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José Afonso - "No Verso das Canções"

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José Afonso - No Verso das Canções

José Afonso

“No Verso das Canções” por João Carlos Callixto

Trinta anos depois da sua morte, José Afonso continua bem vivo na memória de Portugal. Autor de uma obra vasta e diversificada, quer em termos musicais quer poéticos, a sua marca está presente nos artistas de hoje como esteve nos seus contemporâneos, praticamente desde que deu os primeiros passos nesta área. Hoje e aqui, a celebração da sua música faz-se através de uma viagem pouco trilhada: do enorme leque de versões, algumas bem conhecidas, iremos percorrer duas épocas diferentes. Por um lado, juntando seis trabalhos dos últimos anos do Estado Novo, na generalidade pouco lembrados hoje em dia e que marcam de alguma forma momentos-chave na recepção da obra de José Afonso. Por outro, como prova da actualidade, trazendo seis discos editados recentemente. Que venham portanto sempre mais e mais releituras de Zeca!
1ª versão em linguagens pop rock

Os Titãs
, “Menino de Oiro”
EP, Orfeu / Arnaldo Trindade, 1963

Se o rock de então se moldava à imagem dos Shadows, os portuenses Titãs juntavam-lhe os sabores nacionais. Assim, ao lado das versões eléctricas e instrumentais de composições como a “Canção da Beira Baixa” ou “O Timpanas”, de Frederico de Freitas, gravaram como último tema do seu primeiro registo discográfico uma curiosa versão de “Menino de Oiro”, que José Afonso tinha incluído no EP “Baladas de Coimbra”, do ano anterior - o primeiro em que era acompanhado pela guitarra de Rui Pato. Os Titãs eram então formados por Fernando Costa Pereira (autor dos arranjos), João Lourival, António Simões Carneiro e António Braga e gravariam ainda mais dois discos até ao final da década. No último destes, em 1968, bebiam já das águas do psicadelismo e tinham nas suas fileiras o futuro político José Lello.
1º disco consagrado à obra de Zeca (instrumental)

Rui Pato
, “Rui Pato Interpreta em Viola José Afonso”
EP “Rui Pato Interpreta em Viola José Afonso”, Rapsódia, 1964

Rui Pato, apresentado a Zeca pelo seu pai Rocha Pato, foi quem o acompanhou ao longo de praticamente toda a década de 60. Em termos de obra gravada, a colaboração começou no EP referido acima, de 1962, e terminou em 1969, com “Contos Velhos, Rumos Novos” – apenas porque Pato foi impedido pela PIDE de embarcar para Londres, onde iria ser gravado “Traz Outro Amigo Também”, em 1970. Neste EP de 1964, primeiro de dois a solo do guitarrista e médico, todo o reportório é ou da autoria de José Afonso ou a ele associado. É aliás o cantautor que escreve as notas da contracapa, referindo a “sensibilidade” do músico e a “delicadeza das suas interpretações”.

1ª versão gravada por intérpretes estrangeiros

Nuestro Pequeño Mundo
, “Natal dos Simples”
LP “Buenas Noticias de Nuestro Pequeño Mundo, Movieplay, 1969

No segundo álbum deste grupo espanhol, consagrado a músicas provenientes de várias geografias, destaca-se a versão de “Natal dos Simples”, que Zeca tinha incluído no LP “Cantares do Andarilho”, de 1968 – e que daria aliás título a um EP com canções desse mesmo disco. A veia folk destes espanhóis estava também alicerçada na colaboração com o cantor e musicólogo Joaquín Díaz, um dos nomes que mais divulgou as tradições musicais de Espanha, e que se chegou a apresentar ao vivo entre nós. Os Nuestro Pequeño Mundo só terminariam já na década de 80, com vários trabalhos editados e sempre com mudanças na formação.

1º disco consagrado à obra de Zeca (cantado)


Teresa Paula Brito, “Teresa Paula Brito Canta José Afonso”
EP, Riso & Ritmo, 1970

Depois de ter cantado “Vai, Maria Vai” no álbum “Contos Velhos, Rumos Novos”, Teresa Paula Brito abraça no seu quinto trabalho a solo várias canções de José Afonso: “Balada do Sino”, “Vejam Bem”, “O Cavaleiro e o Anjo” e “A Cidade”. Dona de uma das vozes mais singulares da nossa música de 60s e 70s, moldada pelo gospel, pela soul e pelo jazz (caminhos que chegou a trilhar nos dois discos que grava como parte dos Strollers, com o radialista José Duarte), é aqui acompanhada por Carlos Menezes (um dos pioneiros da guitarra eléctrica em Portugal), por Eugénio Pepe (autor de fados como “Agora Choro à Vontade”, gravado em 2009 por Katia Guerreiro) e por Braga Santos (então membro do Conjunto sem Nome). Teresa Paula Brito nunca chega a gravar nenhum álbum a solo, mas participa no Festival RTP da Canção de 1969, com “Buscando um Horizonte”, e dedica em 1971 um EP à poesia de Maria Teresa Horta musicada por Nuno Filipe, onde é acompanhada por membros do Quarteto 1111. Depois do 25 de Abril, grava o single “Mulheres Guerrilheiras”, vindo a falecer em 2003.

