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Das nossas filarmónicas

Crónica de Victor Rui Dores

Das nossas filarmónicas

 

“As Filarmónicas são os Conservatórios do povo”, escreveu Camilo Castelo Branco no seu livro Sinos de aldeia. Nos Açores, cada freguesia, cada vila, cada cidade sente orgulho na sua filarmónica – porque se sente por ela representada e identificada. Isto significa que as Filarmónicas estão indissociavelmente ligadas à história cultural, social e religiosa do povo açoriano. E constituem um dos patrimónios mais ricos que urge apoiar, acarinhar e preservar.

De resto, não é segredo para ninguém que os açorianos são bastante musicais. Segundo dados fornecidos pela Direcção Regional da Cultura, 15% da população açoriana canta e toca música em público e para o público. E isto fica a dever-se sobretudo àquelas que são as duas mais importantes escolas de formação musical dos Açores: as Filarmónicas (são 101 as que atualmente estão em atividade, muitas delas centenárias) e os Grupos Corais (as “capelas”).

Tocar numa banda é um acto eminentemente social. Uma filarmónica é, por excelência, não só um espaço de aprendizagem mas também local de convívio, de partilha de experiências, de tertúlia e de afectos. E quando, por vezes, não reina a harmonia, a filarmónica é também um espaço de apaziguamento de conflitos… Por outro lado, as filarmónicas possuem uma função integradora, pois que promovem os bons princípios da amizade, da solidariedade e de um verdadeiro espírito de corpo e de lugar.

 

 

De salientar o facto de a Igreja Católica ter, desde o século XIX, apoiado as Filarmónicas de forma assumida e decidida. E isto é importante dado o peso da religiosidade nas nossas comunidades: somos muito marcados pela festa profana e pela festa religiosa, pela tristeza e pela alegria. E as nossas filarmónicas servem – e bem – estes estados de espírito.

A base de sustentação das Filarmónicas açorianas passa muito por aquilo a que eu tenho vindo a chamar de clãs familiares, que vão transmitindo, ao longo de gerações, esta tradição e esta herança cultural. Esses clãs familiares são a base de sustentação das filarmónicas e constituem, por assim dizer, o “núcleo duro” das mesmas. E estou aqui a falar de uma tradição que se renova, já que os filhos vão seguindo as pisadas dos pais.

É esta mística que faz com que os nossos filarmónicos vistam a farda em Maio e só a dispam no mês de Outubro. Durante esse tempo eles acompanham procissões, tocam nos arraiais, animam as festas profanas e religiosas. E são muito mal pagos. Porque obviamente o dinheiro vai todo para a equipa de futebol do Santa Clara, onde curiosamente joga um único açoriano…

O poder instituído afirma que somos um arquipélago de cultura, mas, curiosamente, temos, ao longo do ano, várias galas de desporto e nenhuma de cultura... Não é estranho?

“Quem não sabe arte, não n´a estima”, escreveu Camões. É preciso valorizar o que é nosso e acabar com essa ideia peregrina de que o que vem de fora é que é bom. Há que encetar uma guerra total àquilo a que eu já chamei de tirania da indiferença. Quantas e quantas vezes estão as nossas filarmónicas a dar o melhor de si perante a floresta de alheamento do público e sem a merecida recompensa de um aplauso?

Por conseguinte, acarinhemos, respeitemos e amemos as nossas filarmónicas. Porque elas constituem as grandes escolas de música do nosso povo. E porque são mais do que escolas de música – são escolas de vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

Victor Rui Dores