sedutoras... 

… o mundo era apenas um paiol de pólvora... 

… a vida imitava a arte… 

… usávamos o cabelo comprido e vestíamos camisas apertadas e calças à boca de sino… 

… o rico gozava e o pobre procriava... 

… desconhecíamos as metas de Abril… 

… havia jornais matutinos e vespertinos… 

… a manteiga era caseira e vendida a peso… 

… um ás valia mais do que um rei… 

… falávamos da idiotice humana sem que houvesse Donald Trump … * 

… enfiávamos o dedo mindinho na cloaca das galinhas para saber com quantos ovos a família podia contar no dia seguinte. Por isso aprendia-se, na prática, o que era “contar com o ovo no cu da galinha”… 

… pensávamos que, sendo a Terra redonda, então do outro lado do mundo vivia-se de cabeça para baixo… 





… os trabalhadores ganhavam cada vez menos para produzir coisas que custavam cada vez mais… 

… havia, na Rua da Miragaia, os facínoras da PIDE… 

… era preciso licença para utilizar um isqueiro… 

… uma arroba não era@-, mas sim uma medida de peso… 

… o futebol não era o ópio do povo… 

… não fazíamos o melhor; mas fazíamos tudo para que o melhor fosse feito… 

… não tínhamos tudo quanto queríamos, mas tínhamos tudo o que precisávamos… 

… o dinheiro não trazia felicidade mas acalmava os nervos… 

… os sineiros é que puxavam os badalos dos sinos das igrejas… 

… dormíamos em colchões de folha de milho… 

… recebíamos aquilo que dávamos… 

… havia a “Farinha 33”, a cerveja “Cuca” e os cigarros “Santa Justa”… 

… sim, sou do tempo em que os relógios ainda tinham ponteiros… 














Victor Rui Dores