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Digitais fotógrafos

Crónica de Victor Rui Dores

Digitais fotógrafos
         

                                    ao José Nascimento Fernandes Ávila 



Existem dois tipos de fotografias: as boas e as outras… 

Tirar uma foto é fixar o tempo e o espaço de um instante, é captar aquele momento que é único e irrepetível. Mas para que essa foto tenha qualidade, é preciso sensibilidade artística e é necessário conhecimento técnico. Por exemplo, a focagem, o enquadramento, a composição de imagem e… só depois disparar. Assim me ensinou o Mário Duarte num curso de fotografia promovido pelo FAOJ nos idos anos 70 do século passado, ou seja, na era da tecnologia analógica. 

Por conseguinte, sou do tempo da fotografia captada em modo manual. E confesso que vivi momentos de felicidade quando, adolescente, andava de câmara em punho, olho atento e dedo ligado ao disparador. Angra do Heroísmo ensinou-me a ver e não a olhar. Para mim, fotografar era um acto muito pessoal e solitário, quase uma forma de meditação. As imagens que então captei são uma espécie de arqueologia de um tempo. Guardo as melhores lembranças de me ver no escuro do laboratório, apenas iluminado com uma luz vermelha, a revelar as minhas próprias fotografias, e a assistir à magia da imagem a surgir no papel mergulhado em sais. Ora, a tecnologia do digital acabou com esta magia… 

A vida não corre fácil para os fotógrafos profissionais que levam com a concorrência de todos nós, munidos que andamos de muitas e desvairadas câmaras digitais. Na fotografia cresce o número de amadores, e amadores no pior sentido da palavra, porque falta quase sempre qualidade técnica às fotos que eles vão tirando em catadupas em tudo o que é festa e acontecimento social. A massificação e a globalização deu nisto. A fotografia é, hoje, uma arte desgastada, toda a gente fotografa toda a gente com os telemóveis, com os computadores, com os tablets… E o resultado são milhões de imagens tenebrosas, flashes desastrosos que esmagam os rostos que deveriam realçar, lamentáveis contraluzes... Irrita-me profundamente essa mania das selfies, isto é, da auto-imagem, da auto-exibição (narcisismo), desse poder de exercer o eu… Convenhamos: sendo uma coisa tosca, uma selfie é sempre uma má foto… Nela, por falta da distância adequada, fica-se quase sempre com cara de boi: o rosto mais alongado e menos favorecido… Na época do analógico tínhamos muito mais cuidado, até porque os rolos eram caros e as revelações não eram baratas… 





O meu amigo José Nascimento Fernandes Ávila, fotógrafo graciosense de primeiríssima água e para quem “tirar uma boa foto é transmitir um sentimento”, alerta-me para o perigo de, a médio e longo prazo, ficarmos sem memória fotográfica. É que, com tanta tecnologia digital, as pessoas não guardam os arquivos, não fazem cópias de segurança, os telemóveis avariam, o disco externo do computador vai à vida e, de um momento para o outro, as milhentas fotografias ali acumuladas desaparecem num ápice… E já começamos a ouvir coisas como: “Tirei tantas fotografias e hoje não tenho nada”… 

De uma coisa tenho eu a certeza: há imagens que duram, em suporte de papel, há 178 anos, que é a idade histórica da fotografia. Pergunto: qual será a longevidade de uma foto digital?













Victor Rui Dores