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Arqueologia da Atlântida, um poderoso ensaio de José Luís Neto

Crónica de Victor Rui Dores

Arqueologia da Atlântida, um poderoso ensaio de José Luís Neto


Arqueologia da Atlântida, 

 
um poderoso ensaio de José Luís Neto



“A arqueologia, pelo menos como eu a vejo, não é trabalho de autor. Só há dois tipos de arqueólogos, os que o são e os que não o são, ou seja, os que aplicam os métodos e as técnicas científicas, delas tendo domínio suficiente para as empregar nos distintos contextos com que se confrontam, e há aqueles outros que não dominam os métodos e as técnicas científicas.” 

José Luís Neto, Arqueologia da Atlântida, pág. 141/142. 


De que falamos nós quando falamos da Atlântida

Lenda há muitos séculos inventada, há quem (ainda) acredite na existência da Atlântida. A sua suposta localização no Oceano Atlântico, entre a Europa e a América, leva alguns pesquisadores a apontar o arquipélago dos Açores como o território que resta desse suposto continente perdido. 

Segundo Platão, em Diálogos (sobretudo Timeu e Crítias), os “atlantes”, habitantes da Atlântida, eram senhores de uma invejável civilização considerada perfeita e rica. Exemplares no seu comportamento, eles não se deixavam corromper nem pelo vício nem pelo luxo. Porém não descuidavam a prática e o treino das artes de guerra, dada a tentativa de invasão de vários povos que, movidos pela inveja da vida atlante, tentavam invadir a sua terra. Os sucessos dos combates de defesa, levaram-nos ao orgulho e à ambição de alargar os domínios da tão bem-sucedida Atlântida. 

Assim o poderoso exército atlante preparou-se para a guerra e, aos poucos, foi conquistando grande parte do mundo, dominando vários povos e várias ilhas em seu redor, uma grande parte da Europa Atlântica e parte do Norte de África. E só não teriam conquistado mais territórios porque os gregos de Atenas teriam resistido. Os seus corações até ali puros foram endurecendo com as suas armas. Nasceu nos seus governantes o orgulho, a vaidade, o luxo desnecessário, a corrupção e o desrespeito para com os deuses. 

Perante tal cenário, foi convocado um concílio dos deuses para pôr fim a tais exageros. No mesmo foi decidido aplicar aos “atlantes” um castigo exemplar. Foi então que sucederam grandes movimentos tectónicos acompanhados de enormes tremores de terra. A Atlântida tremeu violentamente, o céu enegreceu fazendo-se noite e o fogo expelido das crateras queimou florestas e campos de cultivo. O mar galgou a terra e ondas gigantes engoliram aldeias e cidades. 

Num ápice, a Atlântida desapareceu na imensidão do Oceano. Começa aqui o mito da “Cidade Desaparecida”. Ainda segundo a lenda, a Atlântida fora possuidora de grandes e altas montanhas cujos cumes ficavam acima da superfície do mar, originando, segundo alguns (sobretudo Athanasius Kircher, jesuíta alemão do século XVIII), as nove ilhas dos Açores. 

Sem evidência científica que nos valha, continuamos alegremente a manter o mito da Atlântida. Porque, em tempo de globalização e massificação, a verdade é que o fantástico nos faz bem, sendo certo que precisamos do mito como do pão para a boca… 




Vem tudo isto a propósito do livro Arqueologia da Atlântida (Instituto Açoriano de Cultura, 2022), notável ensaio da autoria de José Luís Neto, doutorado em arqueologia, autor de uma dezena de livros da especialidade e atual diretor do Museu da Horta. 

Bem documentado, informado e ancorado em vastíssimas referências bibliográficas, com capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, o autor dá tratamento criterioso e meticuloso ao que escreve, cruzando teses e hipóteses interpretativas desde a Antiguidade até aos nossos dias. E avança com um conjunto de subsídios, mostrando e demonstrando que “os mitos, as teorias, as fantasias e as ciências, embora excludentes na aparência, constituem um riquíssimo filão cultural e mental, que ainda hoje se reflete na forma como nos vemos” (pg. 180) . 

A Atlântida continua a ser um mito agregador em que se confunde História com imaginação, ciência com inventividade, verdade com ilusão, arqueologia com teologia... Abundam diversas e diversificadas teorias que José Luís Neto, pondo “os pontos nos Is”, vai (d)escrevendo com sentido crítico e não pouca ironia. No caso dos Açores: achados pré-portugueses nestas ilhas? Monumentos megalíticos na Terceira? Uma estátua de cavaleiro que, na ilha do Corvo, apontava para poente (segundo narração de Damião de Góis), ou uma simples ilusão de ótica? Hipogeus, ou construções escavadas na terra para abrigos de animais? Confusão de sepulturas fenícias com simples formações geológicas? Columbários romanos, ou simples pombais seiscentistas ou setecentistas? 

Tudo, neste ensaio, é evocado e convocado: do Egipto à Grécia Clássica; da Atlântida, de Platão, à Antília e a velhas lendas portuguesas; dos impérios da Antiguidade ao sonho do Quinto Império (Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Natália Correia ou António Quadros); da velha Atenas ao Espigão/Grota do Medo, na Terceira; de Darwin a Francisco de Arruda Furtado, passando por investigadores com raciocínios complexos, mas fascinantes (Antonieta Costa ou Félix Rodrigues), até às inusitadas e delirantes teorias de Nuno Ribeiro ou Fernanda Durão Ferreira... 

Partir para pesquisas com ideias pré-concebidas pode ter efeitos nefastos, conforme tem acontecido nos Açores, sobretudo desde 2004. É preferível ir ao campo confirmar teorias, do que, ao invés, construir teorias a partir da investigação de campo. Não é por terem sido encontradas, na ilha do Corvo (século XVIII), moedas fenícias ou cartaginesas que se poderá concluir que os fenícios ou cartagineses se estabeleceram na ilha do Corvo. Possivelmente um qualquer navio púnico poderá ter sido arrastado pelos ventos atlânticos até às costas do Corvo e aí ter naufragado, conforme deixou escrito o insuspeito tenente-coronel José Agostinho. Em matéria de arqueologia nos Açores (quer a marítima quer a terrestre, de cuja evolução José Luís Neto nos dá um assinalável retrato), alguns estudos revelaram-se infrutíferos e inconclusivos, sendo de realçar que alegadas descobertas e alegados achados (“artefactos e objetos”) não têm, segundo especialistas de reconhecida competência, datações anteriores ao povoamento quatrocentista dos Açores. 

Pois então que se procedam a mais investigações. 




Victor Rui Dores