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Apelidos estrangeiros nos Açores

Crónica de Victor Rui Dores

Apelidos estrangeiros nos Açores


Os Açores são de Portugal e a sua cultura é inseparável e indissociável de dois milénios e meio de civilização europeia, nove séculos de história portuguesa e mais de cinco séculos de vivências nestas ilhas. Mas a verdade é que passado todo este tempo, e como muito bem lembra Pedro da Silveira, “o açoriano já não é mais o minhoto ou o alentejano que para cá veio nas naus do povoamento. Não é mais o berbere ou o flamengo – é sim a mistura do fidalgo lusitano com o escravo moiro; do judeu tornado cristão-novo com o artesão da Flandres; do espanhol conquistador com o aventureiro sem eira nem beira e, também, o descendente acidental do corsário inglês ou argelino”. (1) 

E é dentro desta variedade que, nos dias que correm, alguns dos nossos conterrâneos ostentam apelidos estrangeiros que nos Açores vão perdurando, e cuja origem nos remete para famílias que, entre os séculos XV e XIX, se instalaram no arquipélago. Esses estrangeiros chegaram cá movidos por interesses diversos e diversificados: comércio, negócios, exportação, trabalho diplomático, exploração científica, curiosidade cultural, ou um simples desejo de iniciar nova vida no meio do Atlântico. 


Os contributos e influências destas famílias estrangeiras foram determinantes em termos do desenvolvimento económico, social e cultural dos Açores. Recordemos alguns dos referidos apelidos: 

De origem árabe: Aica

De origem flamenga: Dutra (aportuguesamento de van der Hurtere), Goulart (Govaert, que deu Gularte, presentemente afrancesado em Goulart, não se sabe por que razão), Brum (van der Bruyn), Silveira (van der Haegen), Terra (van Aaard, ou Aertrycke), Bulcão (van Bulscam, ou Bulscamp), Rosa (van der Roose), Armas (Herman), Decq e Bruges (van der Brugge). 

De origem espanhola: Noronha, Ortins, Cimbron, Pizarro, entre outros. 

De origem francesa: Bettencourt, Fournier, Sieuve, Labat, Labiscat, Férin, Guiod, Berquó, François, Lecoq, entre outros. 

De origem italiana: Monjardino, Fuschini, Bianchi, Braia

De origem americana: Hickling, Anglin. (Apesar de ter vivido durante praticamente todo o século XIX no Faial, a família Dabney não deixou descendência nesta ilha). 

De origem inglesa: Paim, Canto, Blayer, Read, Whyton, Fischer, Mallory, Greaves, Houghton, Perry, Street, Riggs, entre outros. 

De origem escocesa: Drummond, MacKay, Curry, Morisson

De origem irlandesa: Dart

De origem holandesa: Korth

De origem hebraica: Bensaúde (aportuguesamento de Ben Saúd) e Benarús

De origem alemã: Killberg, Kopke, Stattmiller, Grötzner, Böwe, Corsepius, Schröder, Schultz. Com excepção dos dois primeiros, os restantes são apelidos de descendentes de cabografistas da “Deutsche Atlantische Telegraphengesellschaft”, a Companhia Alemã dos Cabos Telegráficos Submarinos, instalada na cidade da Horta entre 1893 e 1943, com interrupção de cerca de 10 anos, durante a primeira Guerra Mundial até 1924 e, posteriormente, até 1945. (Recorde-se que, durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães tiveram que abandonar a ilha do Faial, tendo sido enviados, sob prisão, para o “Campo de Concentrados”, na Fortaleza de São João Baptista, ilha Terceira; a mesma situação verificar-se-ia em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, mas desta vez os operadores alemães viajaram, sob, prisão, para a ilha de São Miguel). 

Mais recentemente, e fruto da globalização, outros apelidos estrangeiros já fazem parte da onomástica açoriana. Prova provada que, também nesta área, temos mais variedade do que unidade. E isso enriquece-nos enquanto povo insular. 



(1) Prefácio à Antologia de Poesia Açoriana (do século XVII a 1975), ed. Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1977.








Victor Rui Dores