Graciosa Online

Uma praça de toiros na cratera de um vulcão



 

A Terceira é, sem dúvida, a ilha que melhor preserva e acarinha a festa brava. Mas a cultura do toiro é também intrínseca à cultura graciosense e indissociável da alma do povo jorgense. Afinal de contas, esta é uma consequência natural de termos pertencido ao ex-distrito de Angra do Heroísmo.

Graciosense com muito orgulho e saudade, aprendi desde muito cedo a admirar e a respeitar o toiro. Ah, com que ânsia eu aguardava o mês de Agosto. Nas vésperas dos festejos do Senhor Santo Cristo, era certo e sabido que o "Espírito Santo", o "Santo Amaro" ou o "Terra Alta", procedentes da ilha Terceira, haveriam de transportar os toiros, "escolhidos a capricho" para o festival taurino da Graciosa. E nós, os miúdos, lá íamos a correr, esbaforidos de entusiasmo, em direção ao cais de Santa Cruz para assistirmos ao desembarque dos magníficos animais.

Com grande expectativa e emoção bispávamos tudo: os toiros vinham dentro das "gaiolas" (as pessoas mais idosas diziam "caixões") pintadas com as cores das ganadarias e as iniciais das mesmas gravadas no madeirame. Nós tocávamos, a medo, naqueles caixotes em forma de paralelipípedo e, pelos postigos dos mesmos, espreitávamos os bichos e a exiguidade do espaço. Às vezes um ou outro toiro, esparrinhando baba, dava violentas cornadas contra as tábuas que o oprimiam, soltando mugidos lancinantes, e, assustados, desatávamos em correrias cais acima...

Depois chegava a camioneta para carregar as "gaiolas", nós aplaudíamos as manobras do pequeno guindaste, rejubilávamos com o "carro dos toiros", e, sentados em cima das jaulas, lá íamos à boleia para o centro da vila.

Naquele tempo os toiros eram guardados num terreno que fazia parte das antigas ruínas da igreja de S. Francisco. E, naqueles curros improvisados, permaneciam um dia ou dois, expostos aos olhares dos circunstantes, protegidos por paredes de pedra e uns "taipais" inestéticos. Horas antes da tourada, os pastores procediam à embolação e ao "enjaulamento" e nós assistíamos a todos aqueles rituais com grande reverência. Depois era a viagem Monte da Ajuda acima, pelo Caminho Novo. Lá íamos (a "canalha miúda") dependurados nas "gaiolas" sentido o resfolegar dos toiros, desejosos de ver um bom espetáculo.

Assisti, assim, às primeiras tentas e às primeiras touradas no redondel do Monte de Ajuda, redondel que consistia num tosco muro de pedra sobre pedra... Os cabeças de cartaz eram todos terceirenses: o cavaleiro Raul Pamplona (pai de João Carlos Pamplona, então criança como eu e já dedicado à arte equestre), os praticantes Bertinho Pacheco e José Eduardo (que nunca haveriam de envergar traje de luces) e o pegador de caras, João Hermínio (mais tarde o incontornável cabo dos forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirense). Não poucas vezes o toiro investia contra o muro e as pedras "esborralhavam-se"... As condições de segurança eram nenhumas e os momentos hilariantes sobrepunham-se à arte taurina.

Foi neste ambiente que me tornei aficionado, aprendendo se o toiro tinha ou não nobreza e bravura, e codícia na investida. Invariavelmente os toiros eram mansos e, como todos os toiros mansos, imprevisíveis... Lembro-me de uma tourada em que o toiro fugiu da arena... Instalou-se o pânico, os gritos ecoaram por toda a praça e foi um pandemónio...

Durante muitos anos, a Praça de Toiros do Monte de Ajuda haveria de servir de "escola" e de laboratório de experiências para ganadeiros, cavaleiros e toureiros da ilha Terceira. Foi esta circunstância que cimentou a afición graciosense. Entretanto as infraestruturas da praça foram melhorando e crescendo: as pedras do redondel deram lugar ao cimento, foram construídas a trincheira e três bancadas, sendo hoje um espaço que não desmerece e que tem esta particularidade: é a única praça de toiros do mundo construída na base da cratera de um antigo vulcão...

Tenho hoje 56 anos de idade, já assisti a inúmeras faenas dentro e fora de Portugal, mas com quem verdadeiramente aprendi a gostar da festa brava foi com a destreza do cavaleiro Raul Pamplona, as "verónicas" do Bertinho Pacheco e as destemidas pegas do João Hermínio.

 



                                                                               

Victor Rui Dores