Graciosa Online

Poesia de viagem

Crónica de Victor Rui Dores

Poesia de viagem


Em criança foi o carro de bois o primeiro meio de transporte que utilizei na minha Graciosa ilha. Os automóveis não abundavam então, e vivia-se circularmente nas calmas, como nos balhos de roda. Andava-se a cavalo e a burro e apanhava-se facilmente “boleia” de numerosos carros de bois. Sobretudo em tempo de vindimas, era vê-los carregados de dornas, atravessando as ruas da vila, numa chiadeira que ainda hoje ecoa nos eixos da minha memória. 


II 

Nesse tempo eram grandes as assimetrias sociais, e muitos dos meus amigos de pião iam para a escola descalços e de sacola de pano a tiracolo. Por isso toda a rapaziada invejava o carrinho de pedais do Rui Gregório que era um luxo: carroçaria toda vermelha, assento amarelo, guiador branco, faróis que acendiam e vidros que rebrilhavam ao sol. Aquilo fazia um vistão lá na Praça! (Para nós, pobretes, estava-nos reservado o perigoso deslizar em carrinhos de ladeira pelo caminho novo do Monte de Ajuda abaixo, em vertiginosas velocidades…). 

A minha primeira viagem de automóvel “a sério” foi no imponente Morris preto do sr. Luís Coelho. E viajava na velha camioneta do sr. Diógenes, sobretudo no período de Carnaval, nas “longas distâncias” que separavam as quatro freguesias da ilha. 

O corpo da dita camioneta desenvolvia-se para trás do motor (que ficava situado à frente e tinha um capô de abrir para os lados), o que lhe dava um ar de “tartaruga”, nome pelo qual ficou popularmente conhecida. Os chassis eram tão velhos que, olhando para baixo, os passageiros viam, através de frinchas, a estrada a seus pés... Viagens lentíssimas, com paragens obrigatórias junto de chafarizes... Percursos feitos em caminhos de terra, pedra e macadame. Um condutor (com força braçal, pois direção assistida era coisa que então não havia) e um cobrador, com a sua mala de cabedal a tiracolo e que, antes de se iniciar a viagem, colocava no tejadilho encomendas e mala do correio que haveriam de ser distribuídas pelos destinatários ao longo dos caminhos. Já com a camioneta em andamento, vinha ele obliterar, pachorrentamente, os bilhetes com uma espécie de alicate… 


III 

Dos caminhos da ilha passei para os caminhos do mar. Fiz muitas e desvairadas viagens em barcos de cabotagem como o Espírito Santo, o Terra Alta e o Santo Amaro. Viagens ótimas quando o tempo estava de feição. Mas com o vento de noroeste e o mar picado é que era um cabo dos trabalhos. O barco a afocinhar nas vagas espumosas. O movimento surdo da hélice, o estremecer dos vidros das janelas. Calor abafadiço. Bafo tépido. Cheiro a suor. As agonias do enjoo… (Vomitava-se para dentro de umas latinhas de alumínio em forma de ampulheta…). 

Em Angra do Heroísmo, e porque vivia na Rua de Santo Espírito, vivi intensamente o “Dia de São Vapor”, com as chegadas do “Carvalho Araújo” e do “Lima”. Nesses navios nunca viajei. Fi- lo a bordo do Ponta Delgada e do Cedros que, na altura, eram para mim um autêntico luxo! Debruçado na amurada do navio, entregava-me à impressão de me deixar levar... Não esquecerei essas animadas viagens inter-ilhas, com muita cavaqueira a bordo e com o José Berto a arrancar, do seu acordeão noctívago, belíssimas melodias enquanto ia bebendo quantidades industriais de vinho e poesia… 




IV 

Na ilha Terceira, as viagens nos autocarros da E.V.T., entre Angra e Praia pelas freguesias, durava uma hora, e era um consolo para o meu corpo adolescente. E, no dia da Entrada Geral da Base, mal ultrapassávamos o Posto 1, era como se partíssemos em busca do pote de ouro para lá do arco-íris… A América ali tão perto! 



Mais tarde, nos meus tempos universitários de Lisboa, quando me sentia desinsofrido, dava-me para aquilo: sentava-me no piso superior de um autocarro de dois andares e deixava-me ir sem destino. Uma viagem em sobe e desce que eu queria que nunca acabasse. Carros em vaivém. Tejo, à direita. Sol a jorros. A luz mediterrânica da capital. Os passageiros a escoarem-se de paragem em paragem e eu, bem lá no alto, a dominar toda a paisagem como numa ponte de comando. 

E quando andava de comboio, aquelas três horas entre Lisboa e Porto davam-me para beber a paisagem e para me transportar às zonas mãos recônditas do sonho e do sono, pois que a isso me convidava o doce embalar da locomotiva… 


VI 

Deixei de ser embarcadiço – hoje sou voadiço… Viajo, entre nuvens, confinado num tubo de alumínio, oprimido com um cinto afivelado na barriga, a 30.000 pés de altitude e a uma velocidade de cruzeiro de 890 km/ hora. Potentes reatores. Combustão. Duas horas e 30 minutos da Horta para Lisboa e nem dá para falar com o passageiro que se sentou a meu lado. Decididamente já não há poesia de viagem… 


Victor Rui Dores