Graciosa Online

Do clero e do meu assomo de vocação sacerdotal

Crónica de Victor Rui Dores

Do clero e do meu assomo de vocação sacerdotal


Do clero 
e do meu assomo de vocação sacerdotal 



“ (…) sem exagero me parece que metade da Graciosa era povoada de frades e que a outra metade lhe devia pertencer por ternos laços.”                                                                   
                                                           Chateaubriand, Memóires d´Outre-Tombe (1849) 


A estrutura moral dos açorianos deve muito ao clero. Basta lembrara que, até meados do século XIX, toda a cultura dos Açores e nos Açores, estava praticamente nas mãos dos padres. Bem vistas as coisas, quem trouxe a cultura para estas ilhas não foram os marinheiros do povoamento (que não sabiam ler), nem foram os nobres (que eram iletrados). Em meados do século XV a cultura foi trazida para estas ilhas por elementos do clero. Primeiro com os frades franciscanos e carmelitas e, mais tarde, com os jesuítas e capuchinhos que deixaram marcas, sobretudo a nível da religião e da instrução. 

A partir dos finais do século XIX, e durante todo o século XX, temos o padre que, a par do professor primário, nos deixaram contributos decisivos para a alfabetização e para o desenvolvimento cultural das nossas gentes. Padres e professores estão na origem da fundação e criação de jornais, filarmónicas, grupos corais, ranchos folclóricos, grupos de teatro, tunas, agremiações desportivas e até atividades científicas. 

A religião católica impôs aos açorianos o pecado, a vergonha, a culpa, e ensinou-nos a amar o próximo, a ajudar os outros, a ser complacentes, compassivos e misericordiosos. Deste modo, os açorianos foram educados na honra, no crédito, no respeito pelas autoridades. Aprenderam a ser francos, laboriosos, hospitaleiros, fortes e resolutos. Proibiram-nos de ser egoístas, logo o outro tem peso, não nos é indiferente. Até porque vivemos em meios pequenos, o que permite um maior conhecimento e uma ligação mais próxima entre as populações. 

Também eu fui educado numa família de funda tradição católica e, antes de aprender a ler, já sabia dizer de cor a “Avé-Maria”, o “Credo”, o “Pai Nosso” e o “Ato de Contrição”. Por conseguinte, chego à poesia através da oração, numa altura em que a espiritualidade se misturava com algumas formas de expressão artística. 

Para justificar, permitam-me que avance com alguns exemplos familiares: a minha avó materna, Rosalina dos Prazeres Ramalho Ávila, foi organista de excelência na freguesia da Luz, tendo tocado, com apenas 8 anos de idade, a sua primeira missa cantada. O marido dela, José Correia de Ávila (conhecido por Manuel Sacristão) foi um barítono estimado. Meu tio Napoleão de Castro Bettencourt de Avila liderou uma comissão, constituída por emigrantes graciosenses no Brasil, que conseguiu angariar os fundos necessários para adquirir, em Braga, a imagem de São José, imagem de um realismo impressionante e que pode ser apreciada num dos altares da igreja da Luz. Minha mãe, Judite, foi, durante largos anos, coralista e, mais tarde, organista titular da Matriz de Santa Cruz, tendo ainda ensinado piano, durante décadas, a muitas meninas prendadas da vila. Eu e os meus irmãos passámos horas e horas no Coro Alto daquela igreja, em ensaios e missas, a “dar o fole” (ao pé) para que o som do órgão se fizesse ouvir. 

Do lado paterno, meu avô José Maria das Dores, retratista estimável, é autor da pintura existente no tecto do guarda-vento da Matriz de Santa Cruz, e foi ele que pintou os frescos que ainda hoje podem ser vistos no interior do Império das Fontes. 

Eu próprio, em criança, vestido de túnica vermelha e de sobrepeliz de renda branca, ajudei muitas vezes as missas de domingo do padre Simões, manuseando, com grande familiaridade, as galhetas, os cálices, a patena, as sagradas hóstias, o pão e o vinho… Cheguei a ter, por essa altura, um assomo de vocação sacerdotal. Na sala de estar da minha casa na Rua Marquês de Pombal, eu dizia missas em latim, acolitado por minha mãe e pelo meu irmão José Elmiro, compenetradíssimo do meu papel, em altar improvisado e perante assembleias de devotos e curiosos. Vestido a rigor (as casulas eram feitas pelas mãos de ternura da minha mãe), eu encenava na perfeição, os actos litúrgicos: dava a comunhão (as hóstias eram substituídas por pastilhas de mentol), confessava crianças e adultos, fazia procissões e coroações pelas ruas de Santa Cruz, perante o espanto de todos e a desconfiança do padre Genuíno… Dei início ao agora extinto Bodo da Avenida e que se manteve durante alguns anos. Mas, para grande desgosto da minha mãe, não cheguei a ingressar no Seminário, porque, já a viver na ilha Terceira, deixei-me enfeitiçar pelos lindos olhos verdes de uma menina da Serreta… 

Escrevo esta crónica em vésperas de embarcar para a minha Graciosa ilha, de muitos ainda esquecida e desconhecida, mas, ainda e sempre, graciosamente bela. 


Victor Rui Dores