1º disco de Amália a gravar José Afonso

Amália Rodrigues
, “Natal dos Simples”
Single, Columbia / Valentim de Carvalho, 1970

“Natal dos Simples” e “Balada do Sino” são as duas canções escolhidas pela diva do fado e das músicas do mundo para incluir num single editado a tempo do Natal de 1970. No mesmo ano dos álbuns “Com Que Voz” e “Amália/Vinicius” – e do sucesso de “É ou Não É” – Amália mostra que o grande reportório dos cantautores não lhe passava ao lado. Com orquestrações do canadiano Dennis Farnon, autor da música da série “Mr. Magoo” (conhecido entre nós como Sr. Pitosga) e que viveu durante uns tempos em Portugal, dificilmente o resultado poderia ser mais bem conseguido. A melhor forma de o apreciarmos é, aliás, através da bem recente reedição em CD duplo de “Amália Canta Portugal”, onde se reúnem estas duas versões e ainda a de “Grândola Vila Morena”, gravada em 1974, além de vários inéditos - parte do belíssimo e anotadíssimo trabalho de recuperação da obra de Amália que está a ser coordenado por Frederico Santiago. E se Amália tivesse gravado um álbum inteiro com músicas de Zeca?...

1ª versão instrumental “easy listening”

Pedro Osório e Seus Amigos!
, “Natal dos Simples”
LP “Música Portuguesa para Dançar”, Alvorada / Rádio Triunfo, 1971

Apesar de o nome de Pedro Osório já há muito ser conhecido no seio da música moderna em Portugal, este é o primeiro disco em que surge pelo seu nome – não contando, no entanto, com os vários que assinou com o Conjunto Pedro Osório, um dos grupos que introduz as linguagens do pop rock em Portugal. Depois de ter passado pelo Quinteto Académico e pelo Trio Barroco, dedica-se a uma bem sucedida carreira como compositor e orquestrador, de que este disco é também reflexo. Ao lado de fados e de canções tradicionais, surgem “Cavalo à Solta”, de Fernando Tordo, “A Minha Cidade”, de Paco Bandeira, ou “Para Lá Daqueles Montes”, de José Cid (popularizado por José Cheta) - e surge este “Natal dos Simples”, com um arranjo que, não sendo talvez para dançar, o faz confirmar como um clássico sem tempo – passando a redundância.





Avancemos agora umas décadas.
No Portugal de hoje, não poderia deixar de destacar algumas das incursões mais recentes à obra de Zeca.
José Barros
, dos Navegante, e o bandolinista italiano Mimmo Epifani fecham o álbum “Mar da Lua”, de finais de 2015, com “Verdes São os Campos”. Na mesma altura, a cantora Maria Anadon e o músico italiano (mas há muito radicado entre nós) Davide Zaccaria incluem “Que Amor Não Me Engana” no seu disco “(RE)cantos da Alma”, entre versões de Amália, João Gil ou Sérgio Godinho e vários originais da dupla. Em 2016, Carla Pires abre “Aqui”, o seu terceiro disco a solo, com “Utopia” – trabalho onde inclui também uma versão de “O Povo Canta na Rua”, do GAC-Vozes na Luta, grupo que tão pouco alvo de versões tem sido.
“Tu Gitana”
e “Achégate a Mim Maruxa”, pelo projecto Flor de Sal, são incluídas no álbum homónimo da dupla formada pelos algarvios Ana Figueiras (voz e flautas) e Zé Francisco (voz e guitarras), este último também conhecido pelos seus Marenostrum. “Tu Gitana” – alvo aliás de uma controvérsia recente com base na gravação em 2013 pela cantora irlandesa Méav de uma versão da canção com o título “The Calling” e na qual não surge creditado José Afonso - tinha sido gravada também em 2015 por Francisco Naia e Ricardo Fonseca no álbum “Nos Cantos da Memória”.
Aproximando-nos do dia de hoje, destaque ainda para as versões de “Canção do Mar” (uma das canções do único disco de Zeca gravado para a Valentim de Carvalho, em 1964), que a aveirense Ela Vaz incluiu no seu álbum de estreia a solo “Eu” (onde participam Rão Kyao, Amélia Muge, Uxía ou Filipe Raposo), e de “As Sete Mulheres do Minho” por Daniel Pereira, que faz parte do “Cavaquinho Cantado”, já de 2017. Que mais Zecas por outros nos reservará o futuro? Venham mais mil!




João Carlos Callixto