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Futebol e poesia

Crónica de Victor Rui Dores

Futebol e poesia


Deus criou o mundo e desistiu de continuar a sua obra ao sétimo dia, porque era domingo e havia um jogo de futebol”. Millôr 



Gosto de futebol mesmo sabendo que ele hoje funciona como uma arma de entorpecimento e como um escape às frustrações do nosso quotidiano. 

Não pertenço à tribo do “desporto-rei” no sentido em que não chamo a mim as vitórias do meu Benfica, mas também me distancio das suas derrotas. Só me deixo contagiar quando joga a seleção portuguesa de futebol: por ela sofro tremendamente até à última gota da adrenalina… Incorporo o futebol na minha vida porque sou homem de emoções e paixões. 

E, para mim, a paixão do futebol nada tem a ver com as suas técnicas e tácticas, mas com o seu lado cénico e estético: a beleza plástica dos corpos e o bailado do acto desportivo, a intensidade emocional da competição, o incentivo dos adeptos, o movimento ondulante das claques, o colorido das bancadas, a euforia da vitória, o drama da derrota… Albert Camus sabia do que falava quando escreveu que “o futebol é a inteligência em movimento”. 

E para quem vê o futebol televisionado existe essa enorme vantagem que é a valorização das imagens (o movimento lento, os diversos e diversificados planos e enquadramentos). Vejo e revejo a mesma sequência de imagens com o mesmo fascínio com que releio um romance, revejo um quadro ou oiço uma sinfonia. Já sei como acaba o romance ou como se desenvolve a sinfonia; já conheço o resultado final do jogo, mas aquele gesto de desalento do atleta derrotado, ou o toque subtil que inventa uma solução impossível para uma jogada aparentemente perdida – são momentos sublimes que só a imagem da televisão permite fruir. Como se fosse um poema. E, bem vistas as coisas, há certos golos que são verdadeiros poemas, como aquele golo do Éder que deu o título europeu a Portugal. (Gomes, antigo jogador do Futebol Clube do Porto, costumava dizer que “marcar um golo é como ter um orgasmo”…). 

Futebol não rima com literatura, mas há nele toda uma linguagem metafórica e uma vertente litúrgica que muito me agrada. Os comentadores desportivos falam dos estádios recorrendo às metáforas “catedral” (que apresenta uma “bela moldura humana”), ou “campo de batalha”. Dizem e escrevem os repórteres que há a “cortina defensiva” e as “entradas assassinas”... E há as “linhas” que sobem e descem, a “variação de flancos” e os centros para “o coração da área”. E, “à boca da baliza”, há “a zona de tiro”. O guarda-redes, que protege “o último reduto”, “agarra imperialmente a bola”. E depois há a “jogada de laboratório”. O “livre em folha seca”. “A angústia do penalty”. A “dança da bola”. O “árbitro, salomónico, que divide o mal pelas aldeias” (mostrando o cartão amarelo a dois jogadores). O defesa que desliza a bola “à flor do relvado”. O médio que é “carregador de pianos”. O remate do avançado é um “petardo”. E “a bola foi beijar as malhas laterais”, ou então foi “anichar-se no fundo das malhas”… Digam lá se tudo isto não é poesia… 




O futebol é hoje a epopeia dos nossos dias. Por exemplo: ao longo do ano apenas no contexto de futebol, e só quando joga “a equipa-de-todos-nós”, é que cantamos “A Portuguesa”, de mão no peito, com algum sentido patriótico… 

Gosto do futebol porque não é real. Há nele uma aura de mistério e magia, pois nem sempre ganha quem joga mais ou melhor. A mesma razão leva-me a gostar de filmes de suspense… Basta ver as jogadas e os golos do Cristiano Ronaldo e do Messi para percebermos que há arte no futebol. Mas tenho saudades do tempo em que o futebol era praticado ao cair da tarde dos sábados e domingos, e constituía uma verdadeira festa familiar. Além disso, o jogo era então menos defensivo e havia mais golos e mais festa. O “amor à camisola” não era uma figura de estilo e a competição era, de longe, mais salutar. 

Sim, gosto da bola, mas não sou um “doente da bola” nem vou à bola com a bola que dá cabo da tola de algumas pessoas… Desagrada-me profundamente a alienação futebolística, a ilimitada mediatização e a excessiva mercantilização do futebol. Com a maior desfaçatez fala-se sobre a compra, troca e venda de jogadores como se estivéssemos a viver novas formas de escravatura… Abomino os fanatismos clubistas e o tráfico de influências: este desporto está inquinado de corrupção, interesses económicos, egoísmo, ambições… Entre o poder, os empresários e os líderes de clubes há promíscuas e perversas conivências... De presidente de clube passa-se a presidente do município e, deste modo, se vai subindo nas hierarquias da governança… 

Como se tudo isto não bastasse, o futebol rouba-me leitores todos os dias. O futebol é um desporto de massas; a literatura nunca o foi. Hoje as massas parecem mais sensíveis aos talentos dos pés dos deuses de futebol do que à palavra divina dos poetas e dos escritores, que, deste modo, continuam obrigados ao estatuto de esquecidos e incompreendidos. 

As artes do chuto levam a melhor. Glória aos vencedores e honra aos vencidos. 













Victor Rui Dores