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Reportagem | A Fome, Todos os Dias

Por Isabel Meira

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Reportagem | A Fome, Todos os Dias Reportagem | A Fome, Todos os Dias

© Ed. img. LDS / Antena 2


A dias das eleições para a Presidência do Brasil, e quando se comemora os 200 anos de Independência do Brasil, a Antena 2, pelo microfone de Isabel Meira aborda, auscultando algumas pessoas de diversos sectores sociais, dos mais graves e crescentes problemas do maior país lusófono: a fome e a pobreza e a desigualdade social.


A Fome, Todos os Dias

Uma reportagem de Isabel Meira


Para ouvirclicar aqui.


No Brasil, mais de 30 milhões de pessoas passam fome.
Quase 120 milhões - ou seja, mais de metade da população - vive com algum grau de insegurança alimentar.
As estatísticas são da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, uma organização independente que junta investigadores e universidades de todo o país.

Os números são, no entanto, contestados pelo presidente do Brasil e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, que nega a existência de fome no país: "fome no Brasil? Fome para valer? Não existe da forma como é falada", afirma Bolsonaro, argumentando que "se for a qualquer padaria não tem ninguém pedindo para você comprar um pão para ele, isso não existe".

Na semana em que o Brasil vai a votos, os índices de fome e pobreza podem ditar quem será o próximo presidente.
O país voltou ao mapa da fome das Nações Unidas e mais de 180 mil pessoas moram na rua.
Só na cidade de São Paulo, são mais de 40 mil pessoas, de acordo com os dados mais recentes do Observatório brasileiro que acompanha a população em situação de sem-abrigo.
É um dos grupos mais atingidos pelo aumento da fome no país, tal como as mães solteiras negras que vivem na periferia das cidades ou as comunidades indígenas.


Em São Paulo, a maior cidade brasileira e a mais populosa da América do Sul, a repórter Isabel Meira acompanhou o trabalho do padre Júlio Lancelotti, que já foi elogiado pelo Papa Francisco, e que criou o Observatório de Aporofobia, para lutar contra o medo, a aversão ou o ódio aos pobres. 
"É o sistema que escolhe quem vai morrer. Os pobres vão morrer.", lamenta o padre Júlio Lancelotti, aos microfones da Antena 2. Todos os dias, o padre serve o pequeno-almoço a centenas de pessoas em situação de sem-abrigo e observa o avanço da fome no país.



A realidade em São Paulo cruza-se com o diário escrito na década de 50 do século passado por Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil, autora de Quarto de Despejo - diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus catava papel para sobreviver e morava sozinha com os filhos na maior favela de São Paulo: "quem inventou a fome são os que comem", escreveu.





Numa altura em que há brasileiros que têm de escolher entre pagar a renda de casa e comer, a repórter Isabel Meira percorreu uma ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), num terreno na periferia de São Paulo, onde mais de 3 mil famílias lutam pelo direito à habitação.






O Brasil prepara-se para fechar o ano de 2022 com níveis recordes de fome, mas é também um país onde se registam elevadas taxas de obesidade, devido ao aumento do consumo de alimentos ultraprocessados. 
No paradoxo brasileiro, a fome convive com um nível recorde de desmatamento da Amazónia e de produção de soja e milho, que são a base dos alimentos ultraprocessados.

A repórter Isabel Meira conversou com a chef de cozinha Bela Gil, um dos rostos da luta pela democratização do acesso à alimentação saudável e pela "comida de verdade". 
Filha de Gilberto Gil e especialista e nutrição, Bela Gil lamenta que a "cultura do arroz e do feijão, nutricionalmente muito importante para o Brasil" esteja a ser posta em causa pelos interesses do agronegócio. 
"A fome é um projecto político", conclui.




A repórter Isabel Meira visitou em casa um dos mais importantes escritores vivos do Brasil, Raduan Nassar, 86 anos. Numa rara entrevista, o autor de Lavoura Arcaica, vencedor do Prémio Camões em 2016, manifesta-se optimista em relação ao futuro do país, apesar de observar que "o Brasil está vivendo um momento de muita destruição".

Com versos de Carlos Drummond de Andrade e música de Gilberto Gil na cabeça, o filósofo indígena Ailton Krenak caminha pelo centro de São Paulo: "você anda pelas cidades e você vê as pessoas apodrecendo nas calçadas, misturadas com lixo". 
Nome maior da luta pelos direitos dos povos indígenas, autor de A vida não é útil, Ailton Krenak reflecte sobre o que se passa no Brasil e no mundo: "tudo é política. Mas tem uma política que é predatória e que actua para produzir fome e miséria no mundo".




Fotos e texto de Isabel Meira