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Das desditas de D. Afonso VI

Crónica de Victor Rui Dores

Das desditas de D. Afonso VI


É bem conhecido o verso do Canto III de Os Lusíadas que assim reza: “Que fraco Rei faz fraca a forte gente”. Camões referia-se a D. Fernando I, rei que teve o cognome de “o inconstante”… Este verso camoniano pode perfeitamente aplicar-se a D. Afonso VI, pois rezam as crónicas de que também ele foi “fraco Rei” e homem frouxo... 

Atacado na infância por doença não identificada, Afonso fica mental e fisicamente diminuído para o resto da vida. Com a morte de seu irmão, Teodósio, sucede a seu pai, D. João IV, subindo ao poder com apenas 13 anos de idade. Dada a menoridade, é sua mãe, D. Luísa de Gusmão, que fica a exercer o cargo de regente do reino. 

O príncipe Afonso cresce, desajeitado, impulsivo, rebelde, inconstante e dissoluto. Recusa receber instrução de letras e humanidades e, em vez disso, lida toiros e entrega-se a desacatos e a arruaças, com amigos pouco recomendáveis (“os valentes do rei”), mostrando apenas interesse por montarias, caçadas e cavalgadas, ante a crescente preocupação de D. Luísa de Gusmão que o quer ver afastado de más companhias, uma das quais é o genovês Antonio Conti, confidente e conselheiro de Afonso. 

Após uma série de golpes palacianos e de outras conspirações, levados a cabo pelo conde Castelo Melhor, D. Luísa de Gusmão (a quem se atribui a máxima: “Mais vale ser rainha uma hora que duquesa toda a vida”) é encarcerada, à contre coeur, num convento. Mal assessorado (como hoje se diria), Afonso toma conta do poder aos 19 anos de idade. Misógino e pouco afeito aos “jogos de Vénus”, é pressionado a contrair matrimónio por motivos de Estado (que se prendem com o estabelecimento de alianças com França). Uma comitiva diplomática vai a França e arranja noiva a el-rei. A escolhida é “mademoiselle D´Aumale”, a francesa Maria Francisca Isabel de Sabóia. Chega a Portugal em festa e o casamento realiza-se com grande pompa e circunstância. Mas o resultado é desastroso, pois o rei é “inábil e impotente”, nas palavras da própria esposa Maria Francisca (então com 20 anos de idade e no esplendor da sua beleza) e, em surdina, é declarada a incapacidade de Afonso VI para gerar descendência à Casa de Bragança, factor de instabilidade para o reino. 

Com o fundamento de que o monarca é impotente em matéria amorosa e inapto para desempenhar as altas funções do reino, é organizada uma conspiração contra ele, dirigida por seu irmão, o infante D. Pedro, futuro D. Pedro II. Nesta conspiração toma parte ativa Maria Francisca, que ao corpo bamboleante de Afonso VI prefere o assédio e as “investidas lascivas” de D. Pedro, por quem se toma de amores. É também ela que consegue afastar do Paço o conde de Castelo Melhor, o secretário de estado que detinha imenso poder e manietava el-rei D. Afonso. Este, vendo-se sem apoiantes, isolado, abandonado e aprisionado na sua solidão, é obrigado a abdicar e é destituído o trono. 




Dias antes, nesse ano de 1668, haviam sido chamadas testemunhas ao paço do arcebispo de Lisboa para depor, em audiências públicas, sobre a incapacidade sexual de el-rei D. Afonso. Em causa estava o pedido de anulação de casamento, feito por Maria Francisca de Sabóia. O caso foi julgado por um tribunal eclesiástico nomeado pelo cabido da Sé de Lisboa. Entre as primeiras testemunhas sobressaíram algumas mulheres com quem o monarca alegadamente tinha tentado envolver-se. Com a mão direita em cima dos evangelhos, e não poupando os mais íntimos pormenores, foram elas unânimes em confirmar a “impotência do rei”. (Recomendo, a propósito, a leitura do livro Causa de Nulidade de Matrimónio entre a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya e o rei D. Afonso VI (Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925). 

Os médicos da corte atribuíram a frouxidão do monarca a um acidente que ele havia sofrido aos 3 anos de idade e que quase lhe paralisara o lado direito do corpo. Por isso ele não conseguia ter desempenho sexual, sendo “incapaz de desflorar mulher donzela” e também incapaz “de penetrar mulheres corruptas”. Um cirurgião aponta uma outra causa: quando adolescente, o rei gostava de andar à pedrada, à paulada e à espadeirada na rua, e aconteceu que, um dia, três homens, com uma espada, feriram-no gravemente nas “partes” (genitais). Tal circunstância teria deixado o monarca “sem atividade para a erecção do membro viril”. 

É uma delícia ler os pareceres técnicos dos médicos sobre questões de sexualidade e reprodução, à luz do conhecimento e da linguagem do século XVII. Estamos a falar de um tempo em que a medicina era uma ciência incerta, e em que os médicos faziam por curar as enfermidades recorrendo a sangrias, purgas, ventosas e sanguessugas, mezinhas, bálsamos, unguentos, destilações, bons ares e banhos termais (especialmente recomendáveis eram os das Caldas da Rainha…). 

Moral da história: o libelo da rainha Maria Francisca resultou na perfeição, tendo ela e D. Pedro obtido o que queriam: a nulidade do casamento com D. Afonso VI já que nunca chegou a ser consumado. (Convém lembrar que, nos tempos que correm, a impotência do noivo continua a poder ser motivo para a anulação do casamento…). 

Dando seguimento a uma estratégia maquiavelicamente muito bem montada, D. Pedro toma as rédeas do poder e, uma vez obtida a aprovação da Santa Sé e das Cortes, casa com a própria cunhada Maria Francisca, e ordena que Afonso VI seja degredado para bem longo do Paço. E para bem longe foi parar o desafortunado rei, pois em 1669 é exilado na ilha Terceira, vivendo, durante cinco anos, encarcerado na hoje Fortaleza de São João Baptista no Monte Brasil, cidade de Angra (que só será “do Heroísmo” no século XIX, com o triunfo do liberalismo). 

O rei deposto regressará em 1674 a Lisboa, onde viverá, detido, no Palácio de Sintra até à sua morte, em 1683. Que fim mais inglório para um rei a quem foi dado o cognome de “o vitorioso”, devido às vitórias alcançadas na Guerra da Restauração, obviamente que não por mérito dele, mas dos seus generais. 

As intrigas políticas, a sede e o exercício do poder, as lealdades e as traições, as insatisfações e os desagravos, os azedumes e os ódios não são coisas exclusivas dos nossos dias agitados…




Victor Rui Dores