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Concertos

Maria João Pires | 26 Março | 21h00

Grande Auditório

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Maria João Pires | 26 Março | 21h00 Maria João Pires | 26 Março | 21h00

© Jorge Carmona / Antena 2


26 Março | 21h00

Realização e Apresentação: Reinaldo Francisco 
Produção: Susana Valente

Gravação da Antena 2 / RTP    
no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian
a 11 de Dezembro de 2020


Maria João Pires com Orquestra Gulbenkian


Maria João Pires, piano
Orquestra Gulbenkian
Direção de Lorenzo Viotti


Programa

Wolfgang Amadeus Mozart
Concerto para Piano e Orquestra nº 20, em Ré menor, K. 466
– Allegro
– Romance
– Rondo: Allegro assai

Dmitri Chostakovitch
Sinfonia nº 9, em Mi bemol maior, op. 70
– Allegro
– Moderato
– Presto
– Largo
– Allegretto – Allegro












Notas ao programa

No início do mês de fevereiro de 1785, Mozart finalizava, em Viena, o Concerto para Piano e Orquestra nº 20, obra-prima do seu legado concertante, influenciada pelo coevo Sturm und Drang. Somente à luz deste movimento literário peculiar se pode, de resto, atribuir pleno significado ao dramatismo intenso da secção introdutória do Concerto nº 20 e à invocação constante de sentimentos interiores, enevoados, muitas vezes, por inquietações e angústias.
No primeiro andamento, o pathos denso e lúgubre da introdução lenta preludia a entrada do solista com o primeiro tema, em gesto ascendente e pausado, qual interrogação existencial talhada não apenas pela incerteza ante as contrariedades, mas também pela esperança na resolução dos problemas e conflitos. Os vivos ritornelos orquestrais agudizam a essência da dialética, a qual pressupõe um plano filosófico e de reflexão existencial que alimenta, a todo o momento, o fluir das ideias musicais. Neste sentido, podem aqui vislumbrar-se traços da mentalidade romântica, os quais viriam a ser invocados, mais tarde, pelo compositor e crítico E. T. A. Hoffmann (1776-1822). O segundo tema desta forma de sonata de primeiro andamento traz consigo a serenidade e a paz. O ritornelo que se segue retoma o material do início do andamento, antes de o solista trazer de novo à textura o segundo tema, processado, a partir de agora, em torrentes melódicas e rítmicas alargadas, já no âmbito do desenvolvimento. No termo da recapitulação, o solista tem espaço criativo para a cadência final, de acordo com a convenção seguida na época.
O segundo andamento prossegue a mesma linha intimista, dominada pela melopeia aparentemente ingénua do piano, a qual, aos poucos, vai desvendando os recantos mais escondidos da alma humana, sob a moldura expressiva das cordas. Este refrão alterna com episódios intermédios, num contínuo que não deixa de fazer sentir, a dado momento, as brumas inquietantes do primeiro andamento. É, contudo, o tema apaziguador do solista que prevalece nos últimos compassos.
Aproximando-se da mesma conceção formal do andamento anterior, o Rondo final impõe renovada vivacidade ao discurso musical, envolvendo solista e orquestra num crescendo de tensões, para o qual concorrem as abundantes indicações de dinâmica. As interações entre o piano e a orquestra anunciam uma nova forma de encarar o género concertante: como um jogo de forças antagónicas em que o virtuosismo técnico do solista passa a desempenhar um papel decisivo. Também deste ponto de vista se prefiguram na obra as tendências iminentes do Romantismo musical.
Gulbenkian Música / Rui Cabral Lopes






A União Soviética foi um dos países mais afetados pela Segunda Guerra Mundial e o seu esforço patriótico refletiu-se na criação de obras musicais de cariz propagandístico. Depois de várias peças de caráter patriótico, Chostakovitch apresentou a sua Sinfonia nº 9. O compositor tinha uma relação complexa com o regime, sendo perseguido e glorificado em simultâneo. Estreada em Leninegrado a 3 de novembro de 1945, a obra frustrou as expectativas das autoridades, pois é uma meditação irónica sobre as consequências da guerra. Chostakovitch inspira-se no Classicismo Vienense, distorcendo-o com fins expressivos.
O primeiro andamento encontra-se numa forma em que dois temas contrastantes são apresentados, desenvolvidos e reexpostos. O primeiro utiliza elementos do estilo clássico, transfigurados para enfatizar o grotesco e criar um efeito de distanciamento, e o segundo é uma marcha que recorre a instrumentos como o flautim, a caixa e o trombone para criar um ambiente militarista. O desenvolvimento desenrola-se em torno de diversas células e atribui solos a alguns instrumentos.
A reexposição é sobreposta ao desenvolvimento, que prossegue até ao final abrupto do andamento. A textura leve do Moderato é o fundo ao qual se sobrepõe a melodia sinuosa dos clarinetes. A adição de instrumentos de sopro pontuados pelas cordas adensa a textura até ao regresso da atmosfera inicial, catalisada pelo solo de flauta.
O Presto brincalhão destaca o clarinete, que se sobrepõe a um contexto dissonante e pontuado pela percussão. Um solo virtuosístico de trompete e um crescendo intensificam a tensão e preparam o regresso do tema inicial, conduzindo ao andamento seguinte sem interrupção. No Largo pontifica uma solenidade trágica centrada num lamento recitado do fagote, apresentada sobre um acompanhamento esparso. O final, Allegretto – Allegro, remete para uma atmosfera circense encarnada pelo primeiro tema, de caráter irónico e satírico, mas que evoca a tragédia. Esse ambiente é interpolado por episódios contrastantes que aceleram e sobrepõem elementos, atingindo o clímax num final cinético em que pontifica o tutti.
Gulbenkian Música / João Silva












Fotos Jorge Carmona / Antena 2