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José Tolentino Mendonça | 14 Outubro 16h00

A Força das Coisas

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José Tolentino Mendonça | 14 Outubro 16h00 José Tolentino Mendonça | 14 Outubro 16h00

© Jorge Carmona / Antena 2


14 Outubro | 16h00


José Tolentino Mendonça

por Luís Caetano
sábados 16h00


"Qualquer momento da Paixão Segundo São Mateus de Bach, é como descer a um jardim


José Tolentino Mendonça acaba de publicar dois livros, O pequeno caminho das grandes perguntas e Teoria da Fronteira. Luís Caetano conversa com o autor sobre estas duas obras e outras "Coisas" que pela sua "Força" vêm a propósito.

Para ouvir, clicar aqui.




O novo livro de poesia de José Tolentino Mendonça, Teoria da Fronteira, dedicado a ad fratres in eremo (irmãos do deserto), como aos que tentam chegar clandestinamente a Lampedusa - título de um dos poemas -, é também uma reflexão sobre os tempos presentes em que se questiona "A fronteira", a existência e a mobilidade dos "Sans papiers" e o seu "Direito de Fuga". 
Estas são as três partes de um livro que nos chama, poeticamente, para uma realidade humanamente urgente. 


"A Fronteira" abre com a seguinte epígrafe de Gloria Anzaldúa: 

"Penso na fronteira como o único ponto da terra que contém todos os outros lugares dentro de si".

e um primeiro poema das quase três dezenas que compõem esta primeira parte:

Partir sem chegar

Precisarás de tempo para alcançar a margem
o ramo do tamarindo onde te espera
o assobio do barqueiro
não é o primeiro
deverás tactear a escuridão da folhagem
e enganares-te tantas vezes
que te convenças que não sabes

estreita é a corrente invisível que nos conduz
por corredores, registos, águas em queda
àquele momento talvez involuntário
onde palavra dita e palavra calada
se tocam



Outros vinte e dois poemas se dividem pelas duas outras partes, entre os quais, este

Mãos Vazias

Mãos vazias são salva-vidas para tempos difíceis
uma afeição a salvo dos especuladores
o seu vazio é uma pedra
e se observares bem ela flutua

as mãos vazias são selvagens na sua beleza
duras mesmo se vulneráveis
são o esconderijo ideal para guardares relâmpagos
e verdades ferozmente concisas

as mãos vazias esperam não o fim mas a fresta
alagadas na ferrugem
e preferem enlouquecer a acreditar
que a realidade é só aquilo que se vê






Em Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, Tolentino Mendonça partiu das reflexões diárias que publicara no periódico italiano "Avvenire", para estes pequenos e múltiplos textos nos quais se escutam perguntas fundamentais, as perguntas sobre a nossa vida, sobre o nosso ser, interrogações essenciais para um regresso, para um reencontro do ser humano consigo próprio: 
«Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? A quem pertenço? Por quem ou por que coisa posso ser salvo?»

Perguntas difíceis que "exigem um mergulho numa autenticidade de vida, para o qual muitas vezes não estamos preparados". Mas, segundo Tolentino, perguntas necessárias para uma construção de cada ser humano e da humanidade. Porque são as perguntas, não as respostas, que nos podem deixar mais perto do sentido, do sentido da Vida.