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O Tempo e a Música
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O Tempo e a Música Rui Vieira Nery / Produção: Cristina do Carmo

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José Atalaya (1927-2021)

Maestro e pioneiro divulgador da música erudita

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José Atalaya (1927-2021) José Atalaya (1927-2021)

@ Arquivo RTP


Um dos fundadores da rádio clássica em Portugal faleceu no passado dia 19. Compositor e maestro, José Atalaya teve um papel pioneiro e decisivo na divulgação da música erudita em Portugal. 

José Atalaya (1927-2021)

A Antena 2 homenageia este grande melómano e promotor da Música, transmitindo a sua entrevista realizada em 2008 ao programa Quinta Essência, de João Almeida,
hoje, 23 de Fevereiro pelas 19h00.

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Também o programa Império dos Sentidos, de Paulo Alves Guerra, foi dedicado a esta marcante figura da divulgação musical

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José Maria Atalaya Mera Bonito Oliveira nasceu há 93 anos, a 8 de Dezembro de 1927, na Rua do Amparo, ao Rossio, em Lisboa, no seio duma família ligada à música. 
Durante a 2ª Guerra Mundial, e quando vivia no Campo Pequeno, aos 12, 13 anos teve uma paixão pela aviação e quis ser aviador; contudo e por ser filho de mãe espanhola, não lhe era permitida a entrada na Academia Militar.  
Durante o Liceu quis ser cientista ao ser inspirado pelas descobertas de Louis Pasteur, e foi para o Instituto Superior Técnico. Mas a engenharia não foi o que esperava e de repente descobre a música clássica, através da rádio e dos programas de Isidro Aranha, e das palestras radiofónicas semanais de Luís de Freitas Branco, e pela qual se apaixona. A impressão causada pela música de Joly Braga Santos, aluno de L. Freitas Branco, leva-o a procurá-lo nas instalações da rádio ao Quelhas, em 1947, e a propor-se como seu aluno. 
Durante os anos seguintes até 1955, José Atalaya estudou análise, composição e história da música com aulas particulares, e gratuitas, com Luis de Freitas Branco, que fora afastado por razões políticas do Conservatório Nacional, e em paralelo, Atalaya estuda as bases musicais, como o solfejo.
A sua primeira obra, como compositor, inspirou-se, por sugestão do seu mestre, num dos poemas do livro As Mãos e Frutos, de Eugénio de Andrade. Pouco depois, Luís de Freitas Branco morre, e Atalaya chocado, interrompe esse seu percurso de composição, retomando-o somente dez anos mais tarde. 
O interesse pela composição é renovado quando entrevista pela RDP, em Basileia, na Suíça, o compositor francês Pierre Boulez e ficou fascinado pelo seu trabalho.  
Bolseiro da Fundação Gulbenkian, estudou direção de orquestra no Conservatório de Hanover na Alemanha, com os maestros Félix Prohaska e Hans Swarowsky, e depois no Conservatório em Florença, entre os quais com uma das referências da música eletrónica, o compositor italiano Pietro Grossi (1917-2002).

Entretanto em 1951 tinha ingressado na Emissora Nacional como Assistente musical.  Em 1956, participou nas emissões experimentais da RTP, com a violinista Leonor Prado (1917-2017) e a pianista Nella Maissa (1914-2014), com um programa intitulado Música e Artistas.
Em 1966 introduziu os famosos concertos comentados para jovens com uma orquestra fundada pelo maestro, a Orquestra Clássica IMAVE - Instituto de Meios Audio-Visuais de Educação, por proposta do Ministério da Educação. Todas as semanas até 1974, a Emissora Nacional e a RTP transmitiam concertos comentados, realizados em escolas, universidades, mas também em salas como o Teatro Nacional de São Carlos ou o Teatro Rivoli.

Foi co-fundador e Diretor da Juventude Musical Portuguesa, presidida por Luís e João de Freitas Branco. Foi também primeiro diretor e fundador do Grupo Experimental de Ópera de Câmara, criado e subvencionado pela Gulbenkian.

Na televisão, José Atalaya foi também pioneiro como divulgador de música clássica. Aliás, nesse papel, ficou genericamente conhecido como o Leonard Bernstein português.
Manteve a colaboração com a televisão pública até 1974, num percurso de divulgação que se extravasou para diferentes palcos nacionais, através de programas como Quinzenário Musical e Semanário Musical. Em Julho de 1975, regressou à EN/RDP (Radiodifusão Portuguesa), como coordenador artístico das três orquestras da instituição, existentes à época.

Como maestro, ainda em 74, dirigiu a Orquestra Philharmonia, uma das mais prestigiadas do mundo, num concerto inserido numa integral das sinfonias de Beethoven. 

Em 1977, assumiu com Maria João Pires, as comemorações dos 150 anos da morte de Beethoven, e por intervenção do pianista Orazio Frugoni, é designado membro do Conselho Nacional da Música (UNESCO).  
Nesse ano integra a comissão nomeada por Alarcão Troni para a elaboração da Lei de Bases da Educação e da Cultura.

Em 1983 é responsável pelo Programa 2 da RDP, e institui a prática de fazer preceder, com breves comentários didáticos e informais, e por vários colaboradores, a quase totalidade da programação do único canal clássico existente no país.
Por não concordar com a extinção em Onda Media da emissão diária do Programa 2 (do qual  fora um dos fundadores com Manuel Bivar e Silva Dias) pediu novamente a demissão.

Em 1992, já aposentado da RDP, foi convidado a fundar a Orquestra Clássica do Porto, que teve por base os instrumentistas da ex-Régie Sinfonia do Porto, e foi nomeado diretor titular da Orquestra Sinfónica do Porto, numa vivência mais próxima da Música.

Foi autor de A Cassete Azul, livro de educação musical em forma de diálogo, editado pela Plátano, e posteriormente de Labirintos da Música - Crónicas de intervenção e de aplauso, publicado pela Caixotim Edições, em 2001.

Sob o patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura iniciou, em 1994, a antologia discográfica Cinco Séculos de Música Portuguesa, tendo publicado cerca de 30 títulos em dois anos.
Promoveu festivais dedicados à música de diversos países, mas também à música e intérpretes portugueses, com vista à conquista de novos públicos e abrindo perspetivas aos intérpretes. Dirigiu vários ciclos musicais na cidade de Lisboa, como "A Mulher e a Música", ou "Música em Diálogo", e promoveu Recitais e concertos de música de câmara, comentados, realizados em palcos de muitas autarquias pelo país.

Em 1998, com o apoio da Câmara Municipal de Fafe, fundou com Linda Magalhães Abreu, a Academia de Música José Atalaya.
Promoveu o Festival Raízes Ibéricas que passou a dispor de Orquestra própria, em 2003, a Orquestra Atalaya Raízes Ibéricas dirigida por ele. No ano seguinte, iniciam-se as gravações desta orquestra em CDs para a Numérica, quer dos maiores autores universais como de compositores portugueses,
Esta editora, e com um intuito essencialmente pedagógico já tinha lançado a série Pedagogia em Disco, com textos exaustivos, gráficos e dezenas de exemplificações, e, em 2007, publica Geografia Musical.

Em 2006, realiza com João Maria de Freitas Branco, uma das séries do programa Caleidoscópio, da Antena 2.

Com uma vida inteira dedicada à música, o maestro José Atalaya faleceu a 19 de Fevereiro de 2021, em Lisboa